Jucems registrou 1.168 novas empresas em setembro, ante 1.058 em agosto, e o Estado acumula 12.818 constituições no ano; ao mesmo tempo, a confiança do empresário do comércio de Campo Grande completa dez meses em zona de insatisfação e a FGV aponta piora na vulnerabilidade financeira das famílias
Mato Grosso do Sul registrou 1.168 novas empresas em setembro, um crescimento de 10% em relação às 1.058 constituídas em agosto, segundo dados da Jucems (Junta Comercial de Mato Grosso do Sul) divulgados nesta segunda-feira (12). Com o resultado, o Estado chega a 12.818 empresas abertas na Junta em 2026. O avanço no ritmo de formalização de negócios, porém, convive com sinais de cautela no outro lado do balcão: o índice de confiança do empresário do comércio de Campo Grande caiu pelo segundo mês e completou dez meses abaixo da linha de satisfação, e um estudo da Fundação Getulio Vargas indica que as famílias sul-mato-grossenses ficaram financeiramente mais vulneráveis no segundo trimestre.
O retrato combinado dos três levantamentos ajuda a entender o momento do ambiente de negócios no Estado na reta final do ano: há disposição para empreender, especialmente em serviços, mas o crédito caro e o orçamento apertado das famílias pressionam quem depende do consumo do dia a dia.
Serviços puxam as aberturas
Das 1.168 empresas constituídas em setembro, 875 são do setor de serviços — três em cada quatro. O comércio respondeu por 249 novos registros e a indústria, por 44. Campo Grande liderou com 544 constituições, quase metade do total, seguida por Dourados, com 112, e Três Lagoas, com 70.
Somados, os três maiores municípios concentraram 726 das 1.168 constituições do mês, cerca de 62% do total — reflexo do peso econômico e populacional da Capital e dos dois principais polos regionais, Dourados, no sul, e Três Lagoas, na Costa Leste, onde a expansão da indústria de celulose tem movimentado a cadeia de fornecedores e de serviços. O restante das aberturas ficou pulverizado entre os demais municípios do Estado.
No acumulado de janeiro a setembro, a distribuição é semelhante: das 12.818 empresas abertas, 9.759 são de serviços, 2.675 do comércio e 384 da indústria. Entre as atividades econômicas de destaque aparecem as holdings de instituições não financeiras, os serviços combinados de escritório e apoio administrativo, a promoção de vendas e as atividades médicas ambulatoriais restritas a consultas — um perfil que mistura organização patrimonial, terceirização de serviços e profissionais liberais que formalizam a atividade como pessoa jurídica.
O secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Artur Falcette, atribuiu o resultado à confiança dos empreendedores. “Esse crescimento mostra que Mato Grosso do Sul continua sendo um Estado atrativo para quem quer empreender, investir e gerar oportunidades. O Governo tem trabalhado para reduzir a burocracia, ampliar o acesso a crédito, qualificar a mão de obra e criar condições para que os negócios possam nascer, crescer e permanecer em nosso Estado”, afirmou.
Os números da Jucems não se confundem com outros balanços de abertura de empresas divulgados recentemente. No início de outubro, por ocasião do Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, o Sebrae/MS informou que o Estado já havia aberto cerca de 63,7 mil empresas em 2026, das quais 61,2 mil pequenos negócios — conta que inclui os microempreendedores individuais (MEIs), cuja formalização segue um caminho próprio. Os dados da Junta, por sua vez, refletem as constituições ali registradas e servem como termômetro mensal do movimento empresarial no Estado.
Comércio da Capital segue desconfiado
Do lado de quem já está estabelecido, o humor é outro. O ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) de Campo Grande atingiu 91,7 pontos em setembro, queda de 1,1% em relação aos 92,7 pontos de agosto. Os dados são da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), com análise do IPF-MS (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Fecomércio MS). Com o resultado, a Capital completa dez meses consecutivos abaixo dos 100 pontos, patamar que separa a percepção de satisfação da de insatisfação.
Na comparação com setembro de 2025, quando o índice estava em 96,5 pontos, o recuo é de 5%. Segundo a pesquisa, 90% dos empresários consideram que a economia brasileira piorou muito ou piorou um pouco em relação ao ano anterior.
A cautela é maior justamente nos segmentos mais ligados ao consumo cotidiano. O grupo de bens não duráveis — supermercados, farmácias e estabelecimentos de consumo básico — ficou em 88 pontos, o menor nível entre os segmentos. Os bens duráveis, mais dependentes de crédito, marcaram 92,2 pontos, e os semiduráveis, como vestuário, calçados e acessórios, tiveram o melhor desempenho, com 95,7 pontos.
“A confiança do empresário continua sendo impactada por fatores como o crédito mais caro e as incertezas econômicas. Ao mesmo tempo, o comércio entra agora no período mais importante do calendário varejista. O momento exige planejamento, gestão eficiente e preparação para aproveitar as oportunidades geradas pelas vendas de fim de ano”, avaliou o presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer.
Expectativas ainda otimistas para o fim do ano
Nem tudo, no entanto, aponta para baixo. O componente de expectativas do ICEC ficou em 118,2 pontos, em nível considerado otimista, sustentado pela proximidade da Black Friday e do Natal. A intenção de contratar funcionários chegou a 115,3 pontos, enquanto o indicador de investimento ficou praticamente na neutralidade, com 99,6 pontos — sinal de que o empresário pretende reforçar equipes para a temporada de vendas, mas segura decisões de expansão de maior fôlego.
“O ICEC confirma uma percepção mais conservadora do empresário local em relação ao cenário econômico. O segmento de bens não duráveis concentra os menores índices de confiança, indicando uma demanda mais pressionada. Apesar disso, as expectativas para os próximos meses seguem positivas, impulsionadas pela sazonalidade da Black Friday e do Natal, o que pode contribuir para uma recuperação gradual da confiança”, afirmou a economista do IPF-MS Regiane Dedé.
Famílias mais expostas a imprevistos
A cautela do comércio encontra eco no bolso do consumidor. Levantamento do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), intitulado Vulnerabilidade Financeira das Famílias, mostra que o indicador de Mato Grosso do Sul piorou entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026. Apesar disso, o Estado passou da 8ª para a 9ª posição no ranking nacional, porque outras unidades da Federação tiveram altas mais acentuadas.
O estudo registrou piora em 22 das 27 unidades da Federação no período. Na média nacional, o IVF (Índice de Vulnerabilidade Financeira Familiar) subiu 1,01%. O índice varia de zero a um — quanto maior, mais vulnerável — e combina seis dimensões calculadas com dados do Banco Central e do IBGE: inadimplência, endividamento em relação à renda, dívidas com vencimento de curto prazo, custo do crédito, capacidade de poupança e fragilidade do mercado de trabalho.
Os pesquisadores citam ainda a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), segundo a qual mais de 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida e cerca de três em cada dez estão com contas em atraso. Ter dívida não significa estar inadimplente; o risco cresce quando os compromissos passam a consumir parte relevante da renda e reduzem a capacidade de pagar despesas essenciais ou de enfrentar imprevistos.
Crédito no centro da equação
O denominador comum entre os três levantamentos é o custo do dinheiro. Para quem abre um negócio, o crédito caro encarece o capital de giro e o investimento inicial; para o lojista, reduz as vendas parceladas de bens de maior valor; para as famílias, aumenta o peso das parcelas no orçamento. Pesquisa da Serasa Experian divulgada na semana passada mostrou que 41,2% das pequenas e médias empresas de Mato Grosso do Sul têm perfil de tomadoras de crédito, acima das médias do Centro-Oeste e do Brasil, e que 57,8% têm afinidade com linhas de capital de giro — retrato de um empresariado que depende de financiamento para operar.
A combinação também ajuda a explicar o perfil das novas empresas. Negócios de serviços tendem a exigir menos capital inicial e menos estoque do que o comércio e a indústria, o que os torna mais viáveis num ambiente de juros elevados. Ao mesmo tempo, a formalização de profissionais liberais e de prestadores de serviços como pessoa jurídica responde a fatores tributários e contratuais que independem do ciclo de consumo.
Nesse contexto, a orientação das entidades empresariais converge para gestão e planejamento. A expectativa do setor é que a temporada de fim de ano, com Black Friday e Natal, ajude a recompor o fluxo de caixa do comércio e a sustentar o ritmo de abertura de empresas, especialmente em serviços, que seguem como o principal motor da formalização no Estado.
Os próximos indicadores mensais — a abertura de empresas de outubro pela Jucems e o ICEC de outubro pela CNC e pelo IPF-MS — devem mostrar se o aumento das constituições observado em setembro se sustenta e se a proximidade das vendas de fim de ano será suficiente para tirar a confiança do comércio da Capital da zona de insatisfação.
Fontes: Campo Grande News — “Abertura de empresas cresce 10% em MS e acumula 12,8 mil novos negócios no ano” (12/10/2026): campograndenews.com.br; Campo Grande News — “Crédito caro e incerteza econômica reduzem confiança do comércio em Campo Grande” (09/10/2026): campograndenews.com.br; Campo Grande News — “Vulnerabilidade financeira das famílias aumenta em MS, aponta estudo da FGV” (12/10/2026): campograndenews.com.br; Agência Sebrae de Notícias MS (05/10/2026): ms.agenciasebrae.com.br; Correio do Estado (08/10/2026): correiodoestado.com.br.
