Decisão publicada no Diário Oficial da União reconhece que a ferrovia é indispensável ao Projeto Sucuriú, em Inocência, e impede que a Rumo reduza ou interrompa o serviço sem aval da agência; vagões já começaram a chegar e ramal passa da metade
A Arauco deu nesta quarta-feira (7) mais um passo para tirar do papel a logística da fábrica de celulose que constrói em Inocência, no leste de Mato Grosso do Sul. A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) publicou no Diário Oficial da União a decisão que concede à empresa o registro de usuária dependente do transporte ferroviário de cargas, garantindo proteção regulatória ao fluxo que levará a celulose produzida no chamado Projeto Sucuriú até o Porto de Santos, em São Paulo. O atendimento caberá a duas concessionárias do grupo Rumo: a Rumo Malha Norte (RMN) e a Rumo Malha Paulista (RMP).
Na prática, o registro reconhece que o trem não é uma alternativa entre outras, mas condição para a viabilidade econômica do empreendimento de R$ 25 bilhões. Pelas regras da agência reguladora, uma vez cadastrado o fluxo, as concessionárias ficam obrigadas a disponibilizar serviço adequado e suficiente para atender à demanda registrada, que não pode ser reduzida nem interrompida de forma unilateral sem autorização prévia da ANTT. As informações foram divulgadas pelo Campo Grande News.
A novidade chega cinco dias depois de o Empreenda MS noticiar outro capítulo da implantação da fábrica, desta vez no campo tributário: a disputa judicial entre a Arauco e a Prefeitura de Inocência sobre a cobrança de cerca de R$ 12,6 milhões em ISS relativos às obras do ramal ferroviário de 47 quilômetros. Se aquela pauta tratava do custo de construir a ligação com a malha nacional, a decisão desta semana trata de outra ponta do problema: a garantia de que, depois de pronta a infraestrutura, haverá trem para rodar nela com regularidade.
O que diz a decisão da ANTT
O documento foi assinado em 17 de setembro pelo superintendente de Transporte Ferroviário da ANTT, Fernando Barbelli Feitosa, e entrou em vigor com a publicação no Diário Oficial. Ele estabelece Inocência como ponto de origem do trecho e um TUP (Terminal de Uso Privado) dedicado, localizado na região da Alemoa, no Porto de Santos, como destino da carga.
Uma fábrica pensada para exportar
O Projeto Sucuriú terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose de fibra curta por ano, volume destinado praticamente todo à exportação. A previsão divulgada é de que a unidade entre em operação no fim de 2027. Em reportagem de setembro, o investimento foi apresentado como US$ 4,6 bilhões; em reais, o empreendimento é citado como um projeto de cerca de R$ 25 bilhões.
Para uma planta desse porte, a escolha do modal é decisiva. Inocência fica a 331 quilômetros de Campo Grande e a centenas de quilômetros do litoral paulista. Transportar 3,5 milhões de toneladas anuais por rodovia exigiria uma frota gigantesca de caminhões circulando diariamente pelas estradas da região leste do Estado, com impacto sobre custo, segurança viária e emissões.
Segundo o cronograma divulgado pela empresa em agosto, o ramal ferroviário terá capacidade para substituir até 190 viagens de caminhão por dia. É essa a dimensão do que está em jogo quando a ANTT reconhece a ferrovia como indispensável ao negócio.
Vagões feitos sob medida
A preparação logística vem andando em paralelo à obra da fábrica. Em agosto, a Arauco recebeu os primeiros 40 vagões de uma encomenda de 721 unidades feita à Randon. Os equipamentos são fabricados em Araraquara, no interior paulista, com previsão de entregas mensais de 40 unidades até novembro de 2027.
Cada vagão pode transportar 98 toneladas de carga, o equivalente a mais de 390 fardos de celulose. O modelo escolhido, chamado Sider FLT, foi adaptado às necessidades da operação: a abertura lateral permite carregar e descarregar pelos dois lados, e os vagões contam com lonas com tramas de aço antivandalismo, divisórias internas e componentes desenvolvidos para reduzir a absorção de umidade durante o trajeto, um cuidado relevante para um produto que precisa chegar seco ao porto e ao cliente final.
Ramal passa da metade e ponte avança
Do lado da infraestrutura, o ramal que vai ligar o complexo industrial à Malha Norte, operada pela Rumo, atingiu 50,8% de execução, segundo informou a Arauco em setembro. Um dos marcos da obra é a ponte ferroviária sobre o Córrego São Mateus, em Inocência, que chegou a 70% de execução com o início do içamento de 18 vigas de sustentação, cada uma com 92 toneladas, cerca de 30 metros de comprimento e 3 metros de altura.
Construída em concreto armado, a ponte terá 270 metros de extensão e 6 metros de largura. O projeto prevê 132 estacas do tipo raiz e o uso de aproximadamente 9 mil metros cúbicos de concreto e 500 toneladas de aço. Sobre as vigas será montado o tabuleiro e, depois, a superestrutura ferroviária formada por lastro, dormentes e trilhos.
“Concretizamos este marco com toda segurança e respeito ao meio ambiente e à comunidade. E isso é resultado de um cuidadoso trabalho de planejamento de cada etapa da atividade por parte de todo o time de Engenharia”, afirmou na ocasião o diretor de Logística e Suprimentos da Arauco, Alberto Pagano.
A construtora responsável pela linha férrea, a Construcap, apontou o calendário climático como fator crítico. “Tínhamos um desafio muito grande na ferrovia inteira, pelo prazo, e somente uma época sem chuva para cumpri-las”, disse o diretor de obras Marco Aurélio Costa Guimarães, ao comentar a importância da estiagem para cumprir as etapas mais pesadas da obra.
Frota florestal de R$ 500 milhões
A outra ponta da cadeia, a do abastecimento de madeira, também está em montagem. Em setembro, a Arauco começou a receber as máquinas que farão a colheita de eucalipto para alimentar a fábrica. O investimento na frota é de cerca de R$ 500 milhões e prevê 254 equipamentos de grande porte. Até aquele momento, 108 unidades haviam chegado: 26 harvesters, usados no corte e processamento das árvores, 6 forwarders, que transportam a madeira dentro da área de colheita, e 76 caminhões de apoio.
Com todas as entregas concluídas, serão 128 harvesters, 50 forwarders e os 76 caminhões, distribuídos em dez módulos de colheita com capacidade conjunta para movimentar mais de 1,1 milhão de metros cúbicos de madeira por mês. O primeiro módulo deve entrar em funcionamento em dezembro deste ano; o segundo, em fevereiro de 2027; e os demais, gradualmente, ao longo de 2027 e no início de 2028. Com todos ativos, a colheita deve envolver cerca de 1,2 mil trabalhadores.
“Cada máquina representa um investimento no futuro da nossa operação e no desenvolvimento da região”, afirmou o diretor florestal da Arauco, Ricardo Austin. Para preparar a mão de obra, a empresa mantém o programa Colheita de Talentos, que prevê capacitar aproximadamente 700 operadores e mecânicos florestais.
Empregos e efeito regional
As projeções divulgadas para o empreendimento incluem cerca de mil empregos diretos na unidade industrial, além de 2 mil postos ligados à logística e aproximadamente 3 mil às atividades florestais. Para um município como Inocência, que até poucos anos atrás tinha economia baseada essencialmente na pecuária, a chegada de um projeto dessa escala representa uma mudança estrutural no perfil de renda, de arrecadação e de demanda por serviços.
Esse movimento se insere em uma transformação mais ampla da região leste de Mato Grosso do Sul, que se consolidou nos últimos anos como um dos principais polos de celulose do mundo, com fábricas em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo e novos projetos em andamento. A logística de escoamento é, cada vez mais, o fator que separa um bom projeto industrial de um projeto competitivo no mercado internacional.
Por que o registro importa para o Estado
Para além da Arauco, a decisão da ANTT tem leitura relevante para a política de desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. O Estado depende de poucos corredores ferroviários, e a disputa por capacidade nas malhas existentes tende a crescer à medida que novas fábricas, usinas e mineradoras entram em operação. Ter o fluxo registrado como dependente dá previsibilidade a um investimento de longo prazo e reduz o risco de que a carga fique sem atendimento em momentos de aperto de capacidade.
Ao mesmo tempo, o caso evidencia o quanto a estratégia logística das grandes indústrias de MS continua apoiada no eixo rumo a Santos, mesmo com o avanço de alternativas como a Rota Bioceânica e a hidrovia do Rio Paraguai. Para a celulose do leste do Estado, a saída pelo Atlântico segue sendo o caminho natural.
Próximos passos
Com o registro em vigor, a atenção se volta agora para a conclusão do ramal e da ponte sobre o Córrego São Mateus, para o ritmo de entrega dos vagões, que deve seguir até novembro de 2027, e para a entrada em operação dos primeiros módulos de colheita florestal a partir de dezembro. No campo institucional, segue pendente o desfecho da disputa sobre o ISS das obras ferroviárias com a Prefeitura de Inocência.
Se o cronograma for mantido, a ferrovia da Arauco deve começar a operar em 2027, junto com a fábrica, e passar a tirar das rodovias da região o equivalente a até 190 viagens diárias de caminhão. A decisão publicada nesta quarta-feira não coloca nenhum trem nos trilhos, mas garante que, quando eles estiverem prontos, o serviço terá respaldo regulatório para funcionar.
Fontes: Campo Grande News – Arauco obtém registro que protege transporte de celulose até Santos; Campo Grande News – Ponte da Arauco chega a 70% e recebe vigas de 92 toneladas em Inocência; Campo Grande News – Arauco recebe 108 máquinas de frota de R$ 500 milhões em Inocência; Correio do Estado – Arauco teme paralisação de projeto bilionário e exige isenção fiscal.
