Edital do Sanesul Innova, com Itaipu Parquetec e Fonplata, busca soluções para dois problemas reais da água subterrânea em Naviraí e Juti. Startups do Brasil e de países vizinhos têm só até a próxima terça-feira para se inscrever, e o teste pode virar contrato com a concessionária.
Startups que desenvolvem tecnologia para tratamento de água têm até a próxima terça-feira, 10 de novembro, para disputar uma vaga no Sanesul Innova, programa de inovação aberta da Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul). O edital, operado pelo Itaipu Parquetec em parceria com o banco de desenvolvimento Fonplata, vai selecionar até quatro empresas para testar, em estações reais da concessionária, soluções para dois problemas da água subterrânea em Naviraí e Juti. Cada selecionada recebe até R$ 79.852,50 para executar uma prova de conceito, além de mentoria e acesso à infraestrutura da Sanesul.
A chamada é aberta a startups do Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, e as inscrições começaram em 9 de outubro. Para empreendedores de Mato Grosso do Sul que trabalham com saneamento, química, filtragem, automação ou monitoramento, é uma oportunidade rara: o cliente que tem o problema é quem abre a porta para o teste, e um resultado positivo pode virar referência para vender a outras operadoras.
Os dois desafios: caulim em Naviraí e flúor em Juti
O edital tem dois desafios, e cada startup pode enviar apenas uma proposta, para um único deles. Serão até duas empresas por desafio.
O primeiro está em Naviraí, no Cone Sul do Estado. Ali, a água subterrânea carrega naturalmente caulim, um argilomineral que aumenta a turbidez e a cor da água bruta. Segundo a descrição do programa, isso obriga a decantação e filtragem frequentes, eleva o gasto com insumos químicos e exige manutenções periódicas. A Sanesul procura uma tecnologia capaz de remover ou reduzir continuamente o caulim, desobstruindo membranas e decantadores, para baixar o custo operacional e estabilizar o fluxo de tratamento.
O segundo desafio está em Juti, onde a água vem de poços profundos e atende mais de 5 mil habitantes. O problema é a presença de flúor e de sais dissolvidos em níveis que precisam ser reduzidos para atender aos padrões de potabilidade. A meta é diminuir os íons de flúor e os sólidos totais dissolvidos, reduzindo também a corrosão e a incrustação nas estruturas, e evitar a necessidade de novas captações.
Em ambos os casos, as soluções precisam atender aos padrões de potabilidade do Ministério da Saúde. O edital lista como diferenciais o baixo consumo de energia e de reagentes, a facilidade de operação e manutenção, o monitoramento em tempo real e a gestão adequada dos resíduos. A Sanesul também quer sistemas compactos, que possam ser replicados em outras unidades da sua rede.
Quem pode se inscrever
A régua de entrada não é para ideias no papel. O edital exige tecnologia com nível de maturidade tecnológica (TRL, na sigla em inglês) entre 5 e 9. Na escala, o nível 5 corresponde a uma solução já validada em ambiente relevante, e o 9, a uma tecnologia comprovada em operação real. Na prática, a startup precisa ter algo que já funcione em escala de teste, ainda que não esteja no mercado.
Outros requisitos, segundo o edital:
Ter ao menos um profissional dedicado integralmente ao negócio.
Apresentar solução aplicável a um dos dois desafios, com uma proposta por startup.
No caso de empresas estrangeiras selecionadas, constituir pessoa jurídica no Brasil e ter CNPJ ativo antes da contratação.
A inscrição é digital, pelo site campanha.itaipuparquetec.org.br/sanesul-innova, e inclui um vídeo de até cinco minutos em que a equipe apresenta a solução, os diferenciais, a aderência ao problema, a capacidade de execução e a viabilidade técnica e econômica.
Como será a seleção e o calendário
As propostas passam por três etapas: análise técnica, apresentação em um Demoday e verificação de documentos. Os critérios de avaliação são aderência ao desafio, viabilidade técnica e econômica, experiência da equipe, e potencial de mercado e escalabilidade.
O cronograma divulgado prevê:
Inscrições: de 9 de outubro a 10 de novembro de 2026.
Resultado da análise técnica: 10 de dezembro.
Demoday: 16 e 17 de dezembro.
Resultado final: 22 de dezembro.
Prazo para documentação e formalização do contrato: 17 de janeiro de 2027.
Depois da assinatura, cada startup terá até seis meses para desenvolver a prova de conceito nas estações designadas em Naviraí e Juti e entregar o relatório final.
Como o dinheiro é liberado
O aporte de até R$ 79.852,50 não é pago de uma vez. O edital divide o valor em três parcelas condicionadas a entregas: 40% depois da aprovação do plano de ação, 40% após a implementação da solução e a validação de um relatório parcial, e 20% com a entrega e aprovação do relatório final.
Segundo a descrição do programa, os recursos podem cobrir a fabricação de protótipos, ensaios laboratoriais independentes, a logística das equipes e a adaptação de plantas modulares aos pontos de captação. A participação do Fonplata, banco multilateral de desenvolvimento dos países da Bacia do Prata, é o que permite cobrir o risco inicial das startups durante os testes.
Além do dinheiro, as selecionadas terão acompanhamento técnico da Sanesul e mentorias em tecnologia, negócios e mercado. Um dos objetivos da mentoria é verificar se a solução tem viabilidade econômica para ser precificada por metro cúbico de água tratada, que é a forma como uma concessionária compara custos.
Royalties e contratação: o que observar
Há duas condições que o empreendedor precisa pesar antes de se inscrever. A primeira é que a seleção não garante contratação comercial. A Sanesul vai avaliar os resultados ao fim dos testes e decidir se compra a solução.
A segunda é a cobrança de royalties de 2% sobre a receita bruta obtida com a solução, por três anos contados a partir da aprovação do relatório final. As condições detalhadas ficam para o contrato. Vale ler o edital completo com atenção, de preferência com apoio jurídico, para entender o alcance dessa cláusula sobre vendas futuras.
Checklist para quem vai se inscrever
Com poucos dias até o fim do prazo, vale organizar a candidatura em etapas. Primeiro, escolher um único desafio, caulim em Naviraí ou flúor e sais em Juti, e confirmar que a tecnologia tem maturidade compatível com a faixa de TRL 5 a 9 exigida. Segundo, reunir evidências de desempenho já obtidas em testes, como laudos, relatórios de piloto ou resultados de laboratório, porque a viabilidade técnica é um dos critérios de avaliação. Terceiro, roteirizar o vídeo de até cinco minutos para cobrir os pontos que a banca vai pontuar: aderência ao problema, diferenciais, capacidade da equipe e viabilidade econômica, de preferência com uma estimativa de custo por metro cúbico tratado. Por fim, ler o edital completo publicado na página do programa, inclusive as regras de royalties e de formalização do contrato.
O precedente do Paraná
O modelo não é novo para o Itaipu Parquetec, parque tecnológico ligado à usina de Itaipu, em Foz do Iguaçu. O parque operou o programa Sanepar Startups, da companhia de saneamento do Paraná. Segundo as informações divulgadas sobre o edital, depois dos testes em escala real duas soluções foram contratadas pela Sanepar, com valor conjunto superior a R$ 6 milhões.
O número ajuda a dimensionar o que está em jogo. O aporte da prova de conceito é modesto, mas o prêmio real é a chance de fechar contrato com a concessionária estadual de saneamento e de usar o caso como vitrine para outras operadoras de água.
Por que importa para quem empreende em MS
O saneamento entrou de vez na agenda econômica do Estado. Em outubro, estudo do Instituto Trata Brasil estimou que a universalização dos serviços pode valorizar imóveis de Mato Grosso do Sul em R$ 981 milhões até 2031, tema da reportagem Saneamento pode valorizar imóveis de MS em R$ 981 milhões até 2031. Problemas como o caulim e o excesso de flúor, porém, mostram que o desafio vai além de expandir rede: tratar a água certa, no lugar certo e a custo razoável exige tecnologia.
O Sanesul Innova também é um exemplo de inovação aberta feita por uma empresa pública do Estado, modelo em que a organização expõe um problema e convida startups a resolvê-lo. A integração com Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai no edital conversa com a aproximação regional que já aparece em outras iniciativas de MS, como a rodada de negócios entre Brasil e Paraguai no parque tecnológico de Ponta Porã, mostrada em Semana da Inovação ocupa parque tecnológico de Ponta Porã.
Para as startups sul-mato-grossenses, a vantagem é a proximidade com os locais de teste e o conhecimento da realidade dos aquíferos do Estado. Para universidades e grupos de pesquisa com tecnologia madura em tratamento de água, pode ser o empurrão para criar uma empresa. Com o prazo terminando em 10 de novembro, quem pretende concorrer precisa preparar o vídeo e conferir os requisitos nos próximos dias.
Leia também
Saneamento pode valorizar imóveis de MS em R$ 981 milhões até 2031, aponta Trata Brasil
Investidores ou grandes clientes? Startups de MS testam os dois caminhos
Fontes
Startups.com.br: Edital seleciona startups de tratamento de água para receber aporte
Startupi: Edital seleciona startups do Mercosul para desafios de tratamento de água
Brasil Inovador: Inovação aberta no saneamento: edital internacional convoca startups
