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Empreenda MS > Empreendedorismo > Do pequi à ficha técnica: festival em Costa Rica vira laboratório de negócios para 40 empreendedores
Empreendedorismo

Do pequi à ficha técnica: festival em Costa Rica vira laboratório de negócios para 40 empreendedores

Empreenda MS Publicado em 15/09/2026 2 visualizações
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13 minutos de leitura
Grupo de pessoas reunidas em torno de uma barraca de comida em feira ao ar livre
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Segunda edição do concurso gastronômico reuniu cerca de 40 empreendedores no Parque Ecológico Municipal, com consultorias individuais de precificação e ficha técnica; prato vencedor foi um cachorro-quente de costela desfiada com vinagrete de banana-da-terra

Um cachorro-quente preparado com costela desfiada e vinagrete de banana-da-terra venceu o concurso gastronômico do Festival Gastronômico de Costa Rica, realizado nos dias 11 e 12 de setembro no Parque Ecológico Municipal Vilibaldo Rodrigues Barbosa. A receita, apresentada pela empreendedora Cacilda Domingues Bueno, resume a lógica do evento: transformar sabor regional em produto vendável. A programação reuniu cerca de 40 empreendedores locais e foi realizada pela Prefeitura Municipal de Costa Rica, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e da Sala do Empreendedor, em parceria com a Associação dos Afrodescendentes (Afro Rica) e com apoio técnico do Sebrae/MS.

O município do norte de Mato Grosso do Sul integra o programa Cidade Empreendedora, executado pelo Sebrae/MS com apoio do Governo do Estado e da gestão municipal. O concurso gastronômico, já em sua segunda edição, desafiou os participantes a criarem pratos utilizando ingredientes regionais. As receitas foram avaliadas por uma comissão, e os cinco primeiros colocados receberam troféus e medalhas. Os três primeiros também foram contemplados com premiação em dinheiro: R$ 1,5 mil para o primeiro lugar, R$ 1 mil para o segundo e R$ 500 para o terceiro.

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Consultoria antes da panela

O elemento que diferencia o festival de uma feira gastronômica convencional está no que aconteceu antes do evento. Vinte empreendedores participaram de atendimentos individualizados com o chef Paulo Vasconcelos. Cada participante recebeu duas horas de consultoria para desenvolver ou aprimorar o prato apresentado, trabalhando aspectos como combinação de ingredientes, apresentação, ficha técnica, precificação, redução de desperdícios, marketing e comercialização.

Para o chef, a proposta foi ampliar o olhar dos empreendedores sobre a gastronomia como atividade de negócio. “Neste ano, trabalhamos não apenas a criação dos pratos, mas também conhecimentos como precificação, fichas técnicas, redução de desperdícios e marketing, mostrando aos participantes que sabor, identidade, custo, apresentação e divulgação precisam caminhar juntos. A proposta é transformar receitas em produtos viáveis e lucrativos, fortalecendo os pequenos produtores e feirantes e criando novas oportunidades para a gastronomia local”, explicou.

A escolha dos temas não é trivial para quem vive de alimentação. Ficha técnica e precificação são exatamente os pontos em que pequenos negócios do setor costumam sangrar margem sem perceber: sem custo unitário calculado por porção, o empreendedor precifica por comparação com o concorrente e descobre o prejuízo apenas no fim do mês. Redução de desperdício, por sua vez, atua sobre a variável de custo mais volátil do segmento — o insumo perecível.

O olhar do Sebrae sobre a identidade local

Segundo a gerente Regional Norte do Sebrae/MS, Luzicarla Softov, o atendimento individualizado permite trabalhar as necessidades específicas de cada negócio e, ao mesmo tempo, valorizar a identidade local. “A consultoria individualizada permite olhar para a realidade de cada empresa, aprimorar os produtos e apresentar aos empreendedores novas possibilidades de criação, apresentação e comercialização. Além de fortalecer os negócios, iniciativas como essa valorizam os ingredientes, os saberes e a identidade gastronômica de Costa Rica”, destacou.

A combinação entre consultoria técnica e valorização de ingrediente regional tem se repetido nas ações do Sebrae/MS pelo interior do Estado, e a lista de premiados no concurso mostra o resultado na prática. Rosimar Cristina de Souza ficou em segundo lugar com uma cafta acompanhada de molho de pequi. Yara Angélica Neckel conquistou a terceira colocação com crepe francês de carne seca e requeijão de pequi com cebola na conserva. Maria José Alves de Amorim ficou em quarto com macarrão pantaneiro, e Elielson Barbosa Ramos, em quinto, com tacacá pantaneiro.

Pequi, carne seca, banana-da-terra, costela: os ingredientes que aparecem nas receitas premiadas não são exóticos para a região — são o que já existe na despensa local. O trabalho de consultoria opera sobre essa matéria-prima buscando o que, no vocabulário de desenvolvimento territorial, se chama diferenciação por origem: converter aquilo que é comum em um lugar em atributo de valor fora dele.

O que os empreendedores levaram para casa

Os relatos dos participantes ajudam a medir o alcance da consultoria. A vencedora Cacilda Domingues Bueno destacou o papel do apoio técnico no resultado. “A emoção foi demais. Quero agradecer muito ao Sebrae, que nos ajuda incondicionalmente e sempre proporciona conhecimentos e estruturas maravilhosas. Estou muito feliz. O Sebrae é muito importante para nós, porque contribui para o nosso crescimento e nos ajuda a criar receitas para incrementar nossos produtos. A receita de costela foi um sucesso. Todo mundo que experimenta fica encantado com o sabor, e os pães acabaram todos nos dois dias”, afirmou.

A terceira colocada, Yara Angélica Neckel, foi específica sobre o conteúdo técnico. “O atendimento com o chef Paulo foi maravilhoso. Testamos várias combinações de sabores até chegar ao crepe apresentado no festival. Aprendi sobre ficha técnica e precificação, além de receber dicas para o meu negócio e sugestões de alterações no cardápio que vieram para agregar. Estou muito satisfeita e grata pela consultoria”, contou.

Vanessa Raquel de Oliveira Souza relatou um efeito que extrapolou o evento: continuou testando a receita depois do festival. “A mentoria foi de grande aprendizagem e com ideias para novas possibilidades. Eu jamais imaginaria fazer um crepe doce de leite Ninho com guerova, mas a combinação ficou muito boa. Continuei fazendo para minha família e todos aprovaram, inclusive meu filho, que experimentou a fruta pela primeira vez. Já estou divulgando o prato para as pessoas próximas”, contou. O uso da guavira — fruta símbolo do Cerrado sul-mato-grossense — em uma sobremesa de consumo popular ilustra bem o tipo de reposicionamento que o programa busca.

Rosimar Cristina de Souza, segunda colocada e integrante da equipe da Cristina Salgaderias, reforçou a avaliação: “Agradeço ao Sebrae pela parceria com Costa Rica e com as micro e pequenas empresas. A mentoria com o chef Paulo foi muito importante. Ele trouxe uma ideia excelente para cada prato e ajudou a valorizar ainda mais as nossas receitas. Foi uma experiência muito boa”, disse. Neuza Amorim Malaquias avaliou no mesmo sentido: “Tivemos um excelente atendimento pelo Sebrae com o chef Paulo. Foram criações excelentes e aprendemos muito. O Sebrae mantém uma parceria importante com Costa Rica, e gostamos muito do trabalho do chef Paulo, que é muito criativo e nos auxiliou bastante”.

Poder público como articulador

O prefeito de Costa Rica, Cleverson Alves dos Santos, destacou a importância do festival para o município, tanto como opção de lazer para as famílias quanto como oportunidade de geração de renda para os empreendedores locais. Segundo ele, a iniciativa tem potencial para entrar no calendário de tradições da cidade e reforça a proposta de estimular o empreendedorismo em todas as ações da administração municipal.

“É um evento importante, que certamente vai ficar na tradição de Costa Rica. Ao mesmo tempo em que muitas pessoas estão se divertindo, outras estão trabalhando e garantindo o pão de cada dia. Por isso, agradecemos ao Sebrae e às demais entidades parceiras por ajudarem a transformar esse evento em uma oportunidade de empreendedorismo. Temos buscado fazer de Costa Rica uma cidade cada vez mais empreendedora”, salientou.

O vice-prefeito em exercício, Ronivaldo Garcia Cota, avaliou a evolução do festival e seu peso para a economia local. “É um evento que já nasceu com uma régua muito alta e que, a cada ano, mantém esse nível e busca crescer ainda mais. É uma oportunidade para os empreendedores da gastronomia mostrarem seu trabalho, aprimorarem seus conhecimentos e oferecerem produtos de qualidade à população. Além de aquecer a economia e fomentar o empreendedorismo, o festival proporciona um espaço de convivência para as famílias e para toda a comunidade de Costa Rica”, afirmou.

Cidade Empreendedora: da adesão à Excelência

O festival não é um evento isolado. Costa Rica participa do Cidade Empreendedora desde 2021. O município passou pelo ciclo de Expansão, acompanhado entre 2023 e julho de 2024, e atualmente integra o pacote Excelência — considerado o mais completo e de maior duração entre as três opções do programa, com acompanhamento previsto até 2028.

O pacote reúne ações em oito eixos e busca apoiar a gestão pública, melhorar o ambiente de negócios, estimular o empreendedorismo e promover o desenvolvimento econômico a partir das características, vocações e identidade de cada município. Essa última cláusula é a que explica por que, em Costa Rica, o desenho acabou levando a um festival gastronômico, e não a uma rodada de negócios industrial: o programa parte do ativo que a cidade já tem.

A trajetória do município — adesão em 2021, Expansão até 2024, Excelência até 2028 — também aponta para algo que costuma faltar em políticas de desenvolvimento local: continuidade. Programas de fomento ao empreendedorismo raramente produzem resultado mensurável em um ciclo eleitoral. Manter o mesmo arranjo por sete anos permite acompanhar indicadores como formalização de MEIs, sobrevivência de negócios e arrecadação municipal ao longo de um horizonte que faz sentido estatístico.

Próximos passos

Com a segunda edição concluída e a intenção declarada da administração municipal de incorporar o festival ao calendário oficial, o desafio seguinte é de escala e de continuidade comercial. Eventos de dois dias geram pico de faturamento, mas o retorno estrutural depende de os pratos desenvolvidos permanecerem nos cardápios — algo que o relato de Vanessa Raquel, ainda testando a receita em casa, e o de Yara Angélica, que alterou o cardápio do próprio negócio, sugerem estar acontecendo.

O acompanhamento do Sebrae/MS até 2028 dentro do pacote Excelência dá margem para que as próximas edições incorporem métricas mais duras: volume de vendas no evento, número de negócios formalizados a partir da participação e permanência dos produtos desenvolvidos na oferta permanente da cidade. Para o ecossistema de empreendedorismo de Mato Grosso do Sul, é nesse tipo de dado — e não no prato vencedor — que se mede se o festival virou política pública ou permaneceu como evento.

Fontes

Agência Sebrae de Notícias MS — Festival Gastronômico reúne empreendedores e valoriza sabores regionais em Costa Rica (14/09/2026)

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