AquaPantanal, que transforma a água descartada do ar-condicionado em criação de peixes e cultivo de hortaliças, e EcoHorta Inteligente estão entre os 30 projetos selecionados pela Samsung; finalistas serão anunciados em 16 de outubro, na mesma semana em que a UFMS abre a FetecMS e o Integra
Duas escolas públicas de Mato Grosso do Sul estão entre as 30 equipes semifinalistas da 13ª edição brasileira do Solve for Tomorrow, programa de cidadania corporativa da Samsung, coordenado no Brasil pelo Cenpec, que desafia estudantes do ensino médio da rede pública a criar soluções para problemas reais de suas comunidades usando ciência e tecnologia. Da Escola Estadual Caetano Pinto, em Miranda, vem o projeto AquaPantanal: Água que ensina, alimenta e preserva, que propõe reaproveitar a água condensada pelos aparelhos de ar-condicionado em um sistema de aquaponia. Da Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, em Campo Grande, vem o EcoHorta Inteligente: Investigação e Automação no Reúso Hídrico Escolar. Os dois grupos passam agora por mentorias com especialistas e voluntários da empresa antes da definição dos dez finalistas, prevista para 16 de outubro.
A presença sul-mato-grossense chama atenção por dois motivos. O primeiro é a coincidência temática: as duas equipes do Estado trabalham com reúso de água dentro da própria escola, em sintonia com a sustentabilidade, que foi o tema mais abordado entre os semifinalistas desta edição. O segundo é geográfico: um dos projetos nasceu na Capital e o outro em um município do interior, às margens do Pantanal, mostrando que a iniciação científica na educação básica não está restrita aos grandes centros.
Água que seria descartada vira alimento
A ideia do AquaPantanal partiu de uma observação simples do cotidiano escolar. Os aparelhos de ar-condicionado produzem, durante o funcionamento, um volume constante de água condensada que normalmente escorre para o ralo ou para o chão. A equipe, formada por estudantes do 1º, 2º e 3º anos do ensino médio, decidiu investigar se essa água poderia ser aproveitada em vez de descartada.
A localização de Miranda, município conhecido pela relação com a pesca e inserido entre o Cerrado e o Pantanal, levou o grupo a apostar na aquaponia, sistema que integra a criação de peixes ao cultivo de plantas. Nesse modelo, os resíduos produzidos pelos peixes servem de nutriente para as hortaliças, que por sua vez ajudam a filtrar a água que volta para os tanques. O objetivo dos estudantes é construir um protótipo de baixo custo que permita reaproveitar a água e, ao mesmo tempo, produzir alimentos.
Entre as espécies em avaliação está o lambari-do-rabo-amarelo, peixe nativo da região que poderá ser testado ao longo do desenvolvimento do projeto. A escolha de uma espécie local reforça a proposta de conectar a pesquisa ao território e reduzir riscos ambientais associados à introdução de peixes exóticos.
O projeto também incorpora tecnologia. A equipe prevê o monitoramento de parâmetros da água, como pH e amônia, com apoio de sensores e recursos de Internet das Coisas (IoT), que permitem captar informações do ambiente de forma contínua. Durante o processo, os alunos aprendem a medir esses indicadores, a entender os limites aceitáveis para a sobrevivência dos peixes e a ajustar o sistema a partir dos resultados.
Iniciação científica dentro da escola
Para os professores que acompanham o grupo, o principal ganho está no método. O professor orientador Flavio Rossi Galhardo de Figueiredo afirma que os estudantes passaram a observar problemas da comunidade, formular hipóteses, buscar informações em bibliografias e realizar testes para encontrar respostas. “Eles estão desenvolvendo o pensamento crítico e tendo um processo de iniciação científica dentro da escola. Alguns nunca tinham tido esse contato com a ciência”, disse, em entrevista divulgada pela Samsung.
A professora parceira Elissandra Aparecida Medeiros Barreto Kling de Santana destaca o aprendizado prático. “O projeto contribui para que eles reconheçam como medir o pH, entendam que a água precisa estar dentro de determinados parâmetros para os peixes e desenvolvam habilidades de fazer levantamentos e buscar respostas científicas para os problemas”, afirmou. Sobre a classificação, ela resume o sentimento da comunidade escolar: “É um projeto feito por nós, em um município pequeno e distante, e de repente aparecer em nível nacional é uma honra”.
Do lado da organização, Helvio Kanamaru, diretor de ESG e Cidadania Corporativa da Samsung para a América Latina, avalia que projetos como o AquaPantanal mostram como a ciência pode nascer da observação de situações presentes no cotidiano. Já Beatriz Cortese, diretora-executiva do Cenpec, afirma que a iniciativa mostra “como a escola pode ser um espaço de investigação conectado ao território e aos desafios que fazem parte do cotidiano dos estudantes”.
Campo Grande também na disputa
O segundo projeto sul-mato-grossense, o EcoHorta Inteligente, da Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, na Capital, aparece na lista oficial de semifinalistas com a proposta de investigação e automação no reúso hídrico escolar. Assim como o AquaPantanal, o projeto parte da água que circula dentro da escola e combina cultivo de alimentos com recursos de automação, uma combinação que vem ganhando espaço em feiras de ciências e programas de educação STEM em todo o país.
A coincidência entre os dois trabalhos não é casual. Em um Estado com forte vocação agropecuária e que abriga parte significativa do Pantanal, temas como uso racional da água, produção de alimentos e monitoramento ambiental fazem parte da realidade dos estudantes, dentro e fora da sala de aula.
Edição recorde e mais diversa
A 13ª edição do Solve for Tomorrow Brasil é a primeira, desde o lançamento do programa no país em 2014, a selecionar 30 semifinalistas. Segundo a Samsung, Amazonas, Goiás, Pernambuco e São Paulo são os estados com maior número de equipes nesta fase, e o Nordeste é a região mais representada. Além de sustentabilidade, os projetos abordam acessibilidade, agricultura, infraestrutura, saúde e segurança.
O número de projetos inscritos cresceu 7,7% em relação a 2025, de acordo com dados internos da empresa. A edição também registrou aumento de 11% na participação de estudantes mulheres e ampliação de 3% no número de escolas quilombolas e de instituições localizadas em áreas rurais. Em toda a América Latina, o programa já alcançou mais de 442 mil alunos e professores de escolas públicas em 21 países.
O calendário a partir de agora é curto. Em 16 de outubro serão anunciados os dez finalistas, que passam por uma nova rodada de mentorias entre 19 de outubro e 27 de novembro. A votação do Júri Popular abre em 23 de novembro, e os vencedores por categoria serão conhecidos em 8 de dezembro.
Semana de ciência na UFMS
O anúncio dos finalistas coincide com a principal semana de divulgação científica do Estado. De 18 a 20 de outubro, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) realiza a Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de Mato Grosso do Sul (FetecMS) e a FetecMS-JR, voltadas a estudantes do ensino fundamental e médio de escolas públicas, federais e privadas. Na sequência, de 21 a 23 de outubro, acontece o Integra UFMS 2026, descrito pela universidade como o maior evento de ciência, tecnologia e inovação de Mato Grosso do Sul, com apresentações de trabalhos no ginásio Moreninho, na Cidade Universitária, em Campo Grande.
Ao longo da semana também ocorrem a Feira das Profissões, que apresenta os cursos de graduação, e visitas aos espaços de ciência e cultura próximos ao estádio Morenão. Uma das novidades deste ano é o uso da Sala Imersiva do Museu de Ciência e Tecnologia, equipada com um videowall ultralargo e telas interativas. Por meio de edital, a UFMS está selecionando 22 palestras, oficinas, minicursos e rodas de conversa para compor a programação científica dos dois eventos; o resultado preliminar está previsto para 6 de outubro e o final, para 9 de outubro.
“Uma das grandes novidades deste ano vai ser a realização de atividades na sala imersiva do Museu de Ciência e Tecnologia, um novo espaço para apresentar o conhecimento de forma mais dinâmica”, afirmou o diretor de Extensão da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte (Proece), Filipe Quevedo. A pró-reitora Lia Brambilla define a semana como uma grande vitrine científica: “O contato direto com a pesquisa abre um mundo de oportunidades para cada estudante, tanto o que já está na graduação, quanto o aluno que participa da Fetec”.
De acordo com a universidade, o Integra já reuniu, ao longo de sua história, mais de 40 mil visitantes, 11 mil trabalhos apresentados e 30 mil participações de professores e estudantes. Alunos dos nove câmpus do interior com trabalhos aprovados podem solicitar apoio financeiro de R$ 150 para hospedagem e transporte urbano, além de contar com transporte até Campo Grande e alimentação no Restaurante Universitário.
Da sala de aula para o ecossistema de inovação
Iniciativas como o Solve for Tomorrow e a FetecMS funcionam como porta de entrada para o ecossistema de inovação. É nesses espaços que muitos estudantes têm o primeiro contato com metodologia científica, prototipagem, sensores e programação, competências que mais tarde podem se transformar em pesquisas universitárias, empresas juniores e startups. Para Mato Grosso do Sul, que busca diversificar sua economia com base em conhecimento, formar essa base desde o ensino médio é parte da estratégia de longo prazo.
Nas próximas semanas, as equipes de Miranda e de Campo Grande seguem aprimorando seus protótipos com o apoio das mentorias. Independentemente do resultado de 16 de outubro, os dois projetos já colocam escolas públicas sul-mato-grossenses no mapa nacional da educação científica e mostram que a água que escorre de um aparelho de ar-condicionado pode virar ponto de partida para aprender ciência, produzir alimentos e pensar soluções para o território.
Fontes: Samsung Newsroom Brasil, Estudantes de Miranda (MS) são semifinalistas do Solve for Tomorrow e 13ª edição do Solve for Tomorrow Brasil anuncia os 30 projetos semifinalistas; JD1 Notícias, Estudantes de MS chegam à semifinal de programa nacional com projeto de aquaponia; UFMS, Integra UFMS 2026; A Crítica, UFMS seleciona 22 atividades para FetecMS e Integra 2026.
