Celeo Redes leva o maior lote do leilão da Aneel e terá até 60 meses para tirar do papel 1.167 km de linhas entre MS, Paraná e Goiás, obra que destrava a conexão de novas usinas solares e de biomassa no Estado
A empresa Celeo Redes Brasil venceu nesta sexta-feira (30), na sede da B3, em São Paulo, a disputa pelo Lote 4 do Leilão de Transmissão nº 4/2026 da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o pacote de obras que vai levar pela primeira vez linhas de 500 quilovolts (kV) à Rede Básica de Mato Grosso do Sul. O lote, com investimento estimado em R$ 4,11 bilhões, foi arrematado com uma proposta de R$ 377,09 milhões de Receita Anual Permitida (RAP), deságio de 50,55% sobre o teto fixado pela agência. As obras somam 1.167 quilômetros de novas linhas entre Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás, além de duas subestações, e devem gerar 8.225 empregos durante a implantação.
O resultado era o desfecho que faltava para um dos projetos de infraestrutura mais aguardados do Estado. Quando o edital foi publicado, o Empreenda MS mostrou que o leilão de R$ 4,1 bilhões ia definir quem constrói as linhas de 500 kV que ligam MS ao Paraná e a Goiás. Agora há nome, preço e prazo: a concessionária terá até 60 meses, contados da assinatura do contrato, para colocar as instalações em operação comercial, e a concessão vale por 30 anos.
Para quem empreende em Mato Grosso do Sul, a obra importa porque mexe num gargalo antigo. Sem capacidade de transmissão, novas usinas solares, de biomassa ou a gás têm dificuldade para se conectar ao sistema, e investimentos industriais que dependem de energia firme ficam travados. A elevação da tensão da rede é vista pelo setor como condição para o Estado continuar atraindo projetos.
O que a Celeo vai construir
O Lote 4 reúne dois conjuntos de obras. O primeiro é a linha de transmissão em 500 kV entre Rio Brilhante, em Mato Grosso do Sul, e Sarandi, no Paraná, com 620 quilômetros de extensão total, acompanhada de uma nova subestação em Rio Brilhante, com níveis de tensão de 500/230/138 kV e capacidade de transformação de 2.400 MVA (megavolt-ampères). Segundo a CNN Brasil, o traçado do lote passa também por Rosana, no extremo oeste de São Paulo.
O segundo conjunto liga Mato Grosso do Sul a Goiás. Estão previstas as linhas de 500 kV entre Rio Verde Norte e Chapadão e entre Chapadão e Rio Brilhante, que somam 547 quilômetros, e a construção da Subestação Chapadão, de 500/230 kV, com capacidade de transformação de 1.200 MVA. Somados, os dois blocos chegam aos 1.167 quilômetros de linhas e aos 3.600 MVA de transformação do lote.
Deságio de 50,55% e modelo flexível
A RAP é a remuneração anual que a concessionária recebe para construir, operar e manter as instalações, e é ela que entra na conta de luz de todos os consumidores do Sistema Interligado Nacional. A Aneel havia fixado um teto de R$ 762,6 milhões por ano para o Lote 4, segundo a CNN Brasil. A proposta vencedora, de R$ 377.094.858,00, ficou menos da metade disso, uma diferença de cerca de R$ 385 milhões por ano em relação ao valor máximo, pelas contas do Empreenda MS.
A Aneel adotou um modelo flexível para o Lote 4. A agência dividiu o pacote em dois sublotes, 4A e 4B, e os ofereceu ao mesmo tempo que o lote completo. Pela regra, quando há propostas válidas nas duas modalidades, a agência compara a menor oferta pelo lote inteiro com a soma das menores propostas para os sublotes e fica com a de menor receita. “A Agência concluiu que a aquisição do lote completo foi a opção economicamente mais vantajosa”, informou a Aneel em nota sobre o resultado.
Rede de MS sai dos 230 kV
Hoje, as instalações da Rede Básica de Mato Grosso do Sul estão limitadas a 230 kV, segundo o Campo Grande News. A chegada do nível de 500 kV deve aumentar a capacidade de transporte da energia produzida no Estado, em especial a de biomassa e a solar, e ampliar a chamada capacidade remanescente de geração, que é o espaço disponível na rede para conectar novas usinas.
O problema já vinha sendo apontado pelo governo estadual. Em março, durante reunião com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, resumiu a mudança de perfil do Estado: “Mato Grosso do Sul era um importador de energia e hoje tem 94% da matriz limpa e exporta energia para o sistema nacional”. Na mesma ocasião, ele apontou a transmissão como o ponto fraco: “Para escoar essa produção, dependemos das linhas de transmissão, os chamados linhões, e hoje esse é um gargalo que limita novos investimentos no setor”.
O que muda para quem investe e empreende
O efeito mais direto das obras será sobre a geração de energia. Com mais capacidade de escoamento, empresas que pretendem instalar usinas solares, termelétricas a biomassa ou PCHs em Mato Grosso do Sul passam a ter mais chance de conseguir pontos de conexão, o que tende a destravar investimentos hoje represados. A mesma lógica vale para indústrias de grande consumo, que procuram regiões com energia disponível e confiável.
O tema conversa com a estratégia do governo estadual para a era pós-reforma tributária. Com o fim gradual dos incentivos de ICMS, o Estado tem buscado outros atrativos para manter a industrialização, como mostrou o Empreenda MS ao relatar que MS estuda subvenção para atrair indústrias e mira centros de P&D até 2030. Infraestrutura elétrica robusta entra na lista de fatores que pesam na escolha de onde instalar uma fábrica.
Também há impacto no curto prazo para a economia local. Os 8.225 empregos previstos se concentram na fase de construção, que envolve abertura de faixas de servidão, montagem de torres, lançamento de cabos e obras civis nas subestações. Esse tipo de canteiro costuma movimentar hospedagem, alimentação, transporte, aluguel de máquinas e fornecedores de materiais nos municípios ao longo do traçado, abrindo espaço para pequenas e médias empresas da região.
A expansão da indústria de celulose, que já redesenha a economia de municípios como Ribas do Rio Pardo, é um exemplo de como grandes plantas mudam a demanda e a oferta de energia. As fábricas do setor costumam gerar energia a partir de biomassa e exportam o excedente para a rede, o que reforça a necessidade de linhas com mais capacidade. O avanço do setor apareceu até na partilha do imposto entre as cidades, como mostrou a matéria sobre os índices do ICMS 2027, em que Ribas do Rio Pardo lidera os ganhos.
Leilão contratou R$ 8,87 bilhões no país
O Lote 4 foi o carro-chefe de um certame que teve todos os oito lotes arrematados. No total, o leilão garantiu R$ 8,87 bilhões em investimentos em sete estados (Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo), com 1.866 quilômetros de novas linhas, 12.694 MVA de capacidade de transformação e a continuidade da operação e manutenção de 483 quilômetros de linhas já existentes. A estimativa é de cerca de 20,3 mil empregos diretos e indiretos, segundo o BPMoney.
O deságio médio foi de 50,10%. A RAP máxima somada dos oito lotes era de R$ 1,625 bilhão por ano, e as propostas vencedoras ficaram em R$ 811,09 milhões. Pelas contas do Ministério de Minas e Energia e da Aneel, a diferença representa uma economia estimada em R$ 20,77 bilhões para os consumidores ao longo dos 30 anos de concessão.
O que dizem governo e agência
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou o resultado em nota. “Continuamos construindo, com planejamento, o sistema elétrico de que o Brasil vai precisar nas próximas décadas”, afirmou, segundo a CNN Brasil. De acordo com o Campo Grande News, ele relacionou a expansão da transmissão ao escoamento da energia limpa produzida no país e a novas demandas, como data centers e o avanço da inteligência artificial.
Próximos passos e a conexão com a Bolívia
Depois do leilão, o processo segue com a homologação do resultado e a assinatura do contrato de concessão. É a partir dessa assinatura que começa a correr o prazo de 60 meses para a entrada em operação. Antes das obras, a concessionária ainda precisa obter o licenciamento ambiental e negociar as faixas de servidão com proprietários de terras ao longo do traçado, etapas que costumam definir o ritmo desse tipo de empreendimento.
A interligação elétrica com a Bolívia, que a Aneel aponta como um dos objetivos do Lote 4, deve ganhar uma segunda peça no próximo leilão. A agência abriu em setembro a Consulta Pública nº 032/2026 para um certame previsto para 30 de abril de 2027, também na B3, com 12 lotes e R$ 12,9 bilhões em investimentos. Entre eles está o Lote 11, que prevê uma linha de 500 kV de 35 quilômetros entre a Subestação Corumbá 2 e a fronteira boliviana, uma linha de 230 kV de 119 quilômetros entre Anastácio e Imbirussu e uma estação conversora de ±420 MW em Corumbá 2, segundo o Campo Grande News.
Esse lote, porém, ainda não é garantido. A inclusão definitiva depende de a obra constar no Plano de Outorgas e de atender aos requisitos do acordo internacional entre Brasil e Bolívia. Se for confirmado, Mato Grosso do Sul terá, em poucos anos, duas frentes de expansão da rede: a malha de 500 kV contratada nesta sexta e a conexão internacional pelo Pantanal, pela fronteira de Corumbá.
Enquanto isso, o resultado desta sexta coloca data no calendário para um dos principais gargalos da infraestrutura sul-mato-grossense. Se o cronograma for cumprido, as novas linhas de 500 kV devem estar em operação até o fim desta década, abrindo espaço para uma nova leva de usinas e indústrias no Estado.
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Fontes: Aneel (https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/lote-4-do-leilao-de-transmissao-no-4-2026-e-do-a-celeo-redes-brasil-s.a); Campo Grande News (https://www.campograndenews.com.br/economia/leilao-preve-r-4-1-bi-em-obras-para-ampliar-transmissao-de-energia-em-ms, https://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/leilao-de-energia-preve-obras-em-ms-e-reforco-na-conexao-com-a-bolivia e https://www.campograndenews.com.br/brasil/cidades/crescimento-da-geracao-de-energia-em-ms-exige-reforco-nas-linhas-de-transmissao); CNN Brasil (https://www.cnnbrasil.com.br/infra/leilao-celeo-redes-arremata-o-lote-4-de-transmissao-com-desagio-de-5055/ e https://www.cnnbrasil.com.br/infra/leilao-de-transmissao-termina-com-cinco-vencedores-e-contrata-r-89-bi/); BPMoney (https://bpmoney.com.br/economia/aneel-leiloa-oito-lotes-transmissao-energia-89-bilhoes/); Cenário Energia (https://cenarioenergia.com.br/2026/10/30/leilao-de-transmissao-cymi-e-celeo-vencem-lotes-3-e-4-com-desagios-acima-de-50/).
