Após o “beijo” que uniu as duas margens em julho, obra completa se aproxima da conclusão e Porto Murtinho acelera infraestrutura para receber o fluxo turístico e logístico da nova rota
Um mês depois de a Ponte Internacional da Rota Bioceânica ter suas duas margens finalmente unidas — o chamado “beijo das aduelas”, marco simbólico que encerrou mais de três anos de espera entre os lados brasileiro e paraguaio —, a obra que vai conectar Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, a Carmelo Peralta, no Paraguai, entra agora em sua fase final, com entrega completa da estrutura prevista para este mês de agosto de 2026. A diferença em relação à cobertura anterior é justamente essa: se em julho o destaque era a união física dos dois lados da ponte, agora o que está em jogo é a conclusão de toda a obra — incluindo os serviços complementares de segurança, monitoramento e acabamento — e a corrida das cidades da região, com destaque para Porto Murtinho, para se prepararem para o novo fluxo de turistas, caminhões e negócios que a rota deve trazer.
A ponte terá 1.294 metros de extensão e 21 metros de largura, e é considerada uma das obras mais estratégicas para a integração logística da América do Sul. Atualmente, cerca de 280 trabalhadores, entre brasileiros e paraguaios, seguem atuando diretamente na obra. Após a finalização da ligação principal entre as duas margens, passaram a ser executados serviços complementares fundamentais para garantir a estabilidade e a segurança da estrutura: a instalação de cabos de aço embutidos na laje de concreto armado, para consolidar a união estrutural entre os dois países, o retensionamento dos 168 estais que sustentam o vão central e a colocação de 168 amortecedores para controle de vibração.
Os dois pilares centrais e os cabos estaiados vão receber sensores eletrônicos capazes de monitorar cargas e deformações em tempo real, enviando dados contínuos a centrais computacionais — um sistema que vai permitir o acompanhamento do comportamento estrutural da ponte, inclusive durante a passagem de veículos pesados ou em situações excepcionais. Entre as etapas finais também estão a implantação de iluminação fluvial para navegação segura no Rio Paraguai, o acabamento do pavimento, a instalação de guarda-corpos e de estrutura para pedestres e ciclistas — a ponte contará com ciclovia —, além de asfaltamento, pintura e sinalização viária.
A ponte é peça central do Corredor Rodoviário de Capricórnio, mais conhecido como Rota Bioceânica, que vai conectar os portos chilenos de Antofagasta e Iquique ao Brasil, passando por Paraguai e Argentina. Segundo estimativas do setor de logística, a nova rota deve reduzir em mais de 9,7 mil quilômetros o trajeto marítimo das exportações brasileiras destinadas à Ásia. Em viagens com destino à China, a expectativa é de redução de até 23% no tempo de transporte, o que representa uma economia estimada entre 12 e 17 dias no percurso — um ganho de competitividade relevante para os exportadores da região Centro-Oeste, incluindo o polo agroindustrial de Campo Grande, que já usa corredores terrestres para escoar parte da produção a países vizinhos. Além da ponte e dos acessos viários, estão previstas estruturas alfandegárias integradas em ambos os lados da fronteira. Projeção inicial da Receita Federal do Brasil aponta para um fluxo diário de aproximadamente 250 caminhões, com tendência de crescimento à medida que o corredor se consolide como alternativa logística estratégica para o Mercosul e os mercados asiáticos.
Enquanto a obra da ponte avança para a reta final, a Prefeitura de Porto Murtinho também acelerou, neste mês de agosto, uma obra orçada em R$ 5 milhões voltada especificamente ao atendimento de turistas e visitantes que devem passar a usar a Rota Bioceânica. O espaço, batizado de “Orla do Rio”, terá 600 metros quadrados e contará com receptivo, pista de caminhada, bar e área para contemplação do Rio Paraguai — uma aposta do município em se posicionar como porta de entrada turística e ponto de apoio logístico da nova rota internacional, à medida que a conclusão da ponte se aproxima. A iniciativa integra um conjunto mais amplo de investimentos em infraestrutura, saúde e turismo que Porto Murtinho vem realizando de olho na consolidação da Rota Bioceânica como eixo de desenvolvimento para o município, historicamente distante dos grandes centros econômicos do Estado.
O tema também deve ganhar espaço no debate público sul-mato-grossense nas próximas semanas. Está marcado para o dia 13 de agosto, em Campo Grande, o IV Encontro Sul-Mato-Grossense de Administração (ESMAD), que vai reunir painéis sobre os impactos da Rota Bioceânica na economia, no turismo, no trabalho e na gestão pública do Estado, com discussões sobre logística, internacionalização de empresas e oportunidades de negócio geradas pela nova conexão com o Pacífico. O evento reforça o interesse crescente de setores acadêmicos e empresariais de Mato Grosso do Sul em entender e se antecipar aos efeitos da rota sobre a economia regional.
Para especialistas em logística e para o próprio governo estadual, a conclusão da ponte não encerra o processo de maturação da Rota Bioceânica — pelo contrário, marca o início de uma nova fase, em que a infraestrutura física passa a ceder espaço para os desafios operacionais: a instalação plena das estruturas alfandegárias, a integração dos sistemas de fiscalização entre Brasil e Paraguai, e a capacidade dos municípios ao longo do trajeto, como Porto Murtinho, Bela Vista e Jardim, de se estruturarem para captar os benefícios econômicos do novo fluxo de cargas e visitantes. Com a entrega da ponte prevista para as próximas semanas, o Estado deve entrar em um período decisivo para transformar a obra de engenharia em resultado econômico concreto — o que deve pautar a agenda de infraestrutura e desenvolvimento regional de Mato Grosso do Sul até o fim de 2026.
Fontes: Dourados Agora – Ponte Bioceânica avança e entra na reta final para conectar Brasil ao Pacífico; RCN67 – IV ESMAD debate Rota Bioceânica e oportunidades para MS 2026; Campo Grande News – Municípios de MS disputam protagonismo na Rota Bioceânica em 2026
