Vendas do varejo ampliado sobem 12% sobre agosto de 2025, o maior avanço entre as 27 unidades da Federação, enquanto o volume de serviços recua 6,9% e o faturamento do setor cai pelo segundo mês seguido; dados do IBGE mostram uma economia sul-mato-grossense que avança em ritmos muito diferentes
O comércio de Mato Grosso do Sul teve em agosto o melhor desempenho do país no varejo ampliado. Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (15), o volume de vendas no Estado cresceu 12% em relação a agosto de 2025, enquanto a média nacional ficou praticamente estável, com alta de 0,1%. Um dia antes, porém, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do mesmo instituto, havia mostrado o outro lado da moeda: o volume de serviços em Mato Grosso do Sul recuou 6,9% na mesma comparação, a quarta maior queda do país.
Os dois resultados, divulgados com menos de 24 horas de diferença, desenham o retrato de uma economia em duas velocidades. De um lado, lojas, concessionárias, revendas de material de construção e atacadistas de alimentos vendendo mais do que no ano passado. De outro, empresas de serviços — de transporte e hospedagem a tecnologia da informação e serviços administrativos — perdendo atividade e faturamento.
MS à frente de todos os estados
O varejo ampliado reúne as atividades do comércio tradicional, como supermercados, lojas de roupas, móveis, eletrodomésticos e farmácias, e acrescenta as vendas de veículos, motocicletas e peças, de materiais de construção e o atacado especializado em alimentos, bebidas e fumo. Nesse recorte, Mato Grosso do Sul ficou à frente das outras 26 unidades da Federação em agosto. Rondônia (11,6%) e Amapá (11,1%) vieram logo atrás, segundo levantamento publicado pelo Campo Grande News a partir dos dados do IBGE.
O contraste com os vizinhos do Centro-Oeste chama atenção. Enquanto Mato Grosso do Sul avançou 12%, Mato Grosso registrou queda de 5,8% e Goiás teve retração de 5,4% no varejo ampliado, sempre na comparação com agosto do ano passado.
Na passagem de julho para agosto, o varejo ampliado sul-mato-grossense cresceu 1,6%, enquanto o indicador nacional recuou 0,2%. No acumulado de janeiro a agosto, o Estado soma alta de 7% nesse segmento, contra 1,7% do Brasil.
O resultado não é um ponto fora da curva. Em julho, a mesma pesquisa já havia colocado Mato Grosso do Sul na liderança nacional do varejo ampliado, com alta de 10,9% sobre julho de 2025. Agosto, portanto, confirma uma sequência de meses em que o comércio estadual cresce bem acima da média do país.
Varejo tradicional também acelera
O desempenho positivo não ficou restrito ao conceito ampliado. No varejo tradicional, que exclui veículos, materiais de construção e atacado alimentício, as vendas de Mato Grosso do Sul subiram 2,7% de julho para agosto, o terceiro maior avanço mensal do país, atrás apenas de Rondônia (5,8%) e Amapá (5,3%). A média brasileira nesse indicador foi de 0,1%.
Na comparação com agosto de 2025, o varejo tradicional do Estado cresceu 7,6%, enquanto o Brasil avançou apenas 0,4%. No acumulado do ano, a alta sul-mato-grossense é de 3,1%, ante 1,7% da média nacional.
A distância entre o varejo tradicional (7,6% em 12 meses) e o ampliado (12%) indica que os segmentos incluídos apenas no conceito ampliado — veículos, materiais de construção e atacado de alimentos — tiveram peso relevante no resultado. O IBGE, porém, não divulga a abertura por atividade para os estados nessa pesquisa, o que impede apontar com precisão quais ramos puxaram a alta. Também não há dados específicos para Campo Grande, de modo que o desempenho não pode ser atribuído isoladamente às lojas da Capital.
Serviços na contramão
Se o comércio vive um bom momento, o setor de serviços atravessa uma fase difícil. Pela PMS, divulgada na quarta-feira (14), o volume de serviços em Mato Grosso do Sul caiu 6,9% em agosto na comparação com o mesmo mês de 2025, enquanto a média nacional cresceu 0,6%. A retração do Estado só foi menor que as de Tocantins (-21,2%), Mato Grosso (-8,3%) e Ceará (-8%). No Centro-Oeste, Goiás recuou 4,5% e o Distrito Federal avançou 9%.
Não se trata de um resultado isolado. Foi a segunda queda anual consecutiva: em julho, a retração havia sido de 9,7%. No acumulado de janeiro a agosto, os serviços sul-mato-grossenses encolheram 2,3%, enquanto no Brasil cresceram 1,7%.
Houve, é verdade, uma pequena reação na comparação mensal. De julho para agosto, o volume de serviços no Estado subiu 0,9%, depois de ter caído 2% no mês anterior. No Brasil, o indicador recuou 0,1% no mesmo intervalo.
Faturamento perde fôlego
A recuperação no volume, no entanto, não chegou ao caixa das empresas. A receita nominal do setor — que mede o faturamento a preços correntes, sem descontar a inflação — caiu 1,3% em agosto em relação a julho, depois de já ter recuado 1,2% no mês anterior. Na comparação com agosto de 2025, o faturamento caiu 1%, enquanto no Brasil subiu 6,1%.
O enfraquecimento aparece com clareza na trajetória do acumulado do ano. Até junho, a receita dos serviços de Mato Grosso do Sul crescia 5,2% sobre o mesmo período de 2025. Em julho, o percentual caiu para 3,9% e, em agosto, para 3,2%. No país, o faturamento acumulado de janeiro a agosto cresce 7,4%.
A PMS acompanha empresas formalmente constituídas, com 20 ou mais pessoas ocupadas, que tenham como atividade principal a prestação de serviços não financeiros. Saúde e educação ficam fora do levantamento. Entre os segmentos acompanhados estão alimentação, hospedagem, tecnologia da informação, transportes e serviços administrativos. Assim como no comércio, o IBGE não detalha, nesta edição, quais atividades puxaram o resultado em Mato Grosso do Sul.
A indústria como pano de fundo
O vigor do comércio ocorre num Estado que vem mudando de perfil produtivo. Levantamento do economista Enrique Duarte Romero, diretor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), feito com dados do IBGE e publicado pelo Campo Grande News na quinta-feira (15), mostra que a indústria de transformação saltou de 10,42% do PIB sul-mato-grossense, em 2020, para 15,73% em 2025. O índice é o maior do Centro-Oeste — Goiás ficou em 12,92% e Mato Grosso recuou para 7,23% — e supera a média nacional de 13,7%, segundo dados do IEDI citados no levantamento.
A expansão industrial, impulsionada pela política de incentivos fiscais, ajuda a explicar a renda acima da média: em 2025, o rendimento domiciliar per capita de Mato Grosso do Sul chegou a R$ 2.454 mensais, o sexto maior do país, contra R$ 2.316 na média nacional, segundo o IBGE. Renda maior e mercado de trabalho aquecido costumam se traduzir em mais vendas no varejo, especialmente de bens duráveis como veículos e materiais de construção.
Romero, porém, faz um alerta. Para ele, a industrialização ainda não é suficiente para sustentar a competitividade do Estado sem os incentivos fiscais, que começam a ser reduzidos a partir de 2029 com a reforma tributária, até o fim da chamada guerra fiscal, previsto para 2032. “Quando você passa a ser mais produtivo, toda a sociedade ganha, porque se produzem produtos de melhor qualidade, com valor agregado e com melhor preço”, afirmou o economista ao Campo Grande News, defendendo mais investimentos em logística integrada, educação, ciência e tecnologia.
Confiança ainda em baixa na Capital
Os números do IBGE contrastam com o humor dos empresários do comércio. Como o Empreenda MS mostrou na terça-feira (13), o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) de Campo Grande ficou em 91,7 pontos em setembro, o décimo mês seguido abaixo dos 100 pontos que separam o otimismo do pessimismo, pressionado pelo crédito caro e pela incerteza econômica. Ou seja: as vendas crescem, mas os lojistas da Capital ainda não se sentem seguros para ampliar investimentos na mesma velocidade.
Para pequenos e médios empresários, o quadro sugere cautela na leitura dos indicadores. O bom momento do comércio pode abrir espaço para estoques maiores e contratações temporárias no fim do ano, mas a perda de fôlego dos serviços e os juros elevados recomendam atenção ao fluxo de caixa e ao custo do crédito, sobretudo para negócios que dependem de demanda corporativa, transporte e hospedagem.
O que vem pela frente
Os próximos resultados da PMC e da PMS, referentes a setembro, devem mostrar se o comércio sul-mato-grossense mantém a liderança nacional e se os serviços conseguem interromper a sequência de quedas anuais. A proximidade do Dia das Crianças, da Black Friday e das vendas de Natal tende a favorecer o varejo no último trimestre. Para os serviços, a expectativa recai sobre a retomada de segmentos ligados ao turismo de negócios e à logística, num Estado que concentra grandes obras industriais e projetos de infraestrutura. A falta de detalhamento estadual por atividade nas pesquisas do IBGE, contudo, continuará exigindo cruzamento com outras fontes — como os dados de emprego do Novo Caged e as pesquisas setoriais das federações empresariais — para entender quem, de fato, está puxando cada número.
Fontes: Campo Grande News — Comércio de MS cresce 12% e lidera avanço do varejo ampliado no País (15/10/2026); Serviços de MS têm 4ª maior queda do País em agosto (14/10/2026); Serviços de MS faturam menos mesmo com reação em agosto (14/10/2026); Indústria de MS cresce 5 pontos e assume topo do ranking no Centro-Oeste (15/10/2026); MS lidera alta nas vendas do varejo ampliado em julho, aponta IBGE; IBGE — Pesquisa Mensal de Comércio e Pesquisa Mensal de Serviços (agosto de 2026).
