Palestra do Sebrae/MS com a ApexBrasil mostra que o país vizinho deixou de ser só destino de compras na fronteira e passou a entrar no planejamento de pequenos empresários sul-mato-grossenses, que querem entender oportunidades, riscos e o caminho para vender além da divisa
A conclusão das obras da Rota Bioceânica ainda está no horizonte, mas o Paraguai já ocupa espaço crescente nas conversas de empresários de Mato Grosso do Sul que procuram novos mercados. Para orientar esse movimento, o Sebrae/MS, em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), promoveu na quarta-feira (7), em Campo Grande, a palestra “Paraguai Além das Fronteiras: Oportunidades, riscos e estratégias de negócios”. O encontro foi realizado no auditório do Sebrae/MS e transmitido pela internet, o que permitiu a participação de empreendedores do interior do Estado.
A iniciativa chega num momento em que o comércio exterior sul-mato-grossense vive fase de expansão. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Estado exportou US$ 9,22 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, alta de 12,5% sobre o mesmo período do ano passado, acima do crescimento nacional, de 10,4%. A grande maioria desse volume, porém, ainda vem de commodities e de grandes companhias. O desafio colocado pelo Sebrae é justamente abrir espaço para que micro e pequenos negócios também participem da integração regional.
O primeiro país da travessia
A abertura do encontro ficou a cargo da gerente da Unidade de Competitividade e Inovação do Sebrae/MS, Isabella Montello, que destacou a necessidade de os empresários se aproximarem de informações qualificadas antes de dar o passo rumo ao mercado externo. Para ela, a Rota Bioceânica muda a forma como o Paraguai deve ser enxergado pelos empreendedores sul-mato-grossenses.
“Com a chegada da Rota Bioceânica, as oportunidades para os pequenos negócios são inúmeras. Estamos falando de importação, exportação, novas conexões e de uma rede empresarial que pode se fortalecer. O Paraguai é o primeiro país nessa travessia terrestre e, por isso, é importante entendermos melhor a cultura e o mercado paraguaio. Com a Rota Bioceânica, ele deixa de ser apenas um país vizinho e passa a ser o início de um caminho que pode nos levar para o mundo todo”, afirmou.
A frase sintetiza uma mudança de perspectiva. Para boa parte da população de Mato Grosso do Sul, o Paraguai sempre esteve associado ao comércio de fronteira, às compras em cidades gêmeas como Pedro Juan Caballero, vizinha de Ponta Porã, e ao fluxo cotidiano de pessoas entre os dois lados da divisa. A rota rodoviária que ligará o Centro-Oeste brasileiro aos portos do norte do Chile, atravessando o Chaco paraguaio e o norte argentino, transforma o país vizinho também em corredor logístico e em mercado a ser trabalhado de forma estruturada.
Espaço para quem é pequeno
A palestra foi conduzida pelo especialista em comércio exterior e internacionalização Rogério Schwank, que compartilhou experiências sobre negócios, investimentos e expansão empresarial no Paraguai e no Mercosul. Ao longo da apresentação, ele tratou do ambiente de negócios do país vizinho e deu orientações a quem pretende estabelecer relações comerciais ou ampliar a atuação internacional.
Um dos recados centrais de Schwank foi desmontar a ideia de que internacionalizar é tarefa exclusiva de grandes grupos. “Quando se fala em Paraguai e internacionalização, muitas vezes pensamos em grandes volumes e investimentos de milhões de reais. Mas existem oportunidades para diferentes perfis de empresários. Com a Rota Bioceânica, vamos precisar de logística, infraestrutura e serviços para atender toda essa movimentação. É justamente aí que o micro e pequeno empreendedor entra, porque um pequeno negócio pode se transformar em uma importante fonte de faturamento”, disse.
A avaliação conversa com o que se observa em outros corredores logísticos: o tráfego de cargas tende a demandar serviços de apoio, como alimentação, hospedagem, manutenção de veículos, armazenagem, despacho aduaneiro e assessoria contábil e jurídica. Muitas dessas atividades são tipicamente exercidas por pequenos negócios, o que explica o interesse do Sebrae em preparar empresários para disputar esse espaço antes que a rota esteja plenamente operacional.
Preparação antes do passo
Mais do que listar oportunidades, a proposta do encontro foi mostrar que o primeiro movimento de um processo de internacionalização deve ser feito para dentro da própria empresa. Entre os pontos abordados pelo especialista estiveram os cuidados necessários antes de ingressar em um novo mercado, a avaliação de riscos e a importância de compreender as características do país antes de definir qualquer estratégia comercial.
Na prática, isso significa responder a perguntas básicas antes de investir: o produto ou serviço tem demanda do outro lado da fronteira? Como funcionam a tributação, a documentação e a logística? Quais parceiros locais podem reduzir riscos? Que diferenças culturais e de consumo precisam ser consideradas? A orientação do Sebrae é que essas respostas sejam buscadas com apoio técnico, e não apenas a partir de informações soltas encontradas na internet.
Curiosidade que vira plano
A preocupação com a qualidade da informação apareceu na fala dos próprios participantes. O empresário João Ramão Monfort Villar, que atua nos setores de música e impressão 3D, contou que já conhece o país vizinho e vinha pesquisando por conta própria. “Eu já conheço o Paraguai e o mercado de lá está muito interessante. Já fiz algumas pesquisas e quis participar da palestra justamente para entender melhor como as coisas funcionam e separar o que encontramos na internet daquilo que realmente acontece no mercado. É importante ouvir alguém que tenha autoridade no assunto para tirar dúvidas e ampliar esse conhecimento”, relatou.
Já Daisy do Rego e Silva, que trabalha com desenvolvimento humano e oferece cursos profissionalizantes, foi ao encontro para avaliar se o cenário paraguaio também abre perspectivas para o seu segmento, fora do eixo tradicional de produtos. “Percebo muitas pessoas mudando para o Paraguai em busca de oportunidades e comecei a pensar se também haveria espaço para o meu setor. Vim por curiosidade, mas também pensando nessa possibilidade de ampliar o nosso trabalho e entender quais oportunidades podem surgir”, afirmou.
Os dois relatos ilustram um perfil que o Sebrae tenta alcançar: empresários que ainda não exportam, que muitas vezes atuam com serviços e que enxergam no país vizinho uma extensão natural de seu mercado, mas que precisam de método para transformar a intenção em plano de negócios.
A opção por transmitir a palestra pela internet também tem peso nesse contexto. Boa parte dos municípios mais diretamente ligados ao Paraguai, como os da faixa de fronteira e os do eixo da Rota Bioceânica, fica longe da capital. Ao permitir a participação remota, o Sebrae amplia o alcance do conteúdo justamente para empresários que convivem com o país vizinho no dia a dia e que, muitas vezes, já mantêm clientes ou fornecedores do outro lado da divisa.
Balança comercial em alta
O pano de fundo econômico é favorável. Segundo o MDIC, além do avanço das exportações, as importações de Mato Grosso do Sul caíram 4,1% entre janeiro e setembro, para US$ 1,79 bilhão, enquanto no Brasil cresceram 5%. Com isso, o superávit comercial do Estado subiu 17,5% em um ano, de US$ 6,32 bilhões para US$ 7,43 bilhões. A corrente de comércio, que soma vendas e compras externas, chegou a US$ 11,01 bilhões, alta de cerca de 9,4%. As exportações sul-mato-grossenses representam aproximadamente 3,2% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior no período.
Os números, no entanto, não detalham quanto desse movimento passa por pequenas empresas, e é nesse ponto que entidades de apoio têm concentrado esforços. Nos últimos meses, o Sebrae/MS conduziu missões empresariais voltadas aos países da rota, e o Centro Internacional de Negócios de MS, ligado ao Sistema Fiems, abriu uma formação específica em comércio exterior e Rota Bioceânica. A palestra desta semana se soma a esse conjunto de iniciativas, com foco no primeiro país do trajeto.
Calendário da rota
O cronograma da infraestrutura ajuda a explicar a pressa em preparar os empresários. A ponte entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), principal obra do lado brasileiro, está em fase final, e o Paraguai avança na pavimentação do trecho do Chaco. Por outro lado, a estrutura de controle aduaneiro em Porto Murtinho ainda precisa sair do papel, e a previsão da Receita Federal é de operação plena apenas em 2028. A janela até lá é vista como o período ideal para que negócios locais estudem o mercado, testem parcerias e estruturem sua oferta.
Para o Sebrae/MS, a combinação entre proximidade geográfica, integração do Mercosul e nova logística cria um cenário em que o Paraguai pode funcionar como uma espécie de laboratório para empresas que nunca venderam fora do país. Começar pelo vizinho, com menor distância e custos de deslocamento mais baixos, tende a reduzir riscos para quem dá os primeiros passos na internacionalização.
Próximos passos
A instituição informa que mantém ações de apoio à internacionalização em parceria com a ApexBrasil e outras entidades, e que empresários interessados podem obter orientação pela Central de Relacionamento, no telefone 0800 570 0800, ou pelo site ms.sebrae.com.br. A expectativa é que novas capacitações, rodadas e missões sejam organizadas à medida que as obras da Rota Bioceânica avançarem e o fluxo de cargas e pessoas entre os dois países ganhar escala.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS – Rota Bioceânica impulsiona interesse de empresários de MS pelo mercado paraguaio; Campo Grande News – MS supera média nacional e amplia exportações em 12,5% até setembro; Campo Grande News – Atraso em estrutura de fronteira empurra operação da Bioceânica para 2028.
