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Empreenda MS > Empreendedorismo > Crescer e distribuir: como Mato Grosso do Sul tenta transformar boom econômico em renda para as famílias
Empreendedorismo

Crescer e distribuir: como Mato Grosso do Sul tenta transformar boom econômico em renda para as famílias

Empreenda MS Publicado em 02/07/2026 309 visualizações
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10 minutos de leitura
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Com R$ 105 bilhões em investimentos anunciados e PIB que cresceu 13,4% em 2023, Estado aposta em qualificação profissional e empreendedorismo — sobretudo feminino — para que a expansão da economia chegue ao dia a dia da população

Há dez anos, a empreendedora Marlene Alzira Teixeira Andrade, hoje com 49 anos, fritava salgados numa panela pequena, na cozinha de casa, em Nova Andradina, para complementar a renda da família. Hoje, a Lene Salgados — nome que batizou o negócio — opera com fritadeira industrial, masseira, modeladora e freezers, produzindo cerca de 15 mil salgados por período, incluindo uma linha de produtos gourmet. A trajetória de Lene, contada em levantamento recente do Governo de Mato Grosso do Sul, ilustra um movimento que vem se repetindo em diferentes regiões do Estado: pequenos negócios domésticos que ganham mercado, se profissionalizam e passam a gerar empregos formais — e que ajudam a explicar por que Mato Grosso do Sul vive hoje um dos ciclos de crescimento econômico mais intensos de sua história recente.

Dados divulgados nas últimas semanas pelo Governo do Estado, pelo Sebrae/MS e pela Receita Federal mostram a dimensão desse ciclo. Em 2023, o Produto Interno Bruto (PIB) estadual cresceu 13,4%, um resultado mais de quatro vezes superior à média nacional no período, puxado por agropecuária, indústria e serviços. Atualmente, o Estado reúne mais de R$ 105 bilhões em investimentos privados anunciados, dos quais R$ 81 bilhões já estão consolidados, distribuídos em setores estratégicos como celulose, bioenergia, proteína animal, logística e infraestrutura. O exemplo mais emblemático é o projeto da Arauco em Inocência, uma das maiores fábricas de celulose em construção no Brasil, com aporte previsto de US$ 4,6 bilhões — e que deve começar a operar em 2027.

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Empresas em ritmo recorde

O crescimento também aparece na ponta da formalização de negócios. Entre 2023 e 2025, o número de novas empresas abertas no Estado saltou de 53,1 mil para 69,5 mil, avanço acumulado de 30,8% no período, segundo dados da Receita Federal. Os pequenos negócios respondem por quase 96% dessas aberturas: só em 2025 foram 66,6 mil registros. Em 2026, o ritmo segue forte — até junho, já eram 40,9 mil novas empresas abertas no Estado, sendo 39,7 mil pequenos negócios. Levantamento da Junta Comercial de Mato Grosso do Sul (Jucems) mostrou que abril teve o melhor resultado da série histórica para o mês, com 1.558 novas empresas, lideradas pelo setor de serviços.

Dentro desse universo, o empreendedorismo feminino se destaca como um dos vetores de crescimento mais expressivos. O número de empresas abertas por mulheres passou de 17,8 mil em 2024 para 24,1 mil em 2025, alta de 35,5%. Para a diretora-técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha, o movimento reflete uma mudança de percepção sobre o empreendedorismo entre as mulheres sul-mato-grossenses. “O empreendedorismo feminino tem crescido porque cada vez mais mulheres enxergam nele um caminho concreto para a independência financeira, a realização pessoal e a geração de impacto nas suas comunidades. Esse movimento tem se consolidado como uma força econômica relevante em Mato Grosso do Sul”, afirma.

Os números do Sebrae indicam ainda que esse não é um fenômeno passageiro: entre as empreendedoras atendidas pelo programa Sebrae Delas, 61% têm negócios com mais de três anos de existência, sinal de que as mulheres não apenas abrem empresas, mas conseguem sustentá-las ao longo do tempo. Iniciativas como o Delas Day, que neste ano reuniu mais de 30 instituições parceiras, têm reforçado esse ecossistema de apoio. Segundo Amarilha, o perfil dos negócios também vem mudando: “As mulheres estão chegando com força também em segmentos ligados à inovação, à tecnologia e aos negócios digitais. Mas o que mais chama atenção é que elas não estão preocupadas apenas em abrir uma empresa. Existe uma busca cada vez maior por qualificação, estruturação dos processos, ampliação das vendas e consolidação dos negócios no mercado.”

Crescer não basta: o desafio da distribuição

Para o governador Eduardo Riedel, o desafio do atual ciclo econômico vai além de atrair investimentos. “O crescimento econômico é o ponto de partida, não o ponto de chegada. Nosso compromisso é criar um ambiente que atraia investimentos, gere empregos e fortaleça a economia, mas, ao mesmo tempo, garantir que esse desenvolvimento chegue às pessoas por meio de educação de qualidade, qualificação profissional, infraestrutura, saúde e políticas públicas capazes de ampliar oportunidades”, afirmou.

O economista Michel Constantino, PhD e professor da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), avalia que os resultados de Mato Grosso do Sul ganham relevância justamente por contrastarem com um cenário nacional de desigualdade persistente — o Brasil segue entre os países mais desiguais analisados pela OCDE. Segundo ele, o Estado vem conseguindo combinar crescimento com redução de pobreza: entre 2023 e 2024, cerca de 40 mil pessoas deixaram a linha de pobreza em Mato Grosso do Sul, enquanto o PIB estadual projetado para 2025 aponta alta de 6,86%, ante uma projeção nacional de 2,3%. “Distribuir resultados significa fortalecer o mercado consumidor local, reduzir a dependência de programas assistenciais no longo prazo e garantir que o ciclo de prosperidade seja mais duradouro e menos vulnerável a crises externas”, afirma o economista.

Dados do IBGE citados no levantamento reforçam esse quadro: a proporção de pessoas em situação de extrema pobreza no Estado caiu de 2,7% para 1,6% em dois anos, redução superior a 40%. Já no pilar Capital Humano do Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), Mato Grosso do Sul alcançou em 2025 a segunda posição nacional, resultado associado a políticas como o programa MS Qualifica, que já soma mais de 500 mil qualificações profissionais oferecidas à população.

O papel do poder público e a conexão com a Rota Bioceânica

Segundo Constantino, o desempenho recente do Estado também está ligado à capacidade de investimento público: Mato Grosso do Sul tem hoje a maior taxa de investimento público do país, equivalente a 15,3% da Receita Corrente Líquida. “O poder público atua na criação de um ambiente de negócios favorável, evidenciado pela alta taxa de novos negócios (55,4% em 2025) e pela agilidade na abertura de empresas, que fomenta o empreendedorismo local. O papel estatal, portanto, é o de construir a ponte entre o grande capital investidor e o pequeno empreendedor ou trabalhador local, garantindo que a riqueza circule dentro do Estado”, avalia.

Parte dessas perspectivas de crescimento futuro está diretamente associada à Rota Bioceânica, o corredor logístico que vai conectar Mato Grosso do Sul aos portos do Pacífico via Paraguai, Argentina e Chile — e cuja ponte principal, em Porto Murtinho, está com entrega prevista para os próximos dias. Ao reduzir tempo e custo de transporte até mercados asiáticos, a rota deve ampliar a inserção do Estado em cadeias globais de valor e reforçar sua posição como plataforma logística da América do Sul, consolidando um efeito que já vem sendo sentido na atração de investimentos privados.

O que vem a seguir

Com o orçamento estadual para 2027 já em tramitação na Assembleia Legislativa — projeção de R$ 28,8 bilhões, segundo dados do Legislativo estadual —, o desafio anunciado pelo próprio governo é sustentar simultaneamente dois movimentos: manter o ritmo de atração de grandes investimentos, como o da Arauco e os ligados à Rota Bioceânica, e ampliar políticas de qualificação e apoio ao pequeno empreendedor, caminho que histórias como a de Lene Salgados ajudam a tornar tangível. Para especialistas como Michel Constantino, é essa combinação — e não o crescimento do PIB isoladamente — que vai determinar se Mato Grosso do Sul consegue transformar o atual ciclo econômico em desenvolvimento de fato duradouro.

Fontes: Agência de Notícias do Governo de Mato Grosso do Sul e A Crítica de Campo Grande

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