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Tecnologia

Elétrico zero-quilômetro vira concorrente do seminovo e obriga garagens de MS a rever avaliações

Empreenda MS Publicado em 10/09/2026 102 visualizações
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12 minutos de leitura
Carro elétrico preto sendo carregado em estação de recarga na rua
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Emplacamentos de veículos elétricos crescem 144,4% no Estado enquanto modelos a combustão recuam; com carros novos a partir de R$ 119,9 mil, a régua de comparação do consumidor mudou

O avanço dos veículos elétricos em Mato Grosso do Sul deixou de ser uma curiosidade estatística e passou a alterar de forma concreta a dinâmica do mercado de seminovos. Dados do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito) mostram que, entre janeiro e agosto de 2025 e o mesmo período de 2026, os emplacamentos de elétricos no Estado saltaram de 408 para 997 unidades — crescimento de 144,4%. No mesmo intervalo, os veículos movidos a gasolina, etanol, diesel, GNV ou equipados com motor flex recuaram de 37.250 para 36.955 unidades, queda de 0,8%. O mercado geral de veículos novos, somadas todas as categorias, cresceu 3,4%, de 42.677 para 44.139 registros.

Os números, publicados nesta quinta-feira (10) pelo Campo Grande News, revelam um movimento que lojistas de seminovos da Capital já sentem no balcão: modelos elétricos zero-quilômetro passaram a ocupar faixas de preço tradicionalmente dominadas por carros usados a combustão, e o consumidor começou a refazer a conta.

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A régua de comparação mudou

Para o especialista em carros Paulo Cruz, a proximidade entre os preços é o gatilho central. “Em vez de a pessoa comprar um seminovo de R$ 150 mil, 180 mil, ela passa para um chinês eletrificado zero. O mercado mudou drasticamente, virou de cabeça para baixo. Quando a pessoa começa a fazer a conta do que ela gasta com um elétrico ou um híbrido, ela começa a repensar que carro ela vai ter na garagem”, destacou.

A comparação de valores explica o fenômeno. Um Jeep Commander Overland 2024, que custava cerca de R$ 290 mil quando novo, hoje é encontrado na faixa de R$ 180 mil. Um Corolla Cross XRX Hybrid 2024, lançado por aproximadamente R$ 208 mil, aparece por cerca de R$ 165 mil. Nessa mesma faixa, o consumidor encontra eletrificados novos: o Haval H6 HEV One, híbrido, sai por R$ 199.900; o Leapmotor C10, elétrico ou híbrido com extensor de autonomia, aparece em ofertas próximas de R$ 200 mil; e o Geely EX5, totalmente elétrico, é oferecido por R$ 195.800.

O padrão se repete em faixas mais baixas. Um Volkswagen T-Cross Highline 2024, que custava cerca de R$ 170 mil zero-quilômetro, hoje vale aproximadamente R$ 131 mil. Um Chevrolet Tracker Premier 2024, vendido por cerca de R$ 162 mil quando novo, tem valor atual próximo de R$ 115 mil. O Volkswagen Nivus Highline 2024, de aproximadamente R$ 152 mil, hoje está perto de R$ 115 mil. Do outro lado, o BYD Dolphin Mini custa R$ 119.990, o Geely EX2 Pro sai por R$ 123.800, o EX2 Max por R$ 136.800 e o BYD Dolphin GS, maior e mais potente, fica na faixa de R$ 150 mil.

O resultado é um encontro de mercados que antes não se cruzavam: quem tinha R$ 130 mil para gastar escolhia entre seminovos de determinado porte; hoje, o mesmo valor compra um carro novo, com garantia de fábrica, tecnologia embarcada mais recente e custo operacional substancialmente menor.

Impacto ainda parcial, mas já visível

Cruz pondera que o efeito direto sobre os seminovos permanece em fase inicial, porque a oferta de eletrificados usados ainda é pequena. “Os carros elétricos ainda não chegaram com força no mercado de seminovos. Os eletrificados estão chegando agora no mercado de seminovos, ele tem pouco tempo de vida no Brasil. Quem compra esse carro, praticamente não quer vender. Os carros mais populares eletrificados ainda não impactaram o mercado de seminovos”, explicou.

A pressão, portanto, não vem do elétrico usado — vem do elétrico novo. “O que está impactando o mercado de seminovos hoje não são os eletrificados usados, são os eletrificados novos, elétricos ou híbridos, que estão custando o mesmo que o seminovo, que é um carro usado”, resumiu o especialista.

Nas garagens da Capital, a percepção é de reposicionamento em curso. O gerente da Revolução Automóveis, Jean Ribeiro, afirmou que a procura pelos eletrificados existe, mas que o impacto mais forte sobre os usados deve aparecer no próximo ano. “Até o momento não chegou para a gente, inclusive tem procura nesse carro. O que eu vejo é um reposicionamento de mercado. Os carros que tinha um preço um pouquinho maior estão sendo substituído pelos elétricos, isso vai influenciar nos seminovos daqui um ano”, disse.

Ribeiro identificou também um movimento novo no fluxo de entrada das lojas: proprietários de veículos a combustão tentando vender para financiar a migração. “O que vemos é gente vender seu carro a combustão para conseguir comprar carro elétrico. Quando entrega esse carro na concessionária, o cliente não tem gostado da avaliação, e tentam vender em alguma garagem ou de forma particular. O mercado já está se acomodando”, pontuou.

Risco de estoque parado

Na Federal Car, a proprietária Bruna Soares confirmou a mudança de comportamento e apontou o efeito prático mais delicado para quem opera no setor: o risco de comprar caro e não conseguir revender.

“Essa categoria já chegou aos seminovos e a gente percebe claramente um reposicionamento do mercado. Hoje já recebemos clientes vendendo seus carros a combustão para migrar para um elétrico ou eletrificado. Muitas vezes eles procuram a loja de seminovos porque as concessionárias estão avaliando o carro usado por um valor muito baixo na troca e eles tentam conseguir uma avaliação melhor fora”, explicou.

A consequência é uma revisão dos critérios de compra. “Nós também precisamos ter cautela na avaliação, porque depois esse carro precisa ser vendido. Com essa mudança no comportamento do consumidor, principalmente nos carros de maior valor, existe o risco de ficarmos com esse veículo parado no estoque”, afirmou.

Segundo Bruna, o ponto de inflexão fica em torno de R$ 130 mil. A partir desse patamar, o consumidor já encontra alternativas eletrificadas novas. “Nós mesmos já temos eletrificados e veículos zero-quilômetro disponíveis para venda. Então, mudou a régua de comparação. Quem vai investir R$ 130 mil ou mais já começa a colocar na conta: compro um seminovo a combustão ou parto para um eletrificado, muitas vezes zero-quilômetro? Isso está impactando diretamente a procura e, consequentemente, o valor que o mercado consegue pagar em determinados carros a combustão”, ressaltou.

Um setor tradicional diante de uma transição tecnológica

O caso é ilustrativo de como transições tecnológicas atingem cadeias inteiras de negócios locais antes de se tornarem visíveis nos números agregados. O mercado de seminovos é composto majoritariamente por pequenas e médias empresas familiares, com capital de giro apertado, que operam com margens estreitas e alta rotatividade de estoque. Uma mudança na curva de depreciação de determinada categoria de veículos pode comprometer o resultado do exercício inteiro.

O ajuste que essas empresas estão sendo obrigadas a fazer envolve competências que nem sempre estavam no repertório do setor: leitura de tendência de mercado, precificação dinâmica baseada em dados, gestão de risco de estoque e, cada vez mais, conhecimento técnico sobre baterias, garantias de fábrica específicas para eletrificados e vida útil de componentes que não existiam nos carros a combustão.

Do lado da infraestrutura, Mato Grosso do Sul aparece em posição relativamente confortável. Levantamento divulgado em junho apontou o Estado como o 5º do País em equilíbrio entre a frota de carros elétricos e a disponibilidade de pontos de recarga — indicador que reduz uma das principais objeções à compra desse tipo de veículo. Naquele mês, MS já contava com 7,3 mil carros elétricos circulando, após alta de 67,8% nas vendas.

Há aqui uma oportunidade pouco explorada pelo ecossistema de negócios do Estado. A eletrificação da frota abre espaço para serviços que praticamente não existiam há cinco anos: diagnóstico e recondicionamento de baterias, oficinas especializadas em alta tensão, instalação residencial e condominial de carregadores, gestão de redes de recarga e plataformas de avaliação de veículos eletrificados usados. São nichos de entrada relativamente acessível para pequenos negócios e startups, e que hoje dependem majoritariamente de fornecedores de fora de MS.

O que observar daqui em diante

Três variáveis devem determinar o ritmo dessa transição no Estado nos próximos meses. A primeira é a política tarifária federal para veículos importados, que define diretamente o preço dos modelos chineses que hoje puxam a competição. A segunda é a expansão da rede de recarga fora de Campo Grande — enquanto o abastecimento elétrico for confortável apenas na Capital, a adoção em cidades do interior e para viagens de longa distância seguirá limitada.

A terceira é a formação de um mercado secundário de eletrificados. Quando os primeiros lotes de elétricos vendidos em 2023 e 2024 começarem a chegar às garagens em volume, o setor terá de precificar depreciação de bateria, algo para o qual ainda não há série histórica consolidada no Brasil. É nesse momento que o impacto sobre o mercado de usados deixará de ser indireto — como é hoje — e passará a se dar dentro da própria categoria.

Para os lojistas de MS, a orientação prática que emerge dos relatos é conservadora: reduzir exposição em veículos a combustão de ticket alto, girar estoque mais rápido e começar a incorporar eletrificados ao mix. O mercado, como disse um dos entrevistados, ainda está se acomodando — e quem estiver posicionado quando ele parar de se mexer terá vantagem.

Fontes:
Campo Grande News — “Elétricos mudam a régua de preços e pressionam mercado de seminovos em MS” (10/09/2026): link
Campo Grande News — “Vendas crescem 67,8% e MS já tem 7,3 mil carros elétricos circulando” (28/06/2026): link
Campo Grande News — “MS é 5º no País em equilíbrio entre carros elétricos e pontos de recarga” (05/06/2026): link

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