III Simpósio Internacional Rotas de Integração Sul-Americana, coordenado pela UFMS, começa nesta terça-feira (6) com a Rota Bioceânica no centro dos debates; governo do Estado contabiliza investimentos em Porto Murtinho, no Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã e no combate ao crime na faixa de fronteira
Campo Grande recebe entre esta terça-feira (6) e quinta-feira (8) o III Simpósio Internacional: Rotas de Integração Sul-Americana, encontro em formato híbrido coordenado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) que coloca a Rota Bioceânica de Capricórnio no núcleo das discussões sobre o futuro da integração entre os países da América do Sul. O evento reúne universidades, instituições jurídicas, órgãos públicos e entidades ligadas à aproximação regional e começa num momento em que a ligação rodoviária entre o Atlântico e o Pacífico deixa o papel e passa a exigir respostas práticas de quem vive e produz na faixa de fronteira.
Às vésperas do simpósio, o governo de Mato Grosso do Sul divulgou um balanço das ações voltadas aos municípios fronteiriços nos últimos quatro anos. Segundo o Estado, foram direcionados R$ 132 milhões em obras de infraestrutura em Porto Murtinho, ponto de partida brasileiro do corredor, e R$ 275,4 milhões nas forças de segurança. Na mesma faixa de fronteira, Ponta Porã ganhou neste ano o Parque Tecnológico Internacional (PTIn), aposta para formar mão de obra e gerar negócios de base tecnológica na divisa com o Paraguai.
Integração como projeto multidimensional
De acordo com a organização, o simpósio vai articular a ligação bioceânica a temas como integração regional, infraestrutura e logística, diplomacia e governança, segurança e defesa, sustentabilidade, saúde nas fronteiras, direitos humanos e trabalho, comércio e aduanas, além de cooperação universitária e cultural. A amplitude da pauta reflete uma visão defendida pelos organizadores: a rota deve ser entendida não apenas como um corredor logístico, mas como um empreendimento de múltiplas dimensões, com impactos sociais, econômicos e culturais em todos os países envolvidos.
A abertura, nesta terça-feira, terá sessão solene e a conferência “Rota Bioceânica e integração estratégica”, que deve dar o tom político e acadêmico dos debates seguintes. As inscrições são gratuitas e feitas por formulário on-line divulgado pela organização do evento. Esta é a terceira edição do simpósio, que se consolida como um dos espaços de debate acadêmico mais relevantes sobre a integração regional sul-americana.
O encontro acontece em um contexto institucional favorável. Em fevereiro, o governo federal instituiu oficialmente o Programa Rotas de Integração Sul-Americana, que organiza as ações da União para ampliar a conexão física e comercial com os países vizinhos, entre elas a rota que atravessa Mato Grosso do Sul, o Chaco paraguaio e o norte da Argentina até os portos do norte do Chile.
Porto Murtinho deixa de ser fim de linha
Desde 15 de julho, quando os dois lados da ponte sobre o Rio Paraguai se encontraram, Porto Murtinho passou a enxergar a si mesma de outra forma. A cidade de pouco mais de 17 mil habitantes, a cerca de 450 quilômetros de Campo Grande, está a um passo de se tornar o ponto de partida de um caminho terrestre até o Oceano Pacífico. A estrutura, que liga o município a Carmelo Peralta, no Paraguai, recebeu em setembro o nome oficial de Ponte Heitor Miranda dos Santos, em homenagem ao ex-prefeito que defendia o corredor.
É para essa virada que o governo do Estado afirma ter direcionado os R$ 132 milhões em infraestrutura no município. O foco, segundo a administração estadual, foi preparar a cidade para o fluxo de caminhões, cargas e visitantes que deve chegar com a conexão internacional. Para o produtor e o industrial sul-mato-grossense, a lógica do corredor é a de uma saída mais curta rumo à Ásia: em vez de a carga contornar o continente pelos portos do Atlântico, ela pode seguir por estrada até o Pacífico, mais perto de compradores como China, Japão e Coreia do Sul.
“Estamos olhando a Rota Bioceânica com carinho, já que vai fazer a conexão do Estado com Paraguai, Argentina e Chile, reduzindo a distância do Oceano Pacífico, rumo aos mercados asiáticos. Grandes oportunidades para exportação, importação de produtos, assim como turismo, lazer e cultura”, afirmou o governador Eduardo Riedel, reeleito no último domingo (4), em declaração reproduzida pelo jornal A Crítica.
A obra física, porém, é só parte do desafio. Como o Empreenda MS mostrou na semana passada, a estrutura de controle aduaneiro em Porto Murtinho ainda não saiu do papel, e a previsão da Receita Federal é de que a operação plena do corredor só ocorra em 2028. Os debates do simpósio sobre comércio, aduanas e governança tocam diretamente nesse gargalo.
Ponta Porã aposta em inovação na linha internacional
A cerca de 300 quilômetros de Porto Murtinho, Ponta Porã tenta ocupar outro espaço na nova economia da fronteira. Em 13 de março, a cidade inaugurou o Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã (PTIn), junto ao Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré (CeimPP). O prédio de dois pavimentos e cerca de 1,6 mil metros quadrados fica na Avenida Brasil, principal via da cidade, na linha internacional que separa Brasil e Paraguai, de frente para Pedro Juan Caballero.
O projeto recebeu US$ 25 milhões do Fonplata, fundo de desenvolvimento dos países da Bacia do Prata, além de recursos do governo federal, do Governo de Mato Grosso do Sul e de emendas parlamentares. O Estado investiu R$ 1,68 milhão na estrutura por meio do Prodesenvolve (Fundo Estadual Pró-Desenvolvimento Econômico). Em maio, a Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de MS) aprovou mais R$ 2,05 milhões para um projeto da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), liderado pelo professor Fábio Miguel Gonçalves da Costa, voltado à formação de equipes, ao apoio a atividades de pesquisa e inovação e à aquisição de insumos e estrutura para o funcionamento do parque.
No primeiro pavimento funciona o CeimPP, com cozinha-escola, salas para cursos profissionalizantes, loja criativa e espaço multifuncional de capacitação. O PTIn ocupa o segundo andar, com laboratórios, áreas de coworking, incubadoras e salas para empresas residentes e startups, que não pagarão pelo suporte até atingirem condições de entrar no mercado. São seis ambientes destinados à incubação e à aceleração de negócios. A estrutura foi inspirada no modelo do Parque Tecnológico Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR), e é apresentada como a primeira do Centro-Oeste nesse formato, com foco na cooperação internacional.
“Fronteira não pode ser problema, e sim uma grande oportunidade ao Estado e ao Brasil”, disse Riedel ao comentar a estratégia para a região. A ideia é que empresas, universidades e pesquisadores trabalhem lado a lado, gerando negócios e mão de obra qualificada para atender às demandas que o corredor bioceânico deve trazer, sobretudo para jovens da região de fronteira.
Segurança como condição para o comércio
O terceiro eixo do balanço estadual é a segurança, apontada como pré-requisito para que empresas e transportadoras se sintam confiantes em usar o corredor. Segundo o governo, os R$ 275,4 milhões aplicados nas forças de segurança priorizaram inteligência e o trabalho conjunto entre as polícias estaduais, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Receita Federal e as Forças Armadas.
O resultado aparece nas apreensões. No primeiro semestre de 2026, as forças de segurança retiraram de circulação 309,2 toneladas de drogas em Mato Grosso do Sul, 50% a mais que as 206 toneladas apreendidas no mesmo período de 2023. O tema deve ganhar espaço no simpósio, que tem segurança e defesa entre seus eixos: a abertura de uma nova rota internacional de cargas amplia oportunidades econômicas, mas também exige mecanismos capazes de impedir que o corredor seja usado pelo crime transnacional.
Da academia à agenda pública
A realização do simpósio em Campo Grande reforça o papel das universidades sul-mato-grossenses na construção de conhecimento sobre a rota. Pesquisas sobre logística, comércio exterior, saúde nas fronteiras, direitos dos trabalhadores e impactos ambientais ajudam a orientar decisões de governos e empresas e a antecipar problemas que tendem a surgir com o aumento do fluxo de pessoas e mercadorias.
O evento também é uma oportunidade para o setor produtivo. Empresários, exportadores e prestadores de serviços que pretendem aproveitar a rota precisam entender as regras aduaneiras, as exigências sanitárias e as diferenças de legislação entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Ao reunir pesquisadores, órgãos públicos e instituições jurídicas dos países envolvidos, o simpósio aproxima esse conhecimento técnico de quem toma decisões de investimento e ajuda a reduzir incertezas para pequenos e médios negócios que desejam se internacionalizar pelo corredor.
Somadas, as frentes desenham a estratégia para a região: obras para receber a rota, formação de gente para trabalhar nela, segurança para que o comércio flua e um espaço de debate qualificado para tratar de temas que ultrapassam fronteiras nacionais. Para cidades como Porto Murtinho e Ponta Porã, a expectativa é que a condição de fronteira, por muito tempo associada ao isolamento, se transforme em vantagem competitiva, com novas atividades econômicas, empregos e integração com os vizinhos sul-americanos. Os próximos marcos a acompanhar são a conclusão dos acessos à ponte e o início das obras da estrutura aduaneira, que vão determinar quando o corredor começa, de fato, a operar.
Fontes: JD1 Notícias, Campo Grande sedia simpósio internacional com foco na Rota Bioceânica; A Crítica, Com a ponte da Rota Bioceânica quase pronta, Porto Murtinho recebeu R$ 132 milhões e Novo parque tecnológico nasce na fronteira; Campo Grande News, Fundect aprova R$ 2 milhões para projeto da UEMS em parque tecnológico; Agência iNFRA, MPO formaliza programa de rotas sul-americanas.
