Por Luan Argemon, colunista do Empreenda MS
Parques tecnológicos, incubadoras e hubs ganham relevância quando conectam conhecimento, pessoas e mercado. O desafio da gestão é transformar essa aproximação em resultados para as empresas e para o território.
Um prédio pode reunir empresas sem que elas desenvolvam qualquer projeto em conjunto. Pode oferecer salas bem equipadas, internet rápida e um auditório movimentado, enquanto os empreendedores continuam enfrentando sozinhos suas principais dificuldades. Por isso, avaliar um ambiente de inovação exige olhar para o que acontece depois que as portas são abertas.
A infraestrutura tem uma função importante. Laboratórios, espaços de trabalho e equipamentos compartilhados podem viabilizar atividades que uma empresa dificilmente conseguiria manter por conta própria. Mas o valor de um parque tecnológico, de uma incubadora ou de um hub também depende de sua capacidade de aproximar quem tem um problema de quem pode ajudar a resolvê-lo.
Essa perspectiva está presente na definição da Associação Internacional de Parques Científicos e Áreas de Inovação, a IASP. Para a entidade, um parque é uma organização gerida por profissionais especializados, voltada à promoção da cultura de inovação e da competitividade. Entre suas funções estão estimular a circulação de conhecimento e tecnologia entre universidades, instituições de pesquisa, empresas e mercados.
A partir dessa definição, a pergunta para a gestão se torna mais exigente: quais oportunidades passaram a existir porque aquele ambiente está funcionando?
A conexão precisa resolver problemas
Para um empreendedor, participar de um ambiente de inovação deve ter relação com as dificuldades concretas do negócio. Uma empresa pode precisar validar uma solução, encontrar seu primeiro cliente, melhorar a gestão financeira ou acessar conhecimento técnico. Outra pode estar pronta para buscar investimento ou entrar em novos mercados.
Essas necessidades pedem formas diferentes de apoio. Uma agenda de eventos pode ajudar na aproximação inicial, mas precisa ter continuidade para que uma conversa se transforme em teste, parceria ou contrato.
É nesse ponto que a gestão faz diferença. Conhecer as empresas, compreender seu estágio de desenvolvimento e acompanhar os encaminhamentos permite construir conexões com propósito. A proximidade física pode facilitar o encontro; transformar esse encontro em oportunidade exige trabalho.
Gestão exige método e continuidade
A discussão brasileira sobre o tema também reconhece a importância da gestão. Na programação técnica divulgada pela Anprotec para sua formação de gestores em Santa Catarina, em 2026, aparecem governança, posicionamento estratégico, metodologia de incubação e indicadores de desempenho. São dimensões que ajudam a compreender o funcionamento de um ambiente para além de sua estrutura física.
Na prática, isso significa definir quem o ambiente pretende atender, quais serviços consegue oferecer e como acompanhará o desenvolvimento das empresas apoiadas. Também exige clareza sobre as responsabilidades de universidades, poder público, entidades empresariais e demais parceiros.
A continuidade merece atenção especial. Programas de apoio precisam de tempo para amadurecer, corrigir falhas e construir confiança. Quando prioridades e compromissos mudam a cada troca de liderança, o empreendedor perde previsibilidade e as parcerias ficam mais difíceis de sustentar.
Uma governança bem estruturada deve preservar a direção do projeto e, ao mesmo tempo, permitir ajustes com base nos resultados.
Medir o que muda para as empresas
Eventos realizados, participantes atendidos e salas ocupadas ajudam a acompanhar a operação. A avaliação, porém, precisa avançar para o que essas atividades produziram.
Quantas conexões evoluíram para projetos? Quais empresas conseguiram validar uma solução? Houve acesso a clientes, melhoria de gestão ou contratação de profissionais? Que dificuldades continuam sem resposta?
Essas perguntas não dispensam critérios. O crescimento de uma empresa depende de diversos fatores, e seria inadequado atribuir todo resultado ao ambiente que a apoia. O acompanhamento deve identificar sua contribuição com transparência, reconhecendo também os limites de sua atuação.
Para Mato Grosso do Sul, essa reflexão oferece um critério útil de planejamento: cada investimento em infraestrutura precisa estar associado a uma proposta clara de funcionamento. Quem será atendido? Quais problemas serão enfrentados? Que equipe fará esse trabalho? Como os resultados serão acompanhados?
O compromisso começa antes da inauguração e continua todos os dias depois dela. É na capacidade de ajudar empresas a superar obstáculos, transformar conhecimento em soluções e construir relações duradouras que um ambiente de inovação demonstra seu valor.

Luan Argemon é superintendente de Inovação e Novos Negócios do Parktec CG e coordenador do Ecossistema de Inovação de Campo Grande (MS). Fundador da IDAtleta, escreve sobre empreendedorismo, startups e inovação em Mato Grosso do Sul.
Este artigo reflete a opinião do autor e não necessariamente a do Empreenda MS.
