Operadora que venceu o lote do Centro-Oeste no leilão de 700 MHz oferece comissão, treinamento e suporte a pequenos varejistas. Expansão mira aldeias, assentamentos e 175 km da BR-163, onde o celular ainda falha
A operadora Brisanet começou a procurar estabelecimentos comerciais em Nioaque, a cerca de 140 quilômetros de Campo Grande, para vender chips de telefonia móvel 5G. A iniciativa, anunciada nesta semana, é o primeiro movimento visível da empresa no varejo de Mato Grosso do Sul quase seis meses depois de ela vencer o leilão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que prevê a ampliação do sinal de celular em 47 localidades do Estado e em 175,4 quilômetros da BR-163.
O modelo aproveita lojas que já existem. Em vez de abrir pontos próprios, a operadora quer credenciar comerciantes locais, que passam a vender os chips e recebem comissão sobre as vendas, além de treinamento, suporte técnico e de marketing, materiais de divulgação e padronização visual da loja. O público principal são lojas de informática, celulares e acessórios, mas outros segmentos do varejo interessados em vender serviços de telecomunicação também podem participar.
Para o pequeno comerciante do interior, a proposta é uma fonte extra de receita sem investimento em estoque pesado. Para a operadora, é a forma mais rápida de ganhar capilaridade numa região em que ainda não tem presença física.
Como se tornar parceiro
Segundo a Brisanet, o estabelecimento precisa estar formalizado, ou disposto a se formalizar, como microempresa (ME) ou empresa de pequeno porte (EPP). Os interessados podem entrar em contato pelo telefone (88) 92171-9818.
A empresa não informou quantos pontos pretende credenciar em Nioaque, nem detalhou a cobertura da rede própria de 5G no município ou a data prevista para o início da operação. Também não divulgou o percentual de comissão. Por isso, o comerciante interessado deve pedir essas condições por escrito antes de fechar a parceria, incluindo metas, prazos de pagamento e regras de uso da marca.
“A partir de parcerias sólidas e sustentáveis, vamos contribuir para fortalecer o comércio e o desenvolvimento local, levando conectividade 5G para o interior do país e transformando o futuro de pequenas cidades”, afirmou o gerente executivo de Novos Negócios da Brisanet, Airton Silva.
Quem pensa em ampliar a loja para atender a nova demanda pode buscar linhas de financiamento para pequenos negócios. O Empreenda MS mostrou que o BNDES já liberou R$ 8,8 bilhões a pequenas empresas de MS desde 2023, com o passo a passo para pedir crédito.
O que a Brisanet venceu no leilão
A empresa arrematou em 4 de maio o lote A3 da faixa de 700 MHz, que cobre o Centro-Oeste, com proposta de R$ 1.853.280,00, praticamente igual ao preço mínimo de R$ 1.853.279,19. A faixa de 700 MHz é considerada estratégica porque o sinal alcança distâncias maiores, o que a torna adequada para áreas rurais e regiões com obstáculos naturais.
O leilão foi desenhado para estimular a entrada de novas operadoras e atender lugares onde a infraestrutura de telefonia ainda é insuficiente. Pelo edital, aprovado pelo Tribunal de Contas da União, segundo o Ministério das Comunicações, a maior parte do valor pago pelas empresas é convertida em compromissos obrigatórios de cobertura, em vez de ir para o caixa do governo. Por isso, o valor do lance não mede o tamanho do compromisso: o que pesa são as metas de atendimento.
Em Mato Grosso do Sul, os compromissos incluem 47 localidades, entre aldeias indígenas, assentamentos, loteamentos, áreas de usinas de bioenergia, comunidades e propriedades rurais. Entre os exemplos estão a aldeia Lagoinha, em Miranda, a comunidade Zigurats, em Corguinho, e a agrovila Capão Bonito I, em Sidrolândia.
Na BR-163, a operadora terá de cobrir 175,4 quilômetros distribuídos em oito trechos: Caarapó a Rio Brilhante, Rio Brilhante a Dourados, Dourados a Douradina, Nova Alvorada do Sul a Campo Grande, Campo Grande a Jaraguari, Jaraguari a Bandeirantes, Bandeirantes a São Gabriel do Oeste e São Gabriel do Oeste a Rio Verde de Mato Grosso. São trechos importantes para o escoamento da produção do Estado.
Os outros vencedores e a disputa judicial
No país, o leilão envolveu 864 localidades sem cobertura e 6.570,5 quilômetros de rodovias. Além do lote do Centro-Oeste, a Brisanet levou o lote do Nordeste (A2), por R$ 6.275.100,00. A Amazonia Serviços Digitais e Telecomunicações ficou com o lote de São Paulo e do Norte (A1), por R$ 7.010.114,86; a Unifique, com o lote do Sul (A4), por R$ 3.418.493,29; e a IEZ! Telecom, com o lote de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais (A5), por R$ 4.430.492,86.
“Nosso papel agora é ampliar essa capilaridade, levando os serviços ao interior do Brasil”, disse na ocasião o ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho. O leilão, porém, ocorreu sob contestação judicial: o Tribunal Regional Federal da 3ª Região havia concedido efeito suspensivo a um recurso da associação Telcomp, que questiona aspectos técnicos da disputa e aponta possível prejuízo à isonomia e à concorrência.
A estratégia de chegar ao Centro-Oeste por meio de parceiros não é nova. Em março de 2025, o presidente da Brisanet, José Roberto Nogueira, já dizia ao site Teletime que a operação móvel na região começaria em 2026, “bem mais tarde que o Nordeste”, e com “um novo modelo”, apoiado em infraestrutura de fibra de provedores aliados e em acordos com redes neutras. A empresa havia conquistado frequências para o Centro-Oeste no leilão nacional do 5G, em 2021.
O tamanho do buraco no sinal de MS
A chegada de uma nova operadora acontece num Estado em que a cobertura ainda é desigual. Em junho de 2025, levantamento do Campo Grande News apontou que só 11 municípios de MS tinham antenas licenciadas compatíveis com o 5G. Hoje a tecnologia já está em mais de 30 localidades, com mais de 760 antenas, mas a distribuição é concentrada, sobretudo longe das estradas.
No mesmo mês, estudo apresentado pelo deputado estadual Pedrossian Neto (PSD), feito com a colaboração de prefeituras, estimou que 251 mil moradores de Mato Grosso do Sul estavam sem acesso à telefonia móvel, principalmente nas áreas rurais. O levantamento indicou ainda que 68% dos distritos consultados não tinham cobertura de celular.
A conectividade em rodovias também está no radar de outros projetos. A concessionária da Rota da Celulose, por exemplo, prevê 82 torres de 4G ao longo de suas estradas no início de 2027. Somadas, essas iniciativas podem reduzir os pontos cegos que hoje atrapalham motoristas, produtores rurais e empresas de logística.
Nova regra da Anatel afeta quem vende chip
Os futuros parceiros da Brisanet, e de qualquer operadora, também precisarão se adaptar a uma regra aprovada pela Anatel nesta quarta-feira (28). A agência tornou obrigatória a validação de identidade por reconhecimento facial para linhas de celular, com implantação gradual a partir de 2027. A medida vale para pessoas físicas e MEIs e busca impedir que criminosos usem dados falsos ou de terceiros para habilitar números e aplicar golpes.
As operadoras terão de exigir a biometria na ativação de novos chips, na portabilidade, na troca de cartões e em alterações cadastrais. O procedimento inclui uma prova de vida, com comparação da imagem do cliente com registros em bases públicas ou privadas. O calendário é o seguinte:
• até 30 de setembro de 2027: verificação obrigatória para novas linhas pré-pagas;
• até 31 de dezembro de 2027: planos pós-pagos, portabilidade, troca de chip e mudanças de dados;
• até 31 de dezembro de 2028: recadastramento de quem já tem linha ativa sem validação;
• a partir de janeiro de 2029: números sem regularização podem ser suspensos e depois cancelados, após notificação.
O reconhecimento facial poderá ser feito presencialmente, nos pontos de atendimento das operadoras, ou pela internet, nos sites e aplicativos oficiais. A norma, identificada como GT-SEG.2026.11, prevê métodos alternativos para quem não conseguir concluir a biometria e obriga as empresas a proteger os dados conforme a Lei Geral de Proteção de Dados. Para a loja parceira, isso significa que a venda de chip tende a exigir mais do que entregar o cartão no balcão, e vale perguntar à operadora como será esse atendimento.
Próximos passos
A Brisanet ainda não divulgou o cronograma de ativação das antenas nas 47 localidades de MS nem o calendário de expansão da rede de parceiros para outros municípios além de Nioaque. Esses dados vão indicar quando moradores de aldeias, assentamentos e comunidades rurais passarão, de fato, a ter sinal, e em que ritmo os trechos da BR-163 deixarão de ser pontos cegos para quem trafega entre o sul e o norte do Estado.
Para o comércio do interior, a movimentação abre uma oportunidade concreta de negócio e um sinal de que a disputa pelo cliente de telefonia móvel deve ganhar um novo competidor no Estado. O Empreenda MS seguirá acompanhando a instalação da rede e a chegada das operadoras às regiões hoje sem cobertura.
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Fontes: Campo Grande News (Brisanet em Nioaque); Campo Grande News (leilão de 700 MHz); Campo Grande News (biometria da Anatel); Teletime; Brasil 61.
