Dados do BNDES mostram R$ 40,1 milhões destinados a motoristas de aplicativo e R$ 4,9 milhões a taxistas no Estado; programa virou linha permanente, financia veículos de até R$ 200 mil em 84 parcelas e cobra juros menores de mulheres
O programa Move Brasil já aprovou R$ 45 milhões em financiamentos para 437 clientes de Mato Grosso do Sul, segundo dados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) divulgados nesta sexta-feira (18). O valor equivale a uma média de aproximadamente R$ 102 mil por contrato e se destina à compra de veículos por profissionais que usam o carro como ferramenta de trabalho — motoristas de aplicativo e taxistas.
Do total aprovado no Estado, R$ 40,1 milhões foram para motoristas de aplicativo e R$ 4,9 milhões para taxistas. Um recorte específico chama atenção no levantamento: R$ 5,3 milhões foram destinados a mulheres que atuam nessas profissões, categoria que conta com taxa de juros diferenciada dentro da linha.
Os números foram obtidos e publicados pelo Campo Grande News, que também procurou os bancos e cooperativas operadoras do crédito para medir a procura em Mato Grosso do Sul. O Banco do Brasil concentra a maior parte das operações no Estado: a instituição informou ter alcançado R$ 31,8 milhões em negócios, beneficiando mais de 300 clientes. Caixa Econômica Federal, Sicredi e Sicoob não responderam ao questionamento sobre o número de participantes em MS.
Como o programa funciona
Criado inicialmente com caráter temporário, o Programa BNDES Move Motoristas passou a ser uma linha permanente de apoio aos profissionais do transporte por aplicativo e táxi. A mudança é relevante do ponto de vista de planejamento: retira o componente de urgência que costuma marcar programas com janela fechada e permite que o motorista organize a troca de veículo conforme o próprio ciclo de trabalho e endividamento.
A linha financia veículos novos — incluindo modelos elétricos, híbridos e flex — no valor de até R$ 200 mil, com prazo de pagamento de até 84 parcelas. A regra também passou a permitir a aquisição de modelos utilitários, o que abre espaço para profissionais que atuam com transporte de mercadorias, e não apenas de passageiros.
Os critérios de elegibilidade são objetivos. Motoristas de aplicativo precisam ter cadastro ativo há pelo menos seis meses e comprovar ao menos 100 corridas realizadas nesse período na mesma plataforma. Taxistas precisam estar com licenças e registros ativos junto aos órgãos de trânsito e em situação de regularidade fiscal.
As taxas de juros permanecem em 12,6% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres, já incluídos o spread e as taxas bancárias. A diferença de 1,1 ponto percentual é um instrumento de política pública voltado à ampliação da presença feminina em um segmento historicamente masculino, e ajuda a explicar por que o recorte de gênero aparece destacado nos dados do banco de fomento.
Do aluguel ao ativo próprio
O ponto central do programa, para quem está na ponta, é a substituição do aluguel de veículo pela aquisição. É uma troca de natureza patrimonial: o motorista deixa de pagar uma despesa recorrente que não gera ativo e passa a amortizar um bem que permanece com ele ao final do contrato.
Para o presidente da Applic-MS (Associação de Parceiros de Aplicativos de Transporte de Passageiros e Motoristas Autônomos de Mato Grosso do Sul), Paulo Pinheiro, a mudança tem impacto direto no custo mensal da atividade, sobretudo quando combinada com a opção pelo carro elétrico.
“Economia é de 70% para quem tem carro elétrico, porque praticamente não vai gastar combustível. Vai ter que só colocar carga, que nem celular. O aluguel vai economizar em torno de 40% de aluguel. Está adquirindo o bem, porque o aluguel é um dinheiro sem volta”, afirmou.
A observação sintetiza a lógica econômica de quem roda por aplicativo: combustível e depreciação são as duas maiores linhas de custo, e ambas são atacadas simultaneamente por um veículo elétrico novo financiado em condições subsidiadas. Em contrapartida, a eletrificação transfere parte do risco para outra variável — a disponibilidade e o preço da recarga.
A conta de quem já aderiu
O Campo Grande News ouviu a motorista de aplicativo Kátia Cardoso, de 47 anos, que decidiu trocar o carro usado no dia a dia por um modelo elétrico. Segundo o relato, ela iniciou o processo de compra antes de 25 de agosto e adquiriu um BYD Mini por R$ 109.990 à vista, dentro do Move Brasil, com financiamento de 100% do valor e taxa de juros de 0,90%.
Pelas condições contratadas, as primeiras parcelas, entre novembro e fevereiro, ficam em R$ 1.005. A partir de março do próximo ano, o valor sobe para R$ 2.207. O veículo ainda não foi entregue. Há também, segundo ela, uma parceria entre o Banco do Brasil e a Uber que dilui parte do valor das parcelas: a partir da 12ª parcela, a motorista deve receber valores de volta pelo aplicativo, totalizando R$ 7,5 mil — o equivalente a cerca de 3,5 parcelas.
A comparação que ela faz com a situação atual é o dado mais revelador da reportagem. Com o carro que usa hoje, um Renault Kwid, a motorista estima gasto mensal de aproximadamente R$ 4 mil somando parcela, gasolina, seguro e manutenção — sendo R$ 1,7 mil apenas de parcela.
“Eu gasto praticamente R$ 4 mil, com a parcela, gasolina e seguro. Só a parcela é R$ 1,7 mil, fora a manutenção. Se eu fosse comprar um BYD fora do programa, sairia uma parcela de R$ 3,9 mil. Fora do programa, o elétrico não cabia no meu bolso. Já ajudou muito, praticamente a metade do valor”, disse.
Na projeção dela, o abastecimento também muda de patamar: são estimadas quatro recargas por semana, a um custo aproximado de R$ 150 semanais. “A cada R$ 35 que eu abastecer, vou rodar um dia e meio. Eu vou gastar R$ 3 mil junto com o seguro, a parcela e a gasolina”, calculou. A motorista trabalha de segunda a sexta-feira, começa a jornada entre 4h30 e 5h, e tem renda bruta mensal entre R$ 7 mil e R$ 8 mil.
Crédito produtivo para o trabalhador autônomo
Enquadrado no debate sobre empreendedorismo, o Move Brasil é um caso relativamente raro de crédito produtivo desenhado para o trabalhador por conta própria de baixa formalização. O motorista de aplicativo não tem holerite, não tem contrato com a plataforma e, em muitos casos, tem faturamento irregular — características que costumam empurrá-lo para linhas de crédito pessoal mais caras.
O Banco do Brasil informou ao Campo Grande News que considera a capacidade de pagamento e a renda comprovada pelos clientes, incluindo documentos e comprovantes emitidos pelas próprias plataformas digitais de transporte de passageiros e mercadorias, além de critérios internos de perfil, histórico e comportamento financeiro. Na prática, o extrato do aplicativo passa a cumprir a função de comprovante de renda.
Esse é um movimento com implicações que vão além do setor de mobilidade. Ao aceitar dados de plataforma como prova de faturamento, o sistema financeiro cria precedente para outros trabalhadores digitais — entregadores, prestadores de serviço por marketplace, profissionais de economia criativa — que hoje enfrentam a mesma barreira de comprovação.
O que observar em Mato Grosso do Sul
Os R$ 45 milhões aprovados até agora dizem respeito a um universo ainda pequeno diante da frota de motoristas ativos no Estado, concentrada sobretudo em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas. A evolução do número de contratos nos próximos trimestres indicará se a linha permanente consegue manter ritmo depois do impulso inicial.
Dois indicadores merecem acompanhamento. O primeiro é a participação dos veículos elétricos no total financiado: se a combinação de juros subsidiados e economia de combustível se confirmar na prática, a linha pode se tornar um vetor relevante de eletrificação da frota urbana de MS. O segundo é a inadimplência, ainda sem série histórica consolidada, que dirá se o desenho de renda baseado em dados de plataforma é sustentável.
Há ainda uma questão de infraestrutura que o programa não resolve sozinho. A viabilidade do carro elétrico para quem roda 10 ou 12 horas por dia depende de pontos de recarga rápida distribuídos pela cidade e de tarifas previsíveis de energia. Sem isso, a economia estimada pelos motoristas pode se converter em tempo parado — que, para quem é remunerado por corrida, é custo puro.
Outro elemento que costuma passar despercebido é o efeito do programa sobre o mercado de veículos usados. Cada motorista que troca o carro por um modelo zero-quilômetro devolve ao mercado um usado com quilometragem alta e desgaste acima da média, o que pressiona avaliações e prazos de giro nas revendas. Em um Estado onde o seminovo é a principal porta de entrada da classe média no automóvel, esse fluxo adicional de oferta tende a se refletir nos preços praticados nas garagens de Campo Grande ao longo dos próximos meses.
Do lado das concessionárias, a linha do BNDES funciona como um canal de demanda relativamente estável, menos sensível ao humor do consumidor comum, porque atende a uma necessidade de trabalho e não a uma decisão de consumo. Não por acaso, marcas que apostam em modelos elétricos de entrada — faixa em que o BYD Mini adquirido pela motorista ouvida pela reportagem se enquadra — têm direcionado esforço comercial específico a esse público.
Para as associações de classe, como a Applic-MS, o programa também altera a correlação de forças na relação com as plataformas. Um motorista proprietário do próprio veículo tem menos custo fixo diário e, portanto, mais margem para recusar corridas mal remuneradas. É uma mudança silenciosa, mas que pode influenciar a dinâmica de preços e de disponibilidade do serviço nas cidades sul-mato-grossenses no médio prazo.
Fontes: Campo Grande News — Move Brasil libera R$ 45 milhões para 437 motoristas de aplicativo e táxi em MS, de Izabela Cavalcanti (18/09/2026); dados do BNDES citados na reportagem.
