Operadoras Rumo, MRS e FCA e o grupo J&F manifestaram interesse formal na ferrovia que liga Corumbá a Mairinque (SP); edital deve sair até dezembro, e contrato pode ser assinado até meados de 2027
A reativação da Malha Oeste, ferrovia centenária que corta Mato Grosso do Sul e liga Corumbá a Mairinque, no interior paulista, ganhou novos pretendentes de peso. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), as três maiores operadoras ferroviárias do país — Rumo, MRS Logística e Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) — e o grupo J&F, maior conglomerado empresarial privado em atividade no Brasil, já manifestaram interesse formal na concessão. A previsão da agência é publicar o edital até dezembro e realizar o leilão antes do fim do primeiro semestre de 2027. As informações foram repassadas ao jornal Correio do Estado por Marcelo Cardoso Fonseca, diretor substituto da ANTT e titular da Superintendência de Concessão da Infraestrutura (Sucon), durante a Jornada Valor de Jornalismo em Concessões e Infraestrutura, em São Paulo, na terça-feira (22).
A notícia representa um novo capítulo em uma novela que se arrasta há anos. A ferrovia, construída no início do século passado, está com as operações de transporte completamente paradas desde o começo de dezembro do ano passado, e a reativação é tratada como estratégica para o escoamento de minério, celulose, grãos e proteína animal produzidos em Mato Grosso do Sul.
Um cronograma que escorregou
O leilão chegou a ser previsto para este ano. Em maio, reportagem do Midiamax informava que o projeto estava na fase final de reestruturação na ANTT, com expectativa de julgamento da modelagem pela agência, envio ao Tribunal de Contas da União (TCU) e disputa no segundo semestre de 2026. Na ocasião, o ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou ao jornal Valor Econômico que não deveria faltar concorrência e que o desafio era manter a carteira de concessões dentro do cronograma.
Esse calendário não se confirmou. Segundo Fonseca, ainda há uma série de indefinições, principalmente sobre quais trechos terão prioridade na reativação e quais investimentos precisarão ser feitos. Mesmo assim, o representante da agência se diz otimista de que, desta vez, o certame sairá do papel — justamente porque o número de interessados aumentou. De acordo com ele, depois da publicação do edital, o trâmite tende a ser rápido, e a assinatura do contrato poderia ocorrer ainda no primeiro semestre de 2027.
Ferrovia parada e contrato emergencial
O contrato de concessão anterior, operado pela Rumo desde 2015, venceu no fim de junho. Desde então, a ferrovia está sob responsabilidade da própria Rumo por meio de um contrato emergencial de 180 dias, que termina no fim do ano. Esse instrumento, porém, prevê basicamente que a empresa faça a guarda do patrimônio ferroviário — não a retomada do transporte.
A última viagem registrada na Malha Oeste ocorreu no início de dezembro do ano passado, no transporte de minério entre as minas de Corumbá e o distrito de Porto Esperança, num trecho de 45 quilômetros. Desde então, os trilhos estão sem operação comercial.
Paralelamente, a União e a Rumo travam uma disputa jurídica que chega a R$ 6 bilhões, segundo reportagem da Folha de S.Paulo citada pelo Correio do Estado. O governo federal alega que a concessionária acumula dívidas relativas a outorgas não pagas e multas por descumprimento do contrato; a empresa sustenta ter créditos referentes a investimentos que teria realizado. De acordo com a ANTT, o impasse não impede a realização do leilão.
Quem está no páreo
Até recentemente, a ANTT informava que o interesse estava restrito a dois grupos: a própria Rumo, antiga concessionária, e a MRS Logística, hoje a segunda maior operadora ferroviária do país em volume transportado. Agora, segundo Fonseca, a FCA também está na disputa. A companhia atua desde 1996, quando a antiga Rede Ferroviária Federal foi concedida à iniciativa privada, opera em oito estados e é a terceira maior do setor em volume transportado, atrás apenas de Rumo e MRS.
A novidade de maior impacto, contudo, é a entrada do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Segundo o dirigente da ANTT, o principal interesse do conglomerado está na reativação dos cerca de 45 quilômetros entre as minas de Corumbá e o porto Gregório Curvo, no distrito de Porto Esperança. É dali que a mineradora LHG Mining, do grupo, pretende exportar até 15 milhões de toneladas de minério por ano pelo Rio Paraguai.
Celulose, frigoríficos e minério
O interesse da J&F vai além da mineração. O grupo controla a fábrica de celulose Eldorado Brasil, em Três Lagoas, que produz atualmente 1,8 milhão de toneladas por ano, e promete dobrar esse volume. Caso isso ocorra, segundo Fonseca, somente a produção dessa fábrica seria capaz de lotar diariamente um comboio de cerca de 110 vagões rumo ao Porto de Santos.
O conglomerado também tem em Mato Grosso do Sul ao menos sete frigoríficos de bovinos da JBS e três abatedouros de aves da Seara — cadeias que, de acordo com a avaliação apresentada pela ANTT, também poderiam se beneficiar da ferrovia. Pelo ranking citado na reportagem, a J&F ocupa a primeira posição entre os conglomerados privados do Brasil e, considerando também estatais e empresas de capital misto, fica atrás apenas da Petrobras em faturamento e escala.
Há, porém, uma condição operacional relevante. Segundo o diretor da ANTT, se quiserem reativar os trilhos próximos a Corumbá ou despachar celulose pela ferrovia, os irmãos Batista terão de firmar parceria com algum dos operadores ferroviários e reativar a ligação entre Corumbá e Mairinque como um todo, ainda que em etapas diferentes. Ou seja, o modelo desenhado para a concessão não prevê a exploração isolada de pequenos trechos de interesse de um único embarcador.
R$ 35 bilhões e crédito de longo prazo
O desafio financeiro é considerável. Conforme estimativas iniciais citadas pelo Correio do Estado, a reativação da Malha Oeste exigiria investimentos da ordem de R$ 35 bilhões. O governo federal sinalizou disposição para injetar cerca de 10% desse montante para dar início às obras.
Para viabilizar projetos desse porte, o Ministério dos Transportes aposta numa nova linha de crédito do BNDES, com prazo mínimo de 50 anos e carência nos primeiros anos de obra. Em maio, Santoro classificou o instrumento, em declaração ao Valor reproduzida pelo Midiamax, como “fundamental para projetos greenfield e para reestruturações pesadas como a Malha Oeste”. O ministro também indicou que a nova modelagem busca atrair operadores independentes e integrar a malha a outros corredores ferroviários, como a Fico-Fiol.
A Malha Oeste integra o mesmo pacote de prioridades federais que o Arco Ferroviário do Sudeste (EF-118) e a Ferrogrão. Segundo o Midiamax, a pasta projeta até R$ 500 bilhões em investimentos em ferrovias e rodovias nos próximos oito anos.
O que está em jogo para Mato Grosso do Sul
Para o Estado, a reativação plena da ferrovia significaria uma rota direta sobre trilhos até o Porto de Santos, com potencial para desafogar rodovias, reduzir o custo do frete e abrir espaço para contratos de longo prazo com mineradoras, indústrias de celulose e o agronegócio. A ferrovia, com extensão total de 1.973 quilômetros segundo o Midiamax, atravessa algumas das principais regiões produtoras do Estado.
O tema ganha peso diante das transformações recentes da economia sul-mato-grossense. A indústria de celulose se consolidou como um dos motores do crescimento estadual, e as exportações de minério de ferro e manganês de Corumbá vêm crescendo — cadeias que hoje dependem essencialmente do transporte rodoviário e da hidrovia do Rio Paraguai.
Dados do Observatório da Fiems divulgados neste mês pelo Campo Grande News dimensionam esse movimento: o volume exportado de minério de ferro e manganês pelo Estado passou de 2,89 milhões para 9,19 milhões de toneladas entre 2006 e 2025, e a receita saltou de US$ 98,5 milhões para US$ 436,5 milhões. Com a meta da LHG Mining de escoar até 15 milhões de toneladas por ano pelo Rio Paraguai, o curto trecho ferroviário entre as minas e o porto de Porto Esperança torna-se peça-chave dessa cadeia.
A logística ferroviária também dialoga com outras frentes de infraestrutura em curso no Estado, como a Rota Bioceânica, que deve conectar Mato Grosso do Sul aos portos do norte do Chile. Uma Malha Oeste operante poderia funcionar como eixo complementar, ligando os polos produtores do interior ao principal porto do país na costa atlântica.
Próximos passos
O calendário apresentado pela ANTT prevê a publicação do edital até dezembro, quando também se encerra o contrato emergencial da Rumo. A partir daí, a expectativa da agência é de um trâmite rápido, com leilão e assinatura do contrato até o fim do primeiro semestre de 2027. Até lá, será preciso definir a priorização dos trechos, o volume de investimentos exigidos e a solução para a guarda da ferrovia após o fim do contrato emergencial.
Para os setores produtivos de Mato Grosso do Sul, o aumento do número de interessados é um sinal positivo, mas o histórico de adiamentos recomenda cautela. A efetiva retomada da circulação de trens dependerá não só do leilão, mas da execução de obras bilionárias em uma via que está parada há quase dez meses.
Fontes: Correio do Estado — Leilão da Malha Oeste atrai o interesse de 4 grupos gigantes; Midiamax — Malha Oeste puxa retomada ferroviária em MS e deve ir a leilão em 2026; Campo Grande News — Exportação de minério impulsiona economia de MS e atinge US$ 436,5 milhões (dados de contexto).
