Ministério do Turismo coordena mesa com Paraguai, Argentina e Chile para transformar o corredor de cargas em itinerário rodoviário internacional, o que abre mercado para hotéis, agências, guias e restaurantes de MS
A Rota Bioceânica, pensada para encurtar o caminho das exportações de Mato Grosso do Sul até os portos do Chile, também pode virar um produto turístico. O Ministério do Turismo coordena a articulação entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile para transformar a ligação rodoviária em um itinerário internacional, com Bonito e o Pantanal sul-mato-grossense como principais vitrines do lado brasileiro. A proposta foi apresentada pelo ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, em entrevista ao Campo Grande News publicada no domingo (2).
O plano interessa diretamente a quem empreende no turismo de MS. Se o corredor de cargas também se tornar um caminho para viajantes, hotéis, pousadas, agências, guias, restaurantes e empreendimentos de cidades que hoje ficam fora dos grandes circuitos internacionais podem ganhar um novo fluxo de visitantes chegando por terra.
Mesa de turismo entre os quatro países
Segundo o ministro, a pasta coordena a Mesa de Turismo do Fórum dos Governos Nacionais do Corredor Bioceânico, espaço de articulação entre os quatro países para desenvolver o potencial turístico da nova ligação. “Vamos transformar o que nasceu como um corredor logístico em um grande itinerário rodoviário internacional, com muita cultura, ecoturismo e gastronomia”, afirmou Feliciano ao Campo Grande News.
A ideia é aproveitar a diversidade de paisagens e culturas ao longo do traçado para atrair turistas interessados em viagens por estrada, um perfil que costuma permanecer mais tempo no destino e gastar em vários pontos do caminho. O desafio, segundo o ministério, é transformar essa diversidade em produtos turísticos comercializáveis, com infraestrutura, serviços e integração entre os países.
Feliciano disse que o ministério acompanha as obras rodoviárias e fronteiriças e trabalha com outros órgãos federais para melhorar a recepção de visitantes nas cidades de fronteira, ponto sensível para qualquer roteiro que dependa de travessias rápidas e previsíveis.
Bonito e Pantanal como vitrines de MS
No lado brasileiro, os dois cartões-postais já têm reconhecimento internacional. Na Serra da Bodoquena, Bonito reúne mais de 40 atrativos, entre rios de águas transparentes, grutas, cachoeiras e trilhas, com flutuação, mergulho, passeios de bote e atividades de aventura. Em 2025, o município recebeu 293.712 turistas, segundo os dados citados pelo Campo Grande News.
O Pantanal oferece outra experiência, marcada pela observação de fauna e pelo ritmo das cheias e secas. Safáris fotográficos, passeios de barco, cavalgadas e hospedagem em fazendas permitem ver tuiuiús, jacarés, capivaras e, em algumas regiões, onças-pintadas. A Estrada-Parque Pantanal, a Serra do Amolar e as regiões de Corumbá, Miranda e Aquidauana estão entre os destinos mais procurados para turismo de natureza, pesca esportiva e experiências culturais.
O desenho do corredor coloca Mato Grosso do Sul como uma das principais portas de entrada do roteiro. Para quem chega do Sudeste ou do exterior por Campo Grande, o Estado pode funcionar como primeira parada de uma viagem que termina no Oceano Pacífico, ou como destino final de quem faz o caminho inverso, vindo do Chile e da Argentina.
O tema já vinha aparecendo na pauta do setor. O empreendams.com mostrou em outubro a chegada do 3º voo semanal da Latam a Bonito, um sinal de que a conectividade aérea com os principais destinos de MS também está em movimento.
Chaco paraguaio: flamingos e história
Ao cruzar a fronteira em Porto Murtinho, o viajante encontra o Chaco, que ocupa cerca de 60% do território paraguaio e combina planícies, florestas secas, savanas, lagoas salgadas e áreas de grande biodiversidade. As lagoas salgadas do Chaco Central são um dos atrativos mais curiosos, com flamingos e outras aves aquáticas, o que abre espaço para o turismo de observação de aves.
A história é outro diferencial. Fortificações como Boquerón, Isla Po’i e Toledo preservam a memória da Guerra do Chaco, travada entre Paraguai e Bolívia na década de 1930. Na região de Filadélfia, comunidades indígenas e colônias menonitas acrescentam experiências culturais e gastronômicas. O setor turístico paraguaio vê a melhoria das estradas, incluindo a implantação da Rota Bioceânica, como oportunidade para ampliar o acesso a esses destinos.
Andes argentinos e deserto chileno
No Noroeste argentino, a paisagem ganha montanhas, vales, salares e povoados marcados pela herança andina. As províncias de Salta e Jujuy concentram cenários conhecidos, como a Quebrada de Humahuaca, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco, o Cerro das Sete Cores, em Purmamarca, e as Salinas Grandes. Gastronomia regional, artesanato, peñas folclóricas e celebrações como as homenagens à Pachamama completam a experiência.
No Norte do Chile, o roteiro termina entre desertos, salares e o litoral do Pacífico. Iquique se destaca com praias como Cavancha, esportes aquáticos e atrações históricas ligadas ao ciclo do salitre. Perto dali, as antigas instalações de Humberstone e Santa Laura também são Patrimônio Mundial. Em outros circuitos da região, San Pedro de Atacama reúne o Vale da Lua, os Gêiseres de El Tatio e a observação astronômica.
A combinação permite vender, num único pacote, turismo de aventura, natureza, patrimônio histórico e praia, com os portos do Pacífico como pontos estratégicos da integração continental.
Plano Brasis e oportunidades para o trade de MS
O ministro também citou o Plano Brasis, desenvolvido em articulação com a Embratur, como instrumento para promover destinos brasileiros no mercado internacional e ampliar sua presença nos catálogos de operadoras estrangeiras. A estratégia inclui fortalecer o turismo rural, a pesca esportiva sustentável, as experiências comunitárias e os roteiros culturais, de aventura e de fronteira.
Para o empreendedor local, isso se traduz em algumas frentes concretas. Agências receptivas podem desenhar pacotes rodoviários que combinem Bonito, Pantanal e Chaco. Hotéis e pousadas ao longo da BR-267 e em Porto Murtinho podem se preparar para um perfil de hóspede que viaja de carro ou em grupo. Restaurantes e produtores de alimentos regionais têm a chance de vender a gastronomia pantaneira a turistas estrangeiros. Guias bilíngues, sobretudo em espanhol, tendem a ganhar demanda.
Há ainda espaço para a economia criativa. Artesanato indígena, produtos com baru e guavira, cervejas e doces regionais podem ganhar vitrine em pontos de parada e centros de atendimento ao turista ao longo do corredor, ampliando a renda de pequenos fabricantes do interior.
O governo federal aposta que a integração poderá ampliar a circulação de turistas e distribuir oportunidades econômicas por municípios hoje fora dos principais circuitos internacionais. A dúvida, para o trade, é o ritmo: um roteiro só é vendável quando as estradas, as aduanas e os serviços estão prontos.
Obras ainda definem o calendário
Enquanto os quatro países discutem a integração turística, a infraestrutura segue em implantação. A ponte internacional sobre o Rio Paraguai, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, tem 1.294 metros de extensão e investimento estimado em US$ 103 milhões. Os dois lados foram unidos em julho de 2026, e a obra avançou para acabamento, pavimentação, sinalização e instalação de equipamentos de segurança.
No lado brasileiro, a conclusão do acesso à ponte é prioridade nacional para 2027. O empreendimento inclui 13,1 quilômetros de ligação com a BR-267, o contorno de Porto Murtinho e um centro aduaneiro, e foi incluído pelo TCU (Tribunal de Contas da União) entre as 10 obras prioritárias do próximo ano. Segundo o tribunal, são necessários R$ 279,1 milhões para terminar os trabalhos. Em março, o DNIT informou execução de 31,73% do conjunto de intervenções. O empreendams.com detalhou a decisão do TCU em reportagem sobre a prioridade dada pelo TCU ao acesso de Porto Murtinho.
No Paraguai, a pavimentação foi dividida em três trechos. O primeiro, de 277 quilômetros entre Carmelo Peralta e Loma Plata, está concluído, com investimento de US$ 443 milhões. O segundo tem 102 quilômetros entre Cruce Centinela e Mariscal Estigarribia, com US$ 200 milhões previstos. O terceiro cobre 224 quilômetros entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina.
A segurança e a fiscalização na fronteira também estão no radar. A PRF prevê um posto em Porto Murtinho e já treina policiais dos quatro países, como mostrou o empreendams.com em reportagem sobre o novo posto da PRF.
O que vem pela frente
A transformação do corredor em roteiro turístico depende de três peças: a conclusão das obras, a simplificação das travessias de fronteira e a criação de produtos que possam ser vendidos por operadoras. A primeira tem cronograma em andamento, com a ponte em fase final e o acesso brasileiro previsto como prioridade para 2027. As outras duas dependem da articulação da Mesa de Turismo e da capacidade do setor privado de se organizar.
Para Mato Grosso do Sul, a aposta é que a Rota Bioceânica deixe de ser apenas um caminho para soja, carne e celulose e passe a levar também visitantes, renda e empregos ao longo do trajeto. Empresários do turismo que começarem a planejar agora, com pacotes, idiomas e parcerias com o lado paraguaio, terão vantagem quando o fluxo começar.
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Fontes
Campo Grande News: https://www.campograndenews.com.br/economia/rota-bioceanica-pode-se-tornar-circuito-turistico-internacional-entre-4-paises
