Feira de Ciências em Deodápolis mostrou protótipos programados por alunos do ensino fundamental; em Sete Quedas, oficinas com materiais reutilizáveis alcançaram mais de 800 estudantes dentro do programa Cidade Empreendedora
Crianças do ensino fundamental de Deodápolis, no sul de Mato Grosso do Sul, ocuparam o Ginásio Municipal no último sábado (10) para mostrar protótipos, experimentos e projetos tecnológicos construídos e programados por elas mesmas ao longo do ano. A Feira de Ciências encerrou mais uma etapa do projeto Conectividade Educacional e Inovação Digital, que leva robótica, programação e atividades práticas de ciência às escolas da rede municipal, com apoio do Sebrae/MS e da prefeitura, dentro do programa Cidade Empreendedora.
Um dia antes, na sexta-feira (9) Sete Quedas fechou o ciclo de ações do eixo Empreendedorismo nas Escolas do mesmo programa com um balanço que também passa pela robótica — mas de outro jeito: com oficinas que usam sucata e materiais reutilizáveis. Nas duas cidades, a aposta é a mesma: tirar a tecnologia do discurso e colocá-la nas mãos dos alunos, desde cedo, como ferramenta para resolver problemas.
Do plano municipal para a sala de aula
A experiência de Deodápolis tem uma origem pouco comum para projetos de inovação educacional. A iniciativa começou a ser estruturada em 2025 e ganhou impulso a partir das demandas levantadas nas oficinas do Plano de Desenvolvimento Municipal (PDM), instrumento do Cidade Empreendedora que reúne gestores, empresários e moradores para definir prioridades locais. Em 2026, o projeto passou a ser desenvolvido efetivamente, alinhado ao planejamento educacional do município, sob a gestão do prefeito Jean Gomes.
Segundo o Sebrae/MS, o caso mostra como o planejamento pode fortalecer uma ideia que já estava em andamento em vez de começar do zero. “A experiência de Deodápolis mostra como as demandas identificadas nas oficinas do PDM podem se transformar em ações concretas na educação”, resume o texto divulgado pela instituição. O PDM é executado com apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), em parceria com as prefeituras.
Deodápolis aderiu ao Cidade Empreendedora em 2023, com acompanhamento até julho de 2024, e agora está no segundo ciclo do programa. O município integra o pacote Excelência, o mais completo entre as três modalidades oferecidas às prefeituras, com acompanhamento até 2028 e atuação nos oito eixos do programa — da eficiência da gestão municipal à melhoria do ambiente de negócios, passando pelo estímulo ao empreendedorismo e pela promoção do desenvolvimento a partir das vocações locais.
Protótipos, programação e planetário
As atividades em sala são conduzidas pela professora Natacha Kirchheim. Entre os recursos usados está o kit LEGO Education SPIKE Essential, que permite às crianças montar protótipos, programar movimentos e resolver desafios de forma lúdica e em grupo. A metodologia estimula os estudantes a testar ideias, observar resultados, identificar problemas e buscar soluções — um ciclo que exercita raciocínio lógico, criatividade, autonomia e trabalho em equipe.
“A robótica educacional representa um avanço na construção de uma educação inovadora e criativa, porque oferece aos estudantes a oportunidade de aprender por meio da experimentação, da investigação e da prática”, afirmou a professora, segundo a Agência Sebrae de Notícias. Para ela, a proposta é tornar o aprendizado mais participativo e dar às crianças um papel ativo na construção do conhecimento.
De acordo com o Sebrae/MS, a proposta em Deodápolis aproxima os conteúdos curriculares da realidade dos estudantes, desperta o interesse pela ciência e estimula competências importantes para a trajetória escolar e para o futuro profissional. Ao reforçar uma iniciativa que já estava em curso, o planejamento municipal ajudou a ampliar o espaço da ciência, da tecnologia e da inovação dentro das escolas.
Na feira do último sábado, além dos trabalhos dos alunos, a programação incluiu uma sessão de imersão em planetário, que complementou as atividades e ampliou as oportunidades de aprendizagem dos estudantes. O evento reuniu alunos e professores da rede municipal.
O secretário municipal de Educação, professor Dado Siqueira, destacou o papel da feira como vitrine do que é produzido nas escolas. “A feira permite que as crianças coloquem em prática os conteúdos trabalhados em sala de aula, desenvolvendo criatividade, autonomia, comunicação e protagonismo. A parceria com o Sebrae também fortalece a educação empreendedora, incentivando os alunos a planejar e transformar ideias em projetos”, afirmou.
O consultor mobilizador do Sebrae/MS no município, Osvaldo Ramalho Neto, chamou atenção para o efeito sobre a autoestima dos alunos. “Por meio de experiências práticas, jogos educativos, programação e desenvolvimento de projetos, os alunos aprendem de forma mais criativa e interessante. É gratificante ver o entusiasmo das crianças ao perceberem que são capazes de criar, experimentar e transformar suas ideias em projetos”, disse.
Sete Quedas: robótica com sucata e feira de alimentos
Em Sete Quedas, o encontro “Professor Transformador”, realizado na sexta-feira (9), marcou o encerramento das ações do eixo Empreendedorismo nas Escolas nos municípios do pacote Transforma do Cidade Empreendedora. A cidade foi a última de seis municípios da região sul do Estado a receber o evento. Ali, as atividades envolveram mais de 800 alunos do 1º ao 5º ano e 50 professores das escolas municipais Inácio de Castro e rural Osvaldo Cruz.
Entre as experiências práticas, os alunos participaram de oficinas de robótica com sucata — montando estruturas e mecanismos a partir de materiais reutilizáveis — e de produção de alimentos. A proposta é aproximar os estudantes de conceitos como criatividade, autonomia, planejamento e iniciativa, com recursos acessíveis à realidade de escolas pequenas.
“A maior mudança que a gente viu nos professores foi o engajamento deles. São projetos muito bons. Durante o desenvolvimento destas ações, vimos nossas crianças e professores engajados, e isso com certeza agregou valor à educação municipal”, afirmou o secretário municipal de Educação, Paulo Cesar Mota dos Santos. Segundo ele, o município pretende manter a parceria para dar continuidade às iniciativas, incluindo o programa Jovens Empreendedores Primeiros Passos (JEPP), do Sebrae, voltado a estudantes do ensino fundamental.
Na Escola Municipal Inácio de Castro, o professor João Célio Bispo relatou uma atividade em que as crianças produziram alimentos em casa, com participação das famílias, e depois os venderam em feiras. “As crianças se envolveram em todas as etapas e demonstraram entusiasmo ao participar da venda dos alimentos produzidos em casa”, contou. A programação de encerramento teve ainda palestra da pedagoga Regina Shudo, especialista em Educação Infantil, sobre a multidimensionalidade do processo de aprendizagem.
Também da Escola Municipal Inácio de Castro, o professor Wellinton da Silva ressaltou o alcance do projeto para além da sala de aula. “Enquanto educadores, tudo o que fazemos hoje é uma semente que irá gerar frutos no futuro. Este projeto feito pelo Sebrae no município de Sete Quedas é um exemplo disso”, afirmou.
Para a gestora de Educação Empreendedora do Sebrae/MS, Priscila Veloso, o encontro reconhece quem torna as ações possíveis no dia a dia. “Além de ser a finalização do atendimento do eixo Empreendedorismo nas Escolas, o evento também vem para coroar o trabalho que é feito pelos profissionais de educação no município”, disse.
Dois caminhos para a mesma pergunta
Os dois casos ilustram caminhos diferentes para um mesmo desafio das redes municipais do interior: como oferecer contato com ciência e tecnologia a crianças que, muitas vezes, estudam longe dos grandes centros. Em Deodápolis, a escolha foi por kits estruturados de robótica educacional, que permitem programar movimentos e sensores com uma interface pensada para crianças. Em Sete Quedas, as oficinas com sucata mostram que é possível trabalhar princípios de mecânica, montagem e resolução de problemas com materiais de baixo custo.
Em comum, as duas experiências tratam a robótica menos como um fim e mais como meio para desenvolver competências — trabalho em equipe, comunicação, persistência diante do erro — que aparecem com frequência nas listas de habilidades procuradas pelo mercado de trabalho e pelo próprio ecossistema de inovação. Não por acaso, o Sebrae associa as atividades à chamada educação empreendedora, que busca estimular nos alunos a capacidade de planejar e transformar ideias em projetos.
A discussão tem peso econômico em Mato Grosso do Sul. Com a chegada de grandes investimentos industriais, a falta de mão de obra qualificada passou a ser apontada por especialistas e pelo próprio governo estadual como um dos principais gargalos para o crescimento. Iniciativas que despertam cedo o interesse por ciência e tecnologia não resolvem esse problema no curto prazo, mas ajudam a formar a base de estudantes que, no futuro, poderão seguir carreiras técnicas e científicas.
Próximos passos
Em Deodápolis, o projeto Conectividade Educacional e Inovação Digital segue integrado ao segundo ciclo do Cidade Empreendedora, que vai até 2028. Em Sete Quedas, a prefeitura sinalizou a intenção de manter a parceria com o Sebrae/MS após o encerramento do eixo Empreendedorismo nas Escolas.
No calendário estadual, a semana que vem reserva outra vitrine para a ciência produzida por estudantes: o Integra UFMS 2026, de 19 a 23 de outubro, na Cidade Universitária, em Campo Grande, que inclui a Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de MS (Fetec-MS), voltada a projetos de estudantes da educação básica. Informações sobre o Cidade Empreendedora podem ser obtidas pelo telefone 0800 570 0800 ou no site cidadeempreendedora.ms.sebrae.com.br.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — Projeto de inovação digital leva ciência e robótica às escolas de Deodápolis (13/10/2026) e Professor Transformador celebra avanços da educação empreendedora em Sete Quedas (13/10/2026); UFMS — Integra UFMS 2026 celebra 10 anos com mais de 2 mil trabalhos.
