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Lendo: MS aproveita só 6,5% do biometano que poderia extrair da vinhaça das usinas
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Empreenda MS > Sustentabilidade > MS aproveita só 6,5% do biometano que poderia extrair da vinhaça das usinas
Sustentabilidade

MS aproveita só 6,5% do biometano que poderia extrair da vinhaça das usinas

Empreenda MS Publicado em 23/09/2026 1 visualização
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13 minutos de leitura
Grandes tanques brancos de biodigestão em meio a um campo verde
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Estudo da Abren apresentado no Bio Energy Summit, em Campo Grande, mostra que a vinhaça das usinas poderia render 126 milhões de m³ por safra; projetos da Atvos e da Adecoagro devem multiplicar a capacidade estadual por 5,5

Mato Grosso do Sul transforma em biometano apenas uma pequena fração do gás que poderia extrair dos resíduos de suas usinas de etanol. Levantamento da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren), apresentado durante a 8ª edição do Bio Energy Summit, em Campo Grande, aponta que o Estado aproveita somente 6,5% do potencial de produção do combustível renovável nas usinas sucroenergéticas já instaladas. A vinhaça, subproduto líquido da fabricação do etanol, poderia render 126 milhões de metros cúbicos de biometano por safra — o equivalente a 345 mil m³ por dia —, mas hoje apenas 8,16 milhões de m³ por ano são efetivamente convertidos. Os números foram divulgados pelo presidente executivo da entidade, Yuri Schmitke, e repercutidos pelo jornal Correio do Estado nesta quarta-feira (23).

O diagnóstico revela uma contradição no coração de uma das cadeias mais dinâmicas da economia sul-mato-grossense. O Estado se consolidou como potência na produção de etanol, mas ainda deixa escapar grande parte do valor energético contido nos resíduos que a própria indústria gera. Segundo o estudo, 81,29 milhões de m³ anuais — 64,5% do potencial das usinas já existentes — sequer têm projeto associado, ou seja, não há, neste momento, nenhuma iniciativa em estudo ou implantação para aproveitá-los.

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O que diz o levantamento

A análise da Abren considerou 20 usinas sucroenergéticas de Mato Grosso do Sul e os cerca de 800 mil hectares de cana-de-açúcar espalhados por 42 municípios. Para Schmitke, a principal vantagem competitiva do Estado está na natureza do resíduo: diferentemente de outras matérias-primas usadas na produção de biogás, que precisam ser recolhidas em pontos dispersos, a vinhaça já nasce concentrada dentro das unidades industriais.

“A vinhaça já está coletada, canalizada e concentrada dentro da usina. É o substrato de menor custo logístico do País e, em Mato Grosso do Sul, o menos explorado”, afirmou o dirigente durante o evento.

Na prática, isso significa que boa parte do desafio logístico que costuma encarecer projetos de biogás — transporte de dejetos, armazenamento, padronização da matéria-prima — já está resolvida no caso das usinas. O gargalo, portanto, não está na oferta de resíduo, mas na decisão de investir e na capacidade de estruturar projetos com escala suficiente para se pagarem.

Muitas plantas, pouco volume

Os dados apresentados no summit mostram outro descompasso. Mato Grosso do Sul ocupa a sexta posição nacional em número de plantas de biogás, com 107 unidades em operação, mas não figura entre os dez maiores produtores em volume. A produção estadual chega a 0,26 milhão de metros cúbicos normais (Nm³) por dia, com média de 2,4 mil Nm³ diários por planta — um terço da média brasileira, que é de 7,5 mil Nm³ por dia.

O retrato é de um parque pulverizado, formado majoritariamente por biodigestores de pequeno porte. A origem da matéria-prima também diferencia o Estado do restante do país: agropecuária e indústria respondem por 96% do biogás produzido em Mato Grosso do Sul, enquanto, na média nacional, 64% do volume vem de resíduos sólidos urbanos e de esgoto. Em outras palavras, o biogás sul-mato-grossense é essencialmente rural e agroindustrial, o que reforça a conexão do tema com a vocação econômica do Estado.

Para Schmitke, esse perfil indica o caminho a seguir. “O caminho para a evolução de Mato Grosso do Sul nesse setor não virá de mais biodigestores pequenos. Virá de projetos de grande porte, mesmo que sejam poucos, ancorados na agroindústria, com agregação de substratos entre usinas vizinhas”, defendeu.

Uma base produtiva que favorece a escala

A tese da Abren se apoia no tamanho e na diversidade da base produtiva sul-mato-grossense. De acordo com os números reunidos no estudo, o Estado registrou R$ 77,9 bilhões em valor bruto da produção agropecuária em 2025, moeu 52 milhões de toneladas de cana na safra 2025/2026 e produziu 5 bilhões de litros de etanol.

A lista de potenciais fornecedores de resíduos orgânicos vai muito além da cana. Mato Grosso do Sul tem 18,8 milhões de cabeças de gado, cerca de 300 granjas de suínos, abateu 78,2 milhões de frangos entre janeiro e maio deste ano e abriga aproximadamente 50 indústrias de fécula de mandioca. Cada uma dessas cadeias gera efluentes e resíduos que, combinados, poderiam alimentar biodigestores de maior porte.

A lógica é a da agregação: em vez de cada propriedade ou indústria manter seu próprio sistema de pequena escala, projetos regionais poderiam reunir diferentes substratos em uma mesma planta, ganhando eficiência e volume. Esse tipo de arranjo tende a melhorar a viabilidade financeira, já que plantas maiores diluem custos fixos e produzem gás em quantidade suficiente para justificar a purificação até o padrão de biometano, que pode substituir o gás natural fóssil e o diesel.

Quem já produz — e quem vem aí

Hoje, três unidades produzem biometano em Mato Grosso do Sul. A SF Agropecuária, em Brasilândia, tem capacidade de 4,38 milhões de Nm³ por ano; a Adecoagro, em Ivinhema, de 2,40 milhões; e a JBS, em Campo Grande, de 1,38 milhão. Somadas, essas plantas explicam o volume modesto que o Estado extrai atualmente.

O cenário, porém, deve mudar nos próximos anos. Dois novos projetos anunciados devem elevar a capacidade estadual para 44,71 milhões de m³ anuais — 5,5 vezes o volume atual. O maior deles é da Atvos, que prevê uma unidade em Nova Alvorada do Sul com capacidade de 28 milhões de m³ por ano e investimento de R$ 350 milhões. A Adecoagro, por sua vez, prepara a ampliação da planta de Ivinhema, com capacidade adicional de 8,55 milhões de m³ anuais e aporte de R$ 225 milhões. Segundo o levantamento, a expansão deve elevar de 5% para 20% o aproveitamento da vinhaça naquela unidade.

Mesmo com esse salto, o Estado ainda estaria distante do potencial total calculado pela Abren para as usinas instaladas, o que mostra o tamanho do espaço disponível para novos investimentos. Outras estimativas apresentadas no mesmo evento apontam um horizonte ainda mais amplo: segundo reportagem da Gazeta de Dourados, o economista Hudson Garcia, sócio-diretor da Agricon Consultoria, citou potencial estimado de 7 milhões de metros cúbicos de biometano por dia em Mato Grosso do Sul, considerando o conjunto de resíduos orgânicos do Estado — e não apenas a vinhaça das usinas.

O milho como virada de chave

Um dos pontos centrais do estudo é o papel do etanol de milho. Mato Grosso do Sul é o segundo maior produtor nacional desse biocombustível, e a participação do cereal na produção estadual cresceu rapidamente: na safra 2025/2026, 44% do etanol sul-mato-grossense veio do milho, contra 25% no ciclo 2023/2024. Com as expansões já anunciadas, serão cinco unidades de etanol de milho em operação no Estado.

A importância para o biometano está no calendário. A vinhaça da cana se concentra em cerca de nove meses de safra, o que deixa os biodigestores ociosos ou subutilizados na entressafra. Já os efluentes da produção de etanol de milho permitem operação durante os 12 meses do ano. Combinar as duas fontes, segundo a Abren, muda a natureza do investimento.

“A integração cana e do milho transforma o biodigestor de ativo sazonal em ativo de base. Isso muda a curva de receita, o dimensionamento do projeto e, principalmente, a percepção de risco de quem financia”, explicou Schmitke.

A observação toca num ponto sensível para qualquer projeto de infraestrutura energética: o financiamento. Um ativo que opera o ano inteiro, com fornecimento previsível de matéria-prima, tende a ser visto por bancos e investidores como de menor risco, o que pode facilitar o acesso a crédito e reduzir o custo do capital. A própria Atvos anunciou R$ 2,36 bilhões em investimentos em Mato Grosso do Sul, incluindo duas plantas de etanol de milho, em Nova Alvorada do Sul e em Costa Rica.

Rede de gás e regras de conexão

Para que o potencial se converta em produção, a Abren aponta a necessidade de facilitar o acesso dos produtores à rede de distribuição de gás. Sem uma forma economicamente viável de escoar o biometano, muitos projetos ficam restritos ao consumo interno ou à geração de energia elétrica no local, o que limita sua escala e sua rentabilidade.

Como referência, Schmitke citou a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição Verde (Tusd-verde), criada em São Paulo — um modelo tarifário que reduz barreiras para a conexão de projetos de biometano à rede. A entidade propõe transformar Mato Grosso do Sul em um polo agroindustrial de biometano, com integração de resíduos entre usinas próximas, acesso à rede de gás e contratos de longo prazo que deem previsibilidade aos investidores.

A necessidade de regras estáveis também foi destacada por Hudson Garcia, da Agricon, segundo a Gazeta de Dourados. Além do biometano, o setor sucroenergético aposta em mercados como o diesel verde e o combustível sustentável de aviação (SAF), e a consolidação desses projetos, na avaliação do economista, depende de segurança jurídica para atrair capital.

Peso econômico e próximos passos

O debate ocorre num momento em que a cadeia sucroenergética ganha peso crescente na economia do Estado. Dados divulgados durante o Bio Energy Summit indicam que o setor emprega mais de 34,5 mil trabalhadores diretos e terceirizados, movimenta cerca de R$ 1,4 bilhão em salários e responde por 19% do PIB industrial sul-mato-grossense.

Transformar resíduos em combustível agrega valor a essa cadeia sem exigir nova área plantada e reforça a agenda de descarbonização. Os próximos passos dependem da saída do papel dos projetos da Atvos e da Adecoagro, da estruturação de novos empreendimentos para os 64,5% do potencial ainda sem projeto e de uma regulação que viabilize a conexão do biometano à rede de gás.

Fontes: Correio do Estado — Usinas de MS exploram só 6,5% do biometano; A Gazeta de Dourados (via Dourados Agora) — Bioenergia coloca Mato Grosso do Sul na rota do biometano e de novos combustíveis.

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