Depois de atrair cerca de R$ 100 bilhões em celulose, Mato Grosso do Sul negocia uma fábrica de papel que pode abrir espaço para fornecedores, serviços e empregos locais; anúncio é esperado para 2027.
Mato Grosso do Sul está em negociação avançada para atrair uma fábrica de papel, segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiems), Sérgio Longen, em entrevista publicada nesta quinta-feira (5) pelo jornal Correio do Estado. A expectativa é que a megafábrica seja anunciada em 2027 e passe a transformar dentro do Estado parte da celulose que hoje sai de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo para ser processada em outras regiões.
O movimento marca uma mudança de fase. O chamado Vale da Celulose recebeu cerca de R$ 100 bilhões em investimentos e virou um dos principais polos de celulose do mundo. O passo seguinte, agora, é subir um degrau na cadeia da madeira e vender produtos de maior valor agregado.
Para quem empreende em MS, a notícia importa porque uma fábrica de papel tende a demandar uma rede de fornecedores e serviços diferente da que atende uma planta de celulose, com embalagens, logística de distribuição, manutenção e atendimento a clientes industriais. É nessa ponta que pequenas e médias empresas costumam encontrar espaço.
Fábrica de papel está “no forno”, diz Fiems
Segundo Longen, o trabalho de articulação com o setor papeleiro está praticamente concluído. “Nós temos um trabalho já praticamente construído de produzir o papel aqui. Está pronto, está no forno”, afirmou o presidente da Fiems ao Correio do Estado.
O dirigente disse acreditar que o projeto saia do papel no próximo ano. “Eu acredito que no ano que vem ele vem para a prática. Faz parte de um alinhamento direto com as papeleiras”, declarou. As conversas envolvem empresas do setor, mas os nomes das companhias não foram divulgados.
A proposta é aproveitar a estrutura industrial que já existe no Estado e a oferta de matéria-prima para atrair a fábrica de papel, fechando dentro de Mato Grosso do Sul uma parte maior da cadeia produtiva do eucalipto. Hoje, apesar do tamanho da produção local de celulose, parte do mercado de papel continua sendo abastecida a partir do processamento feito fora do Estado.

A ideia de uma fábrica de papel não é nova, mas ganha corpo agora. Em entrevista à publicação internacional Fastmarkets, em outubro de 2024, o governador Eduardo Riedel e o secretário Jaime Verruck, da Semadesc, já falavam em atrair a indústria de papel tissue, usado em papel higiênico, toalhas e guardanapos. Na época, Verruck disse que as conversas estavam no início e eram confidenciais.
Por que uma fábrica de papel muda o jogo
A lógica é a do valor agregado. Em vez de concentrar a atividade na fabricação e na exportação de celulose, uma fábrica de papel permite que parte do beneficiamento aconteça em território sul-mato-grossense, com potencial de estimular fornecedores, serviços e novas vagas de trabalho, segundo a reportagem do Correio do Estado.
O peso do setor ajuda a dimensionar a aposta na fábrica de papel. Dados apresentados em setembro, na abertura do 32º Simpósio Intersindical de Negociações Coletivas das Indústrias de Celulose, Papel, Papelão e Artefatos (Sinpel), em Campo Grande, mostram que a indústria de celulose e papel liderou as exportações de MS em 2025, com 5,8 milhões de toneladas embarcadas e participação de 29,32% na balança comercial do Estado.
No mesmo evento, o Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose de Mato Grosso do Sul (Sinpacems) informou que as empresas do segmento somam mais de 20 mil postos de trabalho e respondem por cerca de 10,7% da economia sul-mato-grossense. A entidade projeta que a capacidade de produção pode chegar a 16,6 milhões de toneladas quando os projetos anunciados ou licenciados entrarem em operação.
De onde vem a matéria-prima
A fábrica de papel chegaria a um Estado com produção robusta de celulose. Com o início da operação do Projeto Cerrado, da Suzano, em Ribas do Rio Pardo, a capacidade instalada de MS chegou a 7,4 milhões de toneladas por ano, segundo o Correio do Estado.
E a conta ainda vai crescer. A Arauco constrói em Inocência uma fábrica com investimento de US$ 4,6 bilhões e capacidade prevista de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, com início de operação esperado para o segundo semestre de 2027. O empreendimento já tem registro da ANTT para levar a produção por trem até o Porto de Santos, como o Empreenda MS mostrou em outubro.
A Bracell, por sua vez, tem um projeto em Bataguassu em fase de licenciamento, com capacidade planejada de 2,9 milhões de toneladas por ano. No cenário nacional, a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) prevê R$ 105 bilhões em investimentos até 2028 em novas fábricas, modernização, manejo florestal e logística. Mais de R$ 70 bilhões desse total foram anunciados para Mato Grosso do Sul, de acordo com levantamento da entidade citado pelo jornal.
Florestas plantadas cresceram quase seis vezes
A base florestal acompanha o ritmo da indústria. MS tem hoje cerca de 2 milhões de hectares de florestas plantadas, quase seis vezes a área registrada em 2010, quando o Estado tinha pouco mais de 340 mil hectares. O governo estadual trabalha com a meta de chegar a 2,5 milhões de hectares. O avanço já tinha aparecido em dados nacionais, quando MS respondeu por 90% do crescimento das florestas plantadas do país.
A região leste lidera a expansão, com destaque para Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Selvíria, Brasilândia, Inocência, Bataguassu e Santa Rita do Pardo.
Segundo o presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore-MS), Júnior Ramires, ouvido pelo Correio do Estado, Arauco e Bracell juntas vão exigir entre 700 mil e 900 mil hectares de floresta produtiva, somando áreas existentes e novos plantios.
Ramires calcula que as atividades florestais do Estado, que incluem celulose, siderurgia a carvão vegetal, painéis e biomassa, consomem cerca de 35 milhões de metros cúbicos de madeira por ano. Só os dois novos projetos de celulose acrescentam mais de 20 milhões de metros cúbicos por ano a essa demanda.
Além disso, as usinas de etanol de milho passaram a usar cavaco de eucalipto como combustível nas caldeiras, o que amplia e diversifica a procura por madeira.
“Esse crescimento abre espaço para produtores independentes e investidores, mas depende de demanda internacional firme e de infraestrutura para levar a madeira até a fábrica e a celulose até o porto”, afirmou Ramires. “O limite, portanto, não é territorial, o que existe é um limite econômico local”, completou.
Os gargalos no caminho da fábrica de papel
Logística, mão de obra e custo de produção aparecem como os principais obstáculos. De acordo com Ramires, o transporte é uma das parcelas mais pesadas no custo da madeira entregue. Como as terras próximas às fábricas ficaram mais caras, os novos plantios avançam para áreas mais distantes, o que eleva o frete.
Rodovias e ferrovias não acompanharam o crescimento da madeira e da celulose. Na região, a Rota da Celulose começou a atender 870 km de rodovias, com previsão de R$ 2 bilhões em obras em 2027.
Os municípios também precisam de mais moradia, saúde, educação e serviços para receber os trabalhadores. Em setembro, o vice-presidente da Fiems, Crosara Júnior, resumiu o desafio: “Precisamos colocar dinheiro na educação para atender à indústria. Temos de oferecer uma escola de qualidade para os filhos dos profissionais que vão trabalhar nessas cidades”, disse ele na ocasião.
Falta de trabalhadores preocupa a indústria
A mão de obra é outro ponto sensível para qualquer fábrica de papel no Estado. Longen estima que o setor industrial de MS tenha pelo menos 27 mil vagas não preenchidas, com perdas anuais acima de R$ 20 bilhões em produção e impostos que deixam de ser arrecadados. O problema já vinha sendo apontado como o novo gargalo da indústria sul-mato-grossense.
Suzano e Arauco mantêm programas de qualificação com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Nesses programas, os alunos recebem uma bolsa equivalente a um salário mínimo durante o curso, antes da contratação.
A Fiems também planeja ampliar a inclusão de beneficiários de programas sociais no mercado formal, com apoio educacional do Serviço Social da Indústria (Sesi). A proposta prevê a manutenção dos benefícios do governo por até 12 meses durante a transição para o emprego.
O que a fábrica de papel pode significar para quem empreende
Para o pequeno e médio empresário, a fábrica de papel é uma oportunidade que ainda depende de confirmação, mas que já pode ser acompanhada. Uma fábrica de papel costuma movimentar obras civis, montagem industrial, transporte, alimentação, hospedagem, manutenção e serviços técnicos, além de negócios ligados a embalagens e distribuição.
Quem atua no leste do Estado, como em Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Inocência, tende a sentir primeiro os efeitos de qualquer novo empreendimento da cadeia florestal. Ainda assim, o local da futura fábrica de papel não foi informado, assim como o valor do investimento, a capacidade de produção e o número de empregos previstos.
Próximos passos
Os próximos meses devem mostrar se a fábrica de papel sai mesmo da fase de negociação. A Fiems trabalha com a expectativa de anúncio em 2027, mesmo ano previsto para o início da operação da Arauco em Inocência, o que ampliaria a oferta de celulose disponível no Estado.
Enquanto a fábrica de papel não é anunciada, o desafio é preparar o terreno: estradas, ferrovias, escolas, moradia e, principalmente, trabalhadores qualificados. Se a fábrica de papel for confirmada, Mato Grosso do Sul dará o primeiro grande passo para deixar de ser apenas exportador de celulose e passar a vender também o produto final que chega às prateleiras.
Fontes
Correio do Estado: Com R$ 100 bilhões, MS mira em beneficiamento da celulose (5/11/2026)
A Crítica: Celulose responde por 29,32% das exportações de MS e setor projeta nova expansão (17/9/2026)
Fastmarkets: After consolidating Pulp Valley in Brazil, Mato Grosso do Sul government aims to attract tissue industry (11/10/2024)
