Estado registrou 1.135 ideias inscritas na terceira edição do programa nacional de fomento a negócios de base tecnológica, salto de 363% em relação à edição anterior; resultado final sai em 29 de julho
Mato Grosso do Sul se consolidou como o estado do Centro-Oeste com o maior número de propostas inscritas na terceira edição do Programa Centelha, iniciativa nacional voltada ao estímulo do empreendedorismo inovador. Foram 1.135 ideias registradas até o encerramento das inscrições, em 25 de maio, um crescimento de 363% em relação à edição anterior do programa e um volume que coloca Mato Grosso do Sul à frente de Goiás (1.063), Mato Grosso (813) e Distrito Federal (692). No ranking nacional, o Estado ocupa a segunda posição em número de inscrições, empatado com o Ceará e atrás apenas do Espírito Santo — resultado parcial, já que Paraná e Rio de Janeiro ainda mantinham inscrições abertas no momento da apuração. O resultado final da seleção está previsto para 29 de julho.
A execução estadual do Centelha é conduzida pela Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul), vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), com promoção nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Finep, do CNPq, do Confap e da Fundação CERTI. O programa tem como objetivo transformar ideias inovadoras em empreendimentos sustentáveis e competitivos, oferecendo recursos não reembolsáveis e capacitação para empreendedores em fase inicial.
Para o diretor-presidente da Fundect, Cristiano Carvalho, o resultado é reflexo de um amadurecimento do ecossistema local. “Esse resultado histórico mostra que Mato Grosso do Sul vive um novo momento na inovação. Liderar o Centro-Oeste em número de ideias submetidas ao Programa Centelha demonstra a força do nosso ecossistema, o talento dos nossos empreendedores e o compromisso do Governo do Estado com a ciência, tecnologia e inovação. Mais do que números, estamos falando de oportunidades, geração de conhecimento, desenvolvimento econômico e transformação social em todas as regiões do Estado”, afirmou, em nota divulgada pela Fundect.
Inteligência artificial puxa as inscrições
Entre as áreas temáticas das propostas submetidas, Inteligência Artificial e Machine Learning lideram com 27,8% do total, seguidas por Impacto Socioambiental (19,4%), Tecnologia Social (15%), TI e Telecom (8,6%) e Biotecnologia e Genética (6%). A distribuição indica que boa parte dos empreendedores sul-mato-grossenses está atenta às tendências tecnológicas em discussão no restante do país, ao mesmo tempo em que reserva espaço relevante para propostas voltadas a impacto social e ambiental — um reflexo, segundo a Fundect, das particularidades de um estado com forte vocação agropecuária, ambiental e fronteiriça.
Em termos financeiros, o edital de Mato Grosso do Sul prevê investimento total de R$ 6,5 milhões, com seleção final de cerca de 47 propostas. Cada projeto aprovado poderá receber até R$ 89,6 mil em subvenção econômica, além de R$ 50 mil em bolsas de fomento tecnológico, somados a capacitações, suporte técnico especializado, conexões com o ecossistema de inovação e oportunidades de visibilidade para os empreendedores selecionados.
A lógica do programa é sequencial: depois do encerramento das inscrições, a etapa seguinte é a seleção das 200 melhores ideias apresentadas. Na Fase 2, batizada de Projeto de Fomento, os proponentes selecionados estruturam e detalham suas propostas, transformando ideias ainda embrionárias em planos de negócio mais robustos, prontos para o desenvolvimento tecnológico e mercadológico. O resultado preliminar das ideias classificadas para essa fase foi divulgado em 29 de junho, e o resultado final da seleção, incluindo os projetos que efetivamente receberão os recursos, sai em 29 de julho.
Interiorização: 44 municípios com propostas inscritas
Um dos destaques desta edição do Centelha em Mato Grosso do Sul foi a capilaridade alcançada pelo programa. Pela primeira vez, as inscrições chegaram a 44 municípios sul-mato-grossenses, o equivalente a 56% das cidades do Estado — um salto expressivo em relação a edições anteriores, historicamente concentradas na Capital e em poucos polos regionais.
Segundo o levantamento da Fundect, os municípios com maior número de ideias inscritas foram Campo Grande (589), Ponta Porã (117), Dourados (86), Três Lagoas (43), Naviraí (42), Corumbá (32), Chapadão do Sul (30), Coxim (23), Bonito (19) e Nova Andradina (19). Ainda que a Capital continue concentrando a maior fatia das propostas — o que já era esperado, dada a presença de universidades, do Parque Tecnológico e de Inovação de Campo Grande (Parktec CG) e da maior parte das instituições de apoio ao empreendedorismo —, o número de cidades do interior com pelo menos uma proposta inscrita chama atenção como indicador de disseminação da cultura de inovação para além do eixo metropolitano.
Essa interiorização não ocorreu de forma espontânea. Segundo a Fundect, em 55 dias a equipe da Gerência de Inovação da instituição realizou 40 oficinas em 13 cidades, orientando empreendedores sobre como submeter propostas ao Centelha e tirando dúvidas sobre a metodologia do programa. O trabalho contou com apoio de Sebrae, Senai, Senac, universidades, prefeituras municipais e coordenadores regionais e locais dos ecossistemas de inovação — uma rede de mobilização que, segundo a fundação, foi decisiva para que o Estado batesse recorde de inscrições mesmo fora da Capital.
Parte de um movimento mais amplo
O desempenho do Centelha 3 em Mato Grosso do Sul não é um episódio isolado. Ele se soma a uma série de iniciativas recentes que têm buscado consolidar o Estado como polo de inovação no Centro-Oeste. Em julho, durante a Pantanal TechMS — evento realizado em Aquidauana, no campus da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), que reúne ciência, tecnologia, preservação ambiental e desenvolvimento econômico —, o governo estadual lançou o programa MS Inova Mais Municípios, iniciativa da Semadesc em parceria com o Sebrae/MS que pretende preparar os 79 municípios sul-mato-grossenses para criar ambientes mais favoráveis à inovação, com foco em bioeconomia, sustentabilidade e neutralidade de carbono até 2030.
O ecossistema de startups do Estado também vem se expandindo por outras frentes. De acordo com dados oficiais, Mato Grosso do Sul soma atualmente 580 startups ativas, das quais 258 já receberam algum tipo de apoio do Governo do Estado por meio da Fundect — volume que coloca o Estado na liderança do Centro-Oeste em número de startups ativas. Paralelamente, o Sebrae Living Lab, ambiente dedicado à experimentação e ao desenvolvimento de negócios inovadores, atende hoje 220 startups, e mais de 350 negócios do setor já estão cadastrados na plataforma do Sebrae dedicada ao tema.
Além do Centelha, o Estado conta com outros instrumentos de fomento, como o programa Tecnova, também desenvolvido em parceria com a Finep, voltado a acelerar o crescimento de pequenas e médias empresas por meio de projetos de pesquisa e desenvolvimento. Enquanto o Centelha mira a criação de novos empreendimentos inovadores a partir de ideias ainda em estágio inicial, o Tecnova atua em um momento posterior do ciclo de maturação dos negócios, o que os torna, na prática, complementares dentro da política estadual de inovação.
Internacionalização começa a ganhar corpo
Outra frente que tem ganhado força é a internacionalização das startups sul-mato-grossenses. Com apoio da Fundect, quatro startups e empresas de base tecnológica selecionadas pelo programa Startup Global MS — Agrointeli Tecnologia, Digna Engenharia Social, MGD Consultoria e ENG Soluções Tecnológicas — foram recebidas em Aveiro, Portugal, para um programa de imersão no Parque de Ciência e Inovação (PCI Creative Science Park). Cada uma das empresas participantes recebe bolsa de 14,3 mil euros, parcelada em 11 vezes, além de auxílio-mudança de 1,3 mil euros, recursos bancados pelo Governo do Estado por meio da fundação.
Esse tipo de iniciativa, ainda incipiente, sinaliza uma mudança de patamar na política estadual de inovação: da fase de estímulo à criação de negócios — em que o Centelha desempenha papel central — para uma fase de conexão desses negócios com mercados e ecossistemas internacionais, especialmente relevante para um estado de fronteira como Mato Grosso do Sul, que também investe pesado na Rota Bioceânica como corredor logístico para o Pacífico e a Ásia.
Próximos passos
Com o resultado preliminar da Fase 2 já divulgado e o resultado final marcado para 29 de julho, o próximo mês deve ser decisivo para as cerca de 200 ideias que avançaram no processo seletivo em Mato Grosso do Sul. Os empreendedores selecionados para a etapa final passam a ter acesso à subvenção econômica, às bolsas de fomento tecnológico e ao acompanhamento técnico da Fundect, com o objetivo de transformar projetos ainda no papel em empresas efetivamente constituídas e operando no mercado.
Para o ecossistema de inovação sul-mato-grossense, a expectativa é que o resultado consolide o Centelha como uma das principais portas de entrada para novos empreendedores de base tecnológica no Estado — e que a interiorização observada nesta edição, com propostas vindas de 44 municípios, se traduza em novos polos de inovação para além de Campo Grande nos próximos anos. Segundo a Fundect, os dados também devem orientar o desenho de futuras edições do programa e de políticas complementares, como o MS Inova Mais Municípios, que já nasce com o desafio de aproveitar essa base ampliada de empreendedores identificada pelo Centelha.
Fontes: Fundect – Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (link); Agência Sebrae de Notícias – ASN Mato Grosso do Sul (link); Agência de Notícias do Governo de Mato Grosso do Sul (link).
