Desfile “MSFW Revela · Sebrae” apresentou criações de pequenos negócios de Campo Grande, Aquidauana e Rio Verde de Mato Grosso; às vésperas dos 49 anos do Estado, estilistas transformam tuiuiú, tereré, faixa pantaneira e tingimento com casca de árvore em diferencial de mercado
Oito marcas de moda autoral de Mato Grosso do Sul subiram à passarela da 5ª edição do Mato Grosso do Sul Fashion Week, realizada na noite da última quinta-feira (8), em Campo Grande. Reunidas no desfile “MSFW Revela · Sebrae”, Studeō, Olyrium, Pappagalleto, Flor de Luz Biojoias, Kibela, Sapicuá Pantaneiro, Moara Pantanal e Bendita Rua apresentaram peças inspiradas na cultura e nos biomas do Estado. A ação do Sebrae/MS teve como objetivo ampliar a visibilidade desses pequenos negócios e aproximá-los de compradores, profissionais do setor e do público, num momento em que a moda com identidade regional ganha espaço como segmento da economia criativa sul-mato-grossense.
O desfile aconteceu às vésperas do aniversário de 49 anos de Mato Grosso do Sul, celebrado no domingo (11) — data que marca a criação oficial do Estado, em 1977, a partir do desmembramento do antigo Mato Grosso. A coincidência de calendário reforçou o mote das coleções: traduzir em roupas, calçados e acessórios elementos da fauna, da flora, do cotidiano e da memória afetiva de quem vive no Estado.
Passarela como porta de mercado
Para o Sebrae/MS, a presença em um evento com a projeção do MS Fashion Week funciona como instrumento de acesso a mercado. “O Sebrae busca o sucesso dos pequenos negócios, e estar em um evento com a projeção do MS Fashion Week é muito importante para esse trabalho. Nesta edição, trouxemos oito marcas de moda autoral para a passarela, contribuindo para fortalecer o ecossistema da moda em Mato Grosso do Sul”, afirmou a analista técnica Penélope Herradon, gestora dos projetos de Moda da instituição.
Segundo ela, a participação “amplia a visibilidade e o posicionamento das marcas, além de proporcionar acesso ao mercado e oportunidades de comercialização, tornando os empreendimentos mais competitivos diante das inovações e das transformações do setor”.
O apoio do Sebrae/MS ao segmento inclui capacitações, orientação empresarial, consultorias especializadas por meio do SebraeTec, cursos, palestras e ações de acesso a mercado. A proposta, segundo a instituição, é ajudar estilistas a estruturar a gestão das marcas e a crescer de forma sustentável, usando a identidade regional como diferencial competitivo.
Do sonho da primeira coleção ao interior na passarela
Entre as estreantes, a Studeō marcou uma nova etapa na trajetória da empreendedora Monkysa Bitencourt, que já atuava no mercado de acessórios à frente da marca Lemon. No MS Fashion Week, ela lançou oficialmente a nova marca com a coleção “Raízes”, inspirada em referências do Pantanal — uma das peças trazia as cores do tuiuiú, ave-símbolo do bioma. “É o sentimento de vencer um sonho mesmo. Foi muito difícil todo o processo, porque é minha primeira coleção e minha primeira marca. Tive várias batalhas, mas não desisti, então estar aqui hoje é uma vitória de verdade”, disse.
A diversidade territorial foi outro traço do desfile. De Rio Verde de Mato Grosso, no norte do Estado, a Moara Pantanal chegou à passarela poucos meses depois de ser criada. A empreendedora Ana Regina Casagranda conta que foi procurada pela equipe do Sebrae no próprio município. “A Moara Pantanal nasceu em Rio Verde há poucos meses e já está em uma passarela tão expressiva. Para mim, é motivo de muito orgulho e uma realização. Fui descoberta pelo Sebrae em Rio Verde e me sinto muito agraciada por terem me procurado e aberto essa porta”, afirmou.
De Aquidauana, a Sapicuá Pantaneiro levou uma coleção de botas femininas com a faixa pantaneira, peça tradicional da indumentária do peão. À frente da marca, Claudia de Medeiros resume a proposta: “Nossa bota foi pensada para a mulher pantaneira, forte e cheia de garra, enquanto as faixas traduzem as cores e a memória do Pantanal. Estar em um desfile como esse é maravilhoso, porque podemos apresentar o Pantanal de forma positiva, por meio da cultura, da arte e das tradições”.
Um consumidor que recusa “mais do mesmo”
Para Penélope Herradon, o movimento da moda autoral regional responde a um consumidor contemporâneo que busca autenticidade. “O mercado de moda com identidade regional tem um potencial muito grande em Mato Grosso do Sul. O Brasil, de forma geral, vive um movimento de valorização da produção autoral e da internacionalização dos negócios, e a Rota Bioceânica também abre novas possibilidades para que os nossos produtos alcancem outros mercados e outros países. Além disso, temos ativos muito fortes no Estado, como o Pantanal, o Cerrado e toda a nossa diversidade cultural”, avalia.
A nova geração de estilistas também aposta em processos que fogem da lógica da produção em massa: slow fashion, tiragens limitadas, serigrafia com tintas à base de água e tingimento natural com insumos retirados do solo e da vegetação do Estado. O valor cultural agregado às peças, nessa estratégia, funciona ao mesmo tempo como argumento de venda no mercado nacional e como afirmação de pertencimento.
Crochê que vestiu cantoras de projeção nacional
A trajetória do artista têxtil e estilista Hígor Euzébio ilustra como o caminho pode ir do artesanato doméstico aos palcos do país. O contato com o crochê veio na infância, observando as tias, mas o aprendizado prático ocorreu entre 2021 e 2022, como recurso terapêutico para lidar com a ansiedade na reta final da graduação em Biomedicina. “No começo eu fazia crochê para mim, coisas para casa, tapetes. Nunca tive a pretensão inicial de ter uma marca”, lembra.
O primeiro desfile veio em 2024, por meio do edital do Festival de Inverno de Bonito. A boa recepção o levou a direcionar o olhar para o que chama de “o quintal de casa”. “Sempre vejo grandes estilistas buscando inspirações fora do Brasil, nas grandes passarelas. Eu resolvi trazer o olhar para o nosso cotidiano, para o Pantanal, para Campo Grande”, explica. Convidado para um desfile de moda artesanal em São Paulo com o tema “Brasilidades”, levou as araras-vermelhas que fotografava nos coqueiros das avenidas da Capital; em 2026, voltou a Bonito com um vestido em homenagem ao tuiuiú. Suas peças já vestiram as cantoras Daniela Mercury, Juliane Gamboa, Marina Sena e Margareth Menezes, além da influenciadora Gkay.
Hígor atribui ao Sebrae/MS a profissionalização da marca e a abertura de portas em eventos como o EmpreendeFest. “O Sebrae entra estruturando a empresa para a gente crescer com base sólida e criando as conexões que fazem nosso trabalho expandir nacionalmente”, diz.
Tingimento com angico, barbatimão e jenipapo
O estilista Anderson Bosh construiu sua relação com a moda a partir da busca por autoafirmação e pertencimento, inspirado também no ofício da mãe, costureira. “A moda surgiu na minha vida para me salvar da sociedade, para me incluir, para me identificar”, afirma. Do desenho de roupas, passou aos figurinos de teatro, dança e cinema, até consolidar uma marca fiel ao slow fashion, com tiragens limitadas. Cerca de 70% das peças têm proposta agênero, e a marca atende também nichos específicos, como uma moda evangélica sofisticada.
Em 2026, Anderson apresentou no Festival de Inverno de Bonito, com apoio do Sebrae/MS, a coleção “Casca Barro Mato Sul”. Para produzi-la, desenvolveu métodos de tingimento natural com pigmentos de cascas, folhas e terras do Estado — angico, barbatimão, jenipapo, anileira, jatobá e diferentes colorações de solo —, aplicados sobre algodão e linho.
Estampa que conta história e loja na Feira Central
Em Campo Grande, a marca Porã nasceu entre o fim de 2023 e o início de 2024 pelas mãos do arquiteto Yuri Chaparro, que trabalhou cerca de nove anos com paisagismo, patrimônio histórico e urbanismo. A ideia surgiu de uma lacuna que ele mesmo sentia: a falta de uma marca que levasse a identidade sul-mato-grossense ao vestuário de forma contemporânea, sem estereótipos. As estampas são impressas em serigrafia à base de água sobre camisetas de malha 100% algodão e funcionam como arquivos visuais da cultura local, de comidas típicas a paisagens marcantes.
“A ideia não é simplesmente colocar um desenho do Pantanal em uma camiseta, é tentar contar uma história através da imagem”, afirma. Segundo o relato do empreendedor, o apoio técnico do Sebrae/MS ajudou a transformar um projeto intuitivo em negócio estruturado, com atenção a gestão, posicionamento, comunicação e estratégias de venda. A marca saiu do ambiente digital e abriu loja física na Feira Central da Capital. “O mais adequado pela proposta da marca foi a nossa querida Feira Central, lugar onde carrega cultura, vivência e história, tudo que a Porã carrega”, justifica.
Economia criativa e o horizonte bioceânico
O conjunto de histórias mostra um padrão comum: pequenos negócios que nascem de habilidades pessoais — o crochê, o desenho, a arquitetura, o design de calçados e acessórios — e que, com apoio em gestão e acesso a vitrines, passam a disputar mercado com um produto difícil de copiar, porque ancorado em referências locais. Para um Estado cuja economia é fortemente associada ao agronegócio e à indústria de base, a moda autoral representa uma frente de diversificação que gera renda em escala menor, mas com valor agregado e capilaridade pelo interior.
O próximo passo, segundo a leitura do próprio Sebrae/MS, é ampliar o alcance dessas marcas para além do Estado — inclusive em direção aos países vizinhos que serão conectados pela Rota Bioceânica. Até lá, eventos como o MS Fashion Week, o Festival de Inverno de Bonito e o EmpreendeFest seguem como as principais portas de entrada para que a produção autoral sul-mato-grossense encontre compradores e consumidores dispostos a pagar por uma peça que carrega o Pantanal e o Cerrado na própria trama.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — “Sebrae leva oito marcas autorais para passarelas do MS Fashion Week” (09/10/2026): ms.agenciasebrae.com.br; Agência Sebrae de Notícias MS — “Vestindo Mato Grosso do Sul: moda autoral transforma identidade regional em expressão e cultura” (09/10/2026): ms.agenciasebrae.com.br.
