Vendas sul-mato-grossenses ao bloco somaram US$ 707 milhões entre maio e setembro; celulose segue na liderança, mas farelo de soja, carne bovina e etanol puxam a alta, e o número de produtos embarcados dobra
As exportações de Mato Grosso do Sul para a União Europeia cresceram 27,3% em receita nos cinco primeiros meses de aplicação provisória do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu. Entre maio e setembro de 2026, as vendas do Estado aos 27 países da UE somaram US$ 707,045 milhões, contra US$ 555,254 milhões no mesmo período de 2025 — um acréscimo de US$ 151,791 milhões. O levantamento foi feito pelo Campo Grande News a partir do sistema ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e divulgado nesta quarta-feira (14).
O resultado traz duas novidades em relação ao padrão histórico da pauta sul-mato-grossense na Europa. A primeira é a troca de comando entre os compradores: a Holanda ultrapassou a Itália e passou a responder por quatro em cada dez dólares que o Estado fatura no bloco. A segunda é a diversificação. No recorte de 2025, MS havia vendido 37 produtos diferentes para 18 países europeus; em 2026, foram 76 produtos, destinados a 19 nações. Em outras palavras, o número de itens embarcados para a UE mais que dobrou em um ano.
O desempenho estadual ficou um pouco abaixo do nacional. Segundo dados apresentados na terça-feira (13) pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, as exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 30,7% entre maio e setembro, 3,4 pontos percentuais acima do registrado por Mato Grosso do Sul. No acumulado de janeiro a setembro, o Brasil vendeu US$ 44,17 bilhões ao bloco, alta de 20% sobre os nove primeiros meses de 2025.
Um acordo de 25 anos que começa a aparecer nos números
O acordo entre Mercosul e União Europeia levou mais de duas décadas para sair do papel. As negociações começaram em 1999, o entendimento político foi anunciado em dezembro de 2024 e a assinatura ocorreu em janeiro de 2026, no Paraguai. Foram firmados dois instrumentos: o Acordo de Parceria (EMPA), que reúne os pilares político, de cooperação e comercial, e o Acordo Provisório de Comércio (ITA), que antecipa apenas as regras comerciais. Depois da aprovação pelo Congresso brasileiro, em março, o ITA entrou em aplicação provisória em 1º de maio, dando início à redução gradual das tarifas de importação entre os dois blocos.
Juntos, Mercosul e União Europeia formam um mercado de aproximadamente 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto somado superior a US$ 22 trilhões. A redução tarifária é escalonada, o que significa que boa parte do efeito do acordo ainda está por vir. Os números dos primeiros cinco meses, portanto, devem ser lidos como um primeiro termômetro — influenciado também por preços internacionais, câmbio e safra —, e não como o impacto completo da abertura.
Ainda assim, a comparação com o semestre anterior chama atenção. Entre janeiro e junho de 2026, ou seja, em um período que incluiu apenas dois meses de acordo em vigor, Mato Grosso do Sul havia exportado US$ 647,098 milhões para a UE, alta de apenas 2,9% sobre o primeiro semestre de 2025, segundo outro levantamento do mesmo veículo publicado em julho. O ritmo de crescimento ganhou fôlego justamente a partir do momento em que as novas regras passaram a valer.
Celulose na frente, soja e carne acelerando
A celulose segue como o principal produto da pauta sul-mato-grossense no mercado europeu. De maio a setembro, as vendas do insumo somaram US$ 294,79 milhões, ante US$ 261,56 milhões no mesmo período do ano passado, crescimento de 12,7%. O resultado reflete o peso do chamado Vale da Celulose, no leste do Estado, que concentra algumas das maiores fábricas do mundo e abastece indústrias de papel e embalagens europeias.
O maior salto, porém, veio do complexo soja. O bagaço e outros resíduos sólidos da extração do óleo de soja — o farelo usado na alimentação animal — ocuparam a segunda posição, com receita de US$ 123,84 milhões, 90% acima dos US$ 65,18 milhões registrados em 2025. Já as farinhas e pellets resultantes da extração do óleo recuaram 35,2%, de US$ 39,67 milhões para US$ 25,69 milhões, e fecharam a lista dos cinco principais produtos.
Na terceira posição aparece a carne bovina desossada congelada, que movimentou US$ 56,81 milhões, avanço de 119,5% sobre os US$ 25,89 milhões do ano anterior. O desempenho ganha relevância num momento em que os frigoríficos do Estado buscam diversificar destinos depois da imposição de tarifas mais altas pela China, e se soma à habilitação recente de plantas de MS para outros mercados asiáticos.
A grande novidade da lista é o álcool etílico não desnaturado, o etanol, que ocupou a quarta posição com US$ 56,06 milhões. No mesmo período de 2025, o produto não havia registrado nenhuma receita de exportação para o bloco. A entrada do biocombustível na pauta europeia acompanha a expansão das usinas de etanol de milho e de cana em Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores do país. Somados, os cinco principais produtos movimentaram US$ 557,19 milhões, o equivalente a 78,8% de toda a receita estadual obtida na Europa.
Holanda assume a liderança e Itália perde espaço
Entre os países do bloco, a Holanda passou a ser o principal destino dos produtos de Mato Grosso do Sul. Nos cinco primeiros meses do acordo, as compras holandesas somaram US$ 289,02 milhões, o equivalente a 40,9% de toda a receita estadual com a UE. O valor representa crescimento de 107,6% em relação aos US$ 139,23 milhões de maio a setembro de 2025. Em termos absolutos, o aumento foi de US$ 149,79 milhões — praticamente o mesmo tamanho do crescimento líquido de todas as exportações do Estado para o bloco no período.
O movimento tem uma explicação logística. A Holanda abriga o porto de Roterdã, o maior da Europa e principal porta de entrada de mercadorias que depois seguem para outros países do continente. Na pauta holandesa, a celulose liderou com US$ 83,43 milhões, seguida pelos resíduos da extração do óleo de soja (US$ 55,59 milhões) e pelo etanol (US$ 55,23 milhões). Em 2025, os três principais produtos vendidos aos holandeses haviam sido celulose, resíduos de soja e carne bovina fresca ou refrigerada.
A Itália, que liderava as compras em 2025, caiu para a segunda posição, com US$ 190,43 milhões, recuo de 3,3% em relação aos US$ 197 milhões do ano anterior. A pauta italiana continua altamente concentrada: a celulose respondeu por US$ 157,67 milhões, cerca de 82,8% de tudo o que o país comprou do Estado. Na sequência aparecem a carne bovina congelada, com US$ 15,37 milhões, e os couros bovinos no estado úmido, com US$ 6,04 milhões.
A Alemanha ficou em terceiro lugar, com US$ 60,66 milhões e crescimento de 113,3%. Ali houve troca na liderança dos produtos: os resíduos da extração do óleo de soja, com US$ 23,88 milhões, superaram a celulose, que somou US$ 18,65 milhões, seguida pela carne bovina fresca ou refrigerada, com US$ 7,14 milhões. Espanha (US$ 49,58 milhões, alta de 19,1%) e França (US$ 29,38 milhões, alta de 21,1%) completam o grupo dos cinco maiores compradores. Na Espanha, a celulose segue à frente, seguida pelo óleo de milho bruto; na França, os derivados de soja passaram a liderar, à frente da celulose e do açúcar de cana.
Juntos, os cinco países responderam por US$ 619,06 milhões, ou 87,6% das exportações sul-mato-grossenses ao bloco. Os outros 14 compradores dividiram os 12,4% restantes.
Nem todos os mercados avançaram
O saldo positivo esconde retrações importantes em alguns destinos. A maior queda ocorreu na Áustria, cujas compras recuaram de US$ 56,16 milhões para US$ 23,24 milhões, perda de US$ 32,92 milhões (58,6%). Em Portugal, as vendas caíram de US$ 18,91 milhões para US$ 7,28 milhões (61,5% a menos). A Bulgária praticamente deixou de comprar: passou de US$ 9,97 milhões para apenas US$ 235,3 mil, queda de 97,6%. Essas reduções compensaram parte dos ganhos obtidos nos mercados que cresceram.
Espaço para vender mais — e produtos de maior valor
A diversificação observada nos primeiros meses do acordo dialoga com um estudo da ApexBrasil, elaborado em parceria com o MDIC, que identificou 39 produtos de Mato Grosso do Sul com maior potencial de ganho competitivo com a redução das tarifas europeias. Segundo cruzamento feito pelo Campo Grande News em julho, 21 desses produtos já haviam sido exportados pelo Estado ao bloco no primeiro semestre de 2026, e os outros 18 ainda não tinham registrado embarques — ou seja, representam mercados a abrir.
Cerca de metade das oportunidades apontadas pela agência está ligada à proteína animal, incluindo carnes bovina, de frango e suína, ovos, couro, sebo e alimentos processados. Também aparecem com destaque o complexo soja-milho-bioenergia, com derivados de milho, biodiesel e químicos renováveis, e a mineração, em que o estudo sugere avançar do minério de ferro bruto para produtos industrializados, como ferro-gusa e ferro-silício-manganês. A lógica é agregar valor antes de embarcar.
O que vem pela frente
Com a redução tarifária prevista para ocorrer de forma gradual ao longo dos próximos anos, a tendência é que o efeito do acordo sobre a pauta de Mato Grosso do Sul se intensifique, especialmente em cadeias como carnes, bioenergia e derivados de soja. A consolidação definitiva do tratado ainda depende de etapas de ratificação, mas o comércio já opera sob as novas regras desde maio.
Para o Estado, os primeiros números indicam duas frentes de trabalho: manter a competitividade nos produtos em que já é forte, como a celulose, e transformar a lista de oportunidades em embarques efetivos — com mais itens industrializados e mais empresas exportando. A próxima atualização do ComexStat, com os dados de outubro, deve mostrar se o ritmo de crescimento observado entre maio e setembro se sustenta.
Fontes: Campo Grande News — Exportações de MS à UE crescem 27,3%; Holanda lidera e celulose é destaque (14/10/2026) e Acordo com UE abre espaço para MS exportar e ampliar vendas de 39 produtos (30/07/2026); dados do ComexStat/MDIC e estudo ApexBrasil/MDIC.
