Empresas turísticas de MS contrataram R$ 5,36 milhões do Fundo Geral de Turismo até 16 de outubro, alta de 312% sobre 2025 e mais que qualquer ano desde 2023; na mesma semana, a Gol confirmou que deixará de voar entre Bonito e Congonhas e entre Campo Grande e o Galeão a partir de fevereiro
O turismo de Mato Grosso do Sul recebeu, na mesma semana, uma boa e uma má notícia. A boa: os empreendimentos turísticos do Estado nunca contrataram tanto crédito do Fungetur (Fundo Geral de Turismo) quanto em 2026, considerando a série desde 2023. Foram R$ 5,36 milhões em sete operações de janeiro até a última sexta-feira (16), alta de 312,3% em relação a todo o ano de 2025, segundo dados do Painel Gerencial do Novo Fungetur, do Ministério do Turismo, levantados pelo Campo Grande News. A má: no mesmo dia 16, a Gol Linhas Aéreas confirmou o cancelamento, a partir de fevereiro de 2027, de duas rotas diretas que ligam o Estado aos principais mercados emissores do país — Bonito–Congonhas, em São Paulo, e Campo Grande–Galeão, no Rio de Janeiro.
As duas notícias desenham um retrato contraditório do setor: de um lado, hotéis, pousadas, agências e guias apostando dinheiro na própria estrutura; de outro, o risco de que a porta de entrada de parte dos visitantes fique mais estreita justamente quando esses investimentos amadurecerem.
Crédito recorde na série recente
Os números do Fungetur mostram uma virada clara. Em 2023, os empreendimentos turísticos de Mato Grosso do Sul contrataram R$ 2,49 milhões em oito operações. Em 2024, foram R$ 3,53 milhões em dez financiamentos. Em 2025, houve forte retração: apenas R$ 1,3 milhão em duas operações. O valor contratado em 2026, ainda parcial, já supera todos esses anos — é 51,8% maior que o de 2024 e 115,3% superior ao de 2023.
Somados os quatro anos, o fundo financiou R$ 12,67 milhões em 27 operações no Estado, e cerca de 42,3% desse total foi contratado apenas em 2026. Outro dado que chama atenção é o tamanho médio das operações, que vem crescendo ano a ano: cerca de R$ 311 mil em 2023, R$ 353 mil em 2024, R$ 650 mil em 2025 e R$ 766 mil em 2026. Ou seja, além de mais empresas buscarem o crédito, os projetos financiados estão ficando maiores.
Hospedagem lidera, capital de giro domina
No acumulado de 2023 a outubro de 2026, os meios de hospedagem — hotéis, pousadas e similares — concentraram R$ 7,52 milhões em financiamentos, aproximadamente 59,4% do total do Estado. As agências de turismo aparecem em segundo lugar, com R$ 1,96 milhão, seguidas pelas transportadoras turísticas, com R$ 1,02 milhão.
Na sequência vêm os prestadores de infraestrutura de apoio ao turismo, com R$ 770 mil; restaurantes, cafeterias, bares e similares, com R$ 560 mil; e guias de turismo, com R$ 500 mil. Há ainda R$ 250 mil em operações sem atividade informada e R$ 100 mil para prestadores especializados em segmentos turísticos.
O recorte por porte mostra que o fundo tem chegado sobretudo aos pequenos. As pequenas empresas contrataram R$ 8,57 milhões no período, e as microempresas, R$ 2,11 milhões. Juntas, respondem por cerca de 84% do volume. As grandes empresas ficaram com R$ 1,5 milhão e as médias, com R$ 500 mil. Vale ressaltar que os recortes por atividade e por porte se referem ao acumulado dos quatro anos, não apenas às operações de 2026.
Quanto à finalidade, o capital de giro predomina com folga: R$ 10,22 milhões, cerca de 80,7% do total contratado no Estado desde 2023. A aquisição de bens — máquinas, equipamentos, mobiliário e outros itens — somou R$ 1,96 milhão, e as obras civis, cerca de R$ 501,5 mil. O peso do capital de giro sugere que boa parte dos empresários usa o fundo para manter a operação e atravessar a sazonalidade típica do turismo, mais do que para expandir a estrutura física.
Juros baixos e prazos longos
Parte da explicação para a procura está nas condições do fundo. O Novo Fungetur é um fundo especial de financiamento vinculado ao Ministério do Turismo, com patrimônio próprio e autonomia financeira e orçamentária, criado para disponibilizar recursos a empreendimentos turísticos e apoiar políticas públicas do setor. As linhas cobram juros de até 5% ao ano, acrescidos da variação do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) — patamar bem inferior ao das linhas convencionais de crédito empresarial.
Os prazos também são longos. Para obras civis — construção, reforma, ampliação e modernização de estabelecimentos —, o financiamento pode chegar a 240 meses, ou 20 anos, com carência de até 60 meses. Na aquisição de bens, o prazo máximo é de 120 meses, com até 48 meses de carência. Para capital de giro isolado, o prazo também pode chegar a 120 meses, com carência máxima de 24 meses. Os prazos incluem a carência, e as condições efetivas dependem da modalidade, da análise de crédito e das regras de cada instituição financeira.
As operações não são feitas diretamente pelo ministério, mas por instituições financeiras credenciadas, que analisam as propostas, aprovam o crédito e formalizam os contratos. Podem pedir os recursos os prestadores de serviços turísticos e as empresas enquadradas nas atividades previstas no artigo 21 da Lei nº 11.771, de 2008, a Lei Geral do Turismo, desde que inscritos no Cadastur, o Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos.
Ainda que o crescimento percentual seja expressivo, os valores absolutos mostram que o fundo segue com alcance limitado no Estado: 27 operações em quase quatro anos é um número modesto diante do tamanho do trade turístico de destinos como Bonito, Pantanal e Campo Grande. O dado reforça o espaço para ampliar a divulgação das linhas e o credenciamento de empresas no Cadastur, pré-requisito para acessar o crédito.
Há também espaço para o número de 2026 crescer. O painel do Ministério do Turismo foi atualizado em 16 de outubro, e ainda restam dois meses e meio para novas contratações antes do fechamento do ano. Qualquer operação adicional amplia a distância em relação à série recente e consolida 2026 como o ano de maior uso do fundo pelos empreendimentos turísticos sul-mato-grossenses desde 2023, ao menos.
A conta da aviação
Enquanto o crédito avança em terra, a ligação aérea com o restante do país sofre um revés. A Gol confirmou que deixará de operar, a partir de fevereiro de 2027, o voo direto entre Bonito e o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e o trecho entre Campo Grande e o Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.
O voo de Bonito operava havia quase cinco anos e representa a conexão mais rápida entre o principal destino de ecoturismo do Estado e o maior mercado emissor de turistas do país. Já a rota entre a Capital e o Rio havia sido retomada pouco menos de três meses antes do anúncio.
Em nota enviada ao Campo Grande News, a companhia atribuiu a decisão ao avanço do preço do querosene de aviação, que, segundo a empresa, dobrou de valor e hoje compromete 40% dos seus custos operacionais. A mudança faz parte de um enxugamento amplo da malha, com previsão de suspensão de 38 rotas no Brasil e no exterior. “O planejamento de malha é um processo dinâmico e contínuo no setor de aviação comercial e ocorre rigorosamente de acordo com as necessidades da operação como um todo, sem qualquer distinção ou priorização regional por parte da Companhia”, justificou a Gol.
A perda de ligações diretas afeta tanto o turismo quanto os negócios. Sem elas, quem quer chegar rapidamente à Capital ou aos destinos de natureza do Estado tende a depender de conexões ou de longos deslocamentos por terra — um fator que pesa na decisão de viagem, sobretudo para estadias curtas.
Investimento privado e infraestrutura pública
A coincidência das duas notícias expõe um descompasso conhecido do setor. Os empresários do turismo podem financiar quartos novos, veículos, equipamentos e capital de giro, mas dependem de decisões que não controlam — como a malha das companhias aéreas — para que os visitantes cheguem. Uma pousada que contrata crédito de longo prazo para ampliar a estrutura precisa de fluxo de hóspedes por anos para pagar o financiamento.
O tema da conectividade aérea já está na agenda do Estado por outros caminhos. Os aeroportos de Bonito, Dourados e Três Lagoas integram o pacote de concessão de aeroportos regionais que o governo federal apresentou a investidores neste mês, com leilão previsto para 17 de dezembro. A concessão, porém, trata da infraestrutura e da gestão dos terminais; a oferta de voos continua sendo uma decisão comercial das companhias aéreas.
Até fevereiro, quando os cortes da Gol entram em vigor, o trade turístico e o poder público terão alguns meses para buscar alternativas — seja a atração de outras empresas para as rotas abandonadas, seja o reforço de conexões existentes. Ao mesmo tempo, o ritmo das contratações do Fungetur indica que, apesar das incertezas, o empresariado do setor continua disposto a investir. O desafio será garantir que esse investimento encontre turistas do outro lado.
Fontes: Campo Grande News — Crédito para turismo em MS cresce 312% em 2026 e chega a R$ 5,36 milhões (16/10/2026) e Gol confirma fim de voos entre Bonito e SP e de Campo Grande para o RJ (16/10/2026); Ministério do Turismo — Painel Gerencial do Novo Fungetur.
