Produção industrial sul-mato-grossense cresce 7,1% no ano, quase nove vezes a média nacional, e setor já responde por quase metade das vagas formais abertas em 2026; especialistas, Fiems e governo admitem que o Estado não tem gente suficiente para acompanhar o ritmo dos megaprojetos
A indústria de Mato Grosso do Sul atravessa um dos melhores momentos de sua história recente, mas o próprio crescimento começa a esbarrar em um limite que não se resolve com crédito, incentivo fiscal ou obra: a falta de trabalhadores. Dados divulgados nesta quinta-feira (8) pelo IBGE mostram que a produção industrial do Estado avançou 7,1% entre janeiro e agosto de 2026, enquanto a média brasileira ficou em 0,8%. No mesmo período, segundo o Observatório da Indústria da Fiems, o setor abriu 9.928 empregos formais. Ao mesmo tempo, empresários, pesquisadores e o próprio governo estadual reconhecem que a mão de obra disponível já não acompanha o ritmo dos investimentos bilionários em curso, sobretudo no Vale da Celulose.
Terceiro melhor desempenho do país
Os números fazem parte da PIM Regional (Pesquisa Industrial Mensal Regional), do IBGE. Na comparação entre agosto de 2026 e o mesmo mês de 2025, a produção industrial sul-mato-grossense cresceu 3,8%, o terceiro melhor resultado entre as 15 localidades pesquisadas pelo instituto. O Estado ficou atrás apenas do Rio de Janeiro, que avançou 8,3%, e do Espírito Santo, com alta de 8%. No mesmo intervalo, a indústria brasileira como um todo recuou 1,2%.
Em Mato Grosso do Sul, o motor do resultado de agosto foram as indústrias extrativas, cuja produção subiu 15,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. A fabricação de produtos alimentícios cresceu 6,4%, e o segmento de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis avançou 2,7%. A produção de celulose, papel e produtos de papel, uma das marcas da nova economia do Estado, teve leve recuo de 0,5% no mês.
No acumulado de janeiro a agosto, a fotografia é ainda mais favorável. O crescimento de 7,1% colocou Mato Grosso do Sul novamente na terceira posição nacional, atrás do Espírito Santo (17,7%) e de Pernambuco (13,9%). Aqui, o destaque foi a fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que acumulou alta de 17,2% em oito meses, impulsionada pela cadeia do etanol. Em seguida veio a produção de alimentos, com avanço de 11,7%, segmento que reúne o processamento de carnes, óleos, açúcar e laticínios. A celulose ficou estável no ano, com variação de 0%, e as indústrias extrativas, apesar do salto de agosto, ainda acumulam retração de 7,3%.
Quase metade das vagas do ano
O bom momento da produção aparece também no mercado de trabalho. De acordo com o Observatório da Indústria da Fiems, com base no Novo Caged, a indústria de Mato Grosso do Sul acumulou saldo positivo de 9.928 empregos formais entre janeiro e agosto. É o segundo ano consecutivo em que o setor supera a marca de 9,9 mil vagas no período. Segundo a federação, a indústria responde hoje por 48,5% de todos os postos de trabalho abertos no Estado em 2026.
O perfil das contratações mostra de onde vem o fôlego. As atividades com maiores saldos foram a montagem industrial, com 2.177 vagas, a construção de rodovias e ferrovias, com 1.482, a fabricação de álcool, com 1.103, e a construção de edifícios, com 934. Também se destacaram instalação e manutenção elétrica (902), abate de suínos (589), abate de aves (300), fabricação de açúcar (251) e manutenção de tanques, reservatórios e caldeiras (224). Na leitura da Fiems, a geração de empregos foi puxada principalmente por atividades ligadas à construção e à expansão da capacidade produtiva, ou seja, por fábricas que ainda estão sendo erguidas ou ampliadas.
Inocência lidera o ranking de contratações
Nenhum município expressa melhor essa dinâmica do que Inocência, no Bolsão. A cidade registrou o maior saldo de contratações industriais de Mato Grosso do Sul entre janeiro e agosto, com 4.446 vagas formais, quase três vezes o saldo de Campo Grande, segunda colocada, com 1.538. Na sequência aparecem Três Lagoas (1.394), Dourados (583) e Rio Brilhante (534). Completam a lista dos dez maiores saldos Aparecida do Taboado (332), Mundo Novo (234), Corumbá (211), Deodápolis (200) e Itaquiraí (182).
O desempenho de Inocência está diretamente ligado à construção da fábrica de celulose da Arauco, o Projeto Sucuriú. Segundo informações da empresa ao Campo Grande News, o empreendimento representa investimento de US$ 4,6 bilhões, cerca de R$ 25 bilhões, está com 81% das obras concluídas, acima do cronograma, e reúne aproximadamente 15 mil trabalhadores. A entrada em operação está prevista para o último trimestre de 2027. As estimativas sobre o volume total investido e o número de empregos na fase de operação variam conforme a fonte consultada, mas há consenso de que se trata de um dos maiores projetos industriais em execução no país.
“Falta gente”
É exatamente esse tipo de obra que expõe o gargalo. Para o pesquisador Eduardo Luís Casarotto, professor de Administração da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), o problema vai além da capacitação. “O desafio, porém, vai além da qualificação, porque o Estado não tem trabalhadores em quantidade suficiente para acompanhar o ritmo dos novos investimentos. Ou seja, o problema não é somente a capacitação. Somos um Estado pequeno, populacionalmente. Então, falta gente”, afirmou ao Campo Grande News.
Casarotto defende que o governo fortaleça os órgãos de formação profissional e amplie programas para estimular a permanência de trabalhadores vindos de outras regiões do país ou do exterior. Ele lembra, porém, que essa migração tem efeitos colaterais. “Temos muita mão de obra de fora, e isso também causa um fluxo que impacta vários pontos da organização da sociedade, especialmente em regiões que às vezes não estão preparadas para isso”, disse. O pesquisador observa que a carência começou no transporte e vem se espalhando para outros setores. “Se tivéssemos perto de 20 mil caminhoneiros disponíveis, todos eles estariam empregados”, estimou.
A Fiems vai na mesma direção. Para a federação, a escassez de profissionais “é a dor de todo empresário”, reflexo de uma economia que atravessa um ciclo de pleno emprego. O exemplo mais lembrado é o de Ribas do Rio Pardo, município de pouco mais de 20 mil habitantes que recebeu a fábrica da Suzano. O início das operações industriais, em julho de 2024, pressionou a prefeitura em áreas como habitação, saúde, infraestrutura e educação.
A dimensão do desafio aparece no Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria da CNI em parceria com o Senai. Segundo o relatório estadual, Mato Grosso do Sul precisa capacitar 207 mil profissionais até 2027 para atender à demanda da indústria: 31 mil novos trabalhadores e 176 mil que já estão no mercado e precisam de requalificação.
Vale da Celulose no limite
Em Três Lagoas, a pressão é sentida no balcão. O gestor da Casa do Trabalhador do município, Sidney Cudeiro de Abreu, afirma que o déficit continua e cresce com a concentração de grandes obras. Na cidade, empreendimentos simultâneos da indústria, da construção civil, do agro e dos setores têxtil e de embalagens disputam os mesmos profissionais. “A mão de obra está escassa. Mato Grosso do Sul é um Estado grande, mas não tem uma densidade populacional tão alta. Então, quando temos grandes obras acontecendo ao mesmo tempo, isso acaba causando esse problema”, disse.
E a fila de projetos não para de crescer. A Bracell prevê investir R$ 16 bilhões em uma fábrica de celulose em Bataguassu, com início das obras previsto para 2027, quando deve gerar até 12 mil empregos na implantação e cerca de 2 mil postos diretos na operação. Em Três Lagoas, a retomada da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3), da Petrobras, já mobiliza cerca de mil trabalhadores e tem projeção de aproximadamente 8 mil no pico da obra, entre empregos diretos e indiretos. Segundo Abreu, a estatal pretende capacitar 3 mil pessoas em parceria com o Sistema S, priorizando a população local, mas não se descarta a necessidade de buscar profissionais em outros estados.
O que diz o governo
O secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Artur Falcette, afirma que o Estado já investe em qualificação profissional por meio de programas próprios e parcerias com o Sistema S, mas evitou estimar quantos profissionais serão formados até 2030. “Prevemos dobrar os recursos destinados ao Voucher Transportador, com a meta de alcançar pelo menos 5 mil habilitados nas categorias D e E até 2030, e ampliar os recursos do Voucher Desenvolvedor para formar pelo menos 400 novos profissionais”, disse, sem informar valores.
Segundo Falcette, a proposta para o segundo mandato do governador Eduardo Riedel é dar continuidade às iniciativas que vêm apresentando resultados e ampliar a oferta conforme a necessidade de trabalhadores e empresas, além de acompanhar a preparação dos municípios que recebem grandes projetos. Para o diretor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia da UFGD, Enrique Duarte Romero, a competitividade também depende da infraestrutura, com integração entre os diferentes modais de transporte para reduzir custos de escoamento.
Próximos passos
O quadro que emerge dos dados é o de uma indústria que cresce acima do país e que, ao mesmo tempo, começa a disputar trabalhadores com ela mesma. Com a Arauco caminhando para a fase final de obras, a Bracell e a UFN3 no horizonte e a cadeia de biocombustíveis em expansão, a formação de mão de obra, a atração de profissionais de fora e a capacidade dos municípios de absorver novos moradores devem estar no centro das decisões de investimento em Mato Grosso do Sul. A próxima rodada de dados do IBGE e do Novo Caged, nas próximas semanas, mostrará se o ritmo de setembro confirma a tendência.
Fontes: Campo Grande News – Indústria de MS cresce 3,8% e tem o terceiro melhor resultado do Brasil; Campo Grande News – Alimentos e biocombustíveis puxam alta de 7,1% da indústria de MS; Campo Grande News – Inocência se torna maior geradora de empregos da indústria em MS; Campo Grande News – Falta de trabalhadores é gargalo para novos investimentos em Mato Grosso do Sul.
