Frigoríficos de Campo Grande, Paranaíba, Rochedo e Aparecida do Taboado estão entre as 21 plantas brasileiras aprovadas por Jacarta; habilitação chega enquanto o setor reelege Régis Comarella no Sicadems com a missão de buscar novos destinos para a proteína do Estado
Quatro frigoríficos instalados em Mato Grosso do Sul foram habilitados pelo governo da Indonésia para exportar carne e miúdos bovinos ao país asiático, um mercado de cerca de 280 milhões de habitantes. As unidades estão em Campo Grande, Paranaíba, Rochedo e Aparecida do Taboado e fazem parte de uma lista de 21 plantas brasileiras aprovadas pela autoridade sanitária indonésia após auditoria presencial realizada entre 27 de junho e 5 de julho. A abertura, noticiada nesta quarta-feira (7) pelo Correio do Estado, amplia as alternativas da proteína sul-mato-grossense em um momento em que o principal comprador, a China, endureceu as condições de acesso.
No início do mês, o Empreenda MS mostrou que a carne bovina de MS passou a pagar tarifa de 67% para entrar no mercado chinês após o esgotamento da cota de exportação. A habilitação indonésia não substitui o peso da China, mas representa exatamente o tipo de diversificação que a indústria frigorífica do Estado vem buscando para reduzir a dependência de um único destino.
A notícia também coincide com a reeleição, na terça-feira (6), do empresário Régis Luis Comarella para a presidência do Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul) no triênio 2026-2029. A nova diretoria tem como uma de suas bandeiras declaradas a busca por novos mercados para a carne produzida no Estado.
Quem foi habilitado
A auditoria foi conduzida pela Direção-Geral de Pecuária e Saúde Animal (DGLAHS) do Ministério da Agricultura da Indonésia e acompanhada por técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em Mato Grosso do Sul, foram aprovadas as unidades da Frigosul, que atua com a marca SulBeef em Aparecida do Taboado; da Golden Imex, em Paranaíba; da JBS, na Capital; e da Naturafrig, em Rochedo.
Além de MS, a lista inclui estabelecimentos no Acre, Goiás, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rondônia, Tocantins e São Paulo. Em nota emitida em setembro, o Mapa avaliou que “a aprovação dos estabelecimentos auditados reflete o rigor do sistema de defesa agropecuária do Brasil, além de consolidar uma relação de alta confiança com as autoridades sanitárias da Indonésia”, e classificou a habilitação como “uma conquista estratégica que gera emprego e renda em 10 estados brasileiros”.
A distribuição geográfica das plantas aprovadas também chama atenção. Paranaíba e Aparecida do Taboado ficam na região do Bolsão, no extremo leste do Estado, próximas à divisa com São Paulo e Minas Gerais, área tradicional de pecuária de corte. Rochedo fica na região central do Estado, nas proximidades de Campo Grande, e a Capital concentra uma das maiores estruturas industriais do setor. Ou seja, a habilitação beneficia tanto polos já consolidados quanto municípios menores, em que o frigorífico costuma ser um dos principais empregadores locais.
O processo que levou à aprovação não foi automático. Para entrar na lista, as empresas tiveram de passar por testes e verificações sanitárias impostos pelas autoridades indonésias, com visitas às unidades em território sul-mato-grossense. A auditoria presencial, acompanhada pelo Mapa, é a etapa em que o país importador verifica com os próprios técnicos se as plantas cumprem as exigências sanitárias que estabeleceu, e por isso costuma ser o gargalo mais demorado de qualquer abertura de mercado.
Um mercado em expansão para o Brasil
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que acompanhou as tratativas, destaca a velocidade com que o mercado indonésio vem se abrindo à carne brasileira. Desde 2025, o Brasil ganhou 52 novas habilitações para o país asiático, passando de 21 para 73 plantas autorizadas, um crescimento de cerca de 247%. A rodada anterior havia ocorrido em setembro do ano passado, com 17 novas unidades.
Também em 2025, segundo a entidade, a Indonésia ampliou o acesso da carne bovina brasileira a produtos como carne com osso, miúdos, produtos cárneos e preparados de carne, o que aumenta o leque de itens que os frigoríficos podem embarcar e melhora o aproveitamento da carcaça.
“A Indonésia é um parceiro importante, com o qual temos muito espaço para avançar. A diversificação de destinos fortalece o setor sem alterar uma característica fundamental da nossa produção: cerca de 70% da carne bovina produzida no Brasil permanece no mercado interno. Quanto mais mercados e plantas habilitadas, mais oportunidades criamos para toda a cadeia”, afirmou o presidente da Abiec, Roberto Perosa.
Em volume, o Brasil exportou 31.511 toneladas de carne para a Indonésia em 2025, e na metade deste ano já haviam sido embarcadas 17.461 toneladas. O país asiático ocupa atualmente o segundo lugar como comprador de carne e miúdos bovinos, segundo os dados reunidos pelo Correio do Estado.
O peso da Indonésia para MS
Para Mato Grosso do Sul, a Indonésia ainda é um destino de peso modesto, mas com espaço para crescer. Em 2025, o país respondeu por 1,5% das exportações sul-mato-grossenses, o equivalente a US$ 159 milhões, uma queda de 43,7% em relação ao período anterior, segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Entre janeiro e agosto deste ano, antes da habilitação das quatro plantas do Estado, as vendas para o país asiático representaram 1% da pauta, ou US$ 82,1 milhões. Com frigoríficos locais agora na lista de exportadores autorizados, abre-se a possibilidade de recompor e ampliar esse fluxo nos próximos meses.
Carne bovina, terceiro pilar da pauta exportadora
A carne bovina fresca, refrigerada ou congelada respondeu por 17,7% das exportações de Mato Grosso do Sul em 2025, atrás apenas da celulose (28,9%) e da soja (22,8%). No ano passado, o produto movimentou US$ 1,9 bilhão, alta de 56% sobre o ano anterior.
Entre janeiro e agosto de 2026, a carne manteve participação semelhante, de 17,9% da balança de exportações, com US$ 1,5 bilhão negociados. Nesse período, a soja assumiu a liderança da pauta, com 32,8%, enquanto a celulose ficou com 26,1%.
Os números mostram que, embora a carne não seja o primeiro item da pauta, ela tem papel central na geração de divisas e, sobretudo, de empregos, já que a cadeia frigorífica é intensiva em mão de obra e está espalhada por vários municípios do interior.
Recorde de produção e 40 mil empregos
Dados do Observatório da Indústria da Fiems ajudam a dimensionar o setor. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou a maior produção de carne de toda a série histórica. Somente na cadeia bovina, foram abatidos 3.930.703 animais no ano, o que colocou o Estado na quinta posição nacional em número de cabeças abatidas e na quarta em volume de carne produzido.
A indústria frigorífica é a atividade industrial que mais emprega em MS, com mais de 40 mil trabalhadores. Segundo o Observatório, 94% desses postos estão concentrados no abate de bovinos, suínos e aves.
Sicadems mira novos destinos
Foi nesse contexto que o Sicadems reconduziu Régis Comarella, empresário com 30 anos de atuação no setor, à presidência. A eleição ocorreu na sede do Observatório da Indústria da Fiems, em Campo Grande. A nova diretoria terá Alberto Sergio Capuci como vice-presidente, Diego Riva Magnabosco como secretário e Mauro Sergio Domingues como tesoureiro.
“Temos o compromisso de continuar fortalecendo a representatividade do Sicadems, defendendo os interesses das nossas indústrias e criando condições para que o setor continue investindo, crescendo e gerando oportunidades”, afirmou Comarella após a votação.
O vice-presidente eleito foi direto ao ponto ao falar das prioridades da gestão. “O foco é buscar novos mercados, novas opções para escoar nossa carne e manter sempre a qualidade dos rebanhos de Mato Grosso do Sul”, disse Capuci.
Para Comarella, os números do setor reforçam a necessidade de articulação entre indústria, federação e governo. “Nesse caminho, será fundamental manter e ampliar a união entre Sicadems, Fiems e Governo do Estado, construindo incentivos, atraindo novos investimentos e aumentando a competitividade da indústria sul-mato-grossense nos mercados nacional e internacional”, reforçou.
Diversificar para reduzir riscos
A habilitação indonésia ilustra uma estratégia que ganhou urgência ao longo de 2026. Com a China aplicando tarifa elevada sobre o volume que excede a cota, cada novo mercado aberto representa uma válvula de escape para a produção e um instrumento de negociação de preços para os frigoríficos. A diversificação, porém, depende de processos sanitários longos, como a auditoria presencial que antecedeu a aprovação das plantas de MS, e de relações diplomáticas e comerciais que levam anos para amadurecer.
A própria trajetória recente do mercado indonésio mostra esse ritmo: foram três rodadas de habilitação em pouco mais de um ano, ampliando gradualmente tanto o número de plantas quanto a variedade de produtos aceitos. Para os frigoríficos de médio porte de MS, como os de Paranaíba, Rochedo e Aparecida do Taboado, a entrada nesse mercado tem peso proporcionalmente maior do que para os grandes grupos, que já operam com carteiras globais de clientes.
O que vem pela frente
Os próximos meses devem mostrar se a habilitação se converte em embarques regulares a partir das plantas de MS e em que volume. Também estará no radar a evolução das exportações para a China diante da nova tarifa e a capacidade de a nova diretoria do Sicadems, em articulação com a Fiems e o governo estadual, transformar a busca por mercados em resultados concretos para uma indústria que emprega mais de 40 mil pessoas no Estado.
Fontes: Correio do Estado – Produção de carne bovina de MS conquista novo mercado asiático; Campo Grande News – Régis Comarella é reeleito para liderar setor de carnes em nova fase de expansão; Midiamax – Carne de MS pagará tarifa de 67% para entrar na China após fim da cota de exportação.
