Termômetro do Varejo, da FCDL-MS, mostra saldo de R$ 40,8 bilhões em financiamentos às empresas do Estado, mas inadimplência acima da média do país acende sinal amarelo para o segundo semestre
O saldo de crédito destinado a empresas de Mato Grosso do Sul cresceu 11,3% em maio de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, somando R$ 40,8 bilhões em empréstimos e financiamentos em aberto no Estado. O ritmo de expansão é mais que o dobro da média nacional, de 6,8%, segundo a edição comemorativa de três anos do Termômetro do Varejo, divulgada nesta quinta-feira (23) pela Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul (FCDL-MS). O levantamento cruza dados do Banco Central, do IBGE, do Caged e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e chega em um momento de expansão empresarial acelerada no Estado, mas também de cautela redobrada por parte de quem financia esse crescimento.
Além do crédito empresarial, o Termômetro do Varejo mapeou o crédito às famílias, que somou R$ 102,6 bilhões em MS, com alta de 5,9% em 12 meses — abaixo, portanto, do ritmo observado entre as empresas. O contraste entre os dois números ajuda a explicar um dos movimentos mais visíveis da economia sul-mato-grossense em 2026: o de empresas — sobretudo indústria e comércio — recorrendo com mais intensidade ao crédito para sustentar planos de expansão, num cenário em que o Estado tem atraído volume recorde de investimentos privados em setores como celulose, proteína animal e logística.
Inadimplência acima da média nacional
Nem tudo, porém, são boas notícias no retrato traçado pela FCDL-MS. Entre as empresas sul-mato-grossenses, 4,5% do saldo das operações de crédito estava com atraso superior a 90 dias em maio, acima da média nacional, de 3,2%. Entre as pessoas físicas, a taxa de inadimplência foi ainda mais alta: 7,2% em MS, contra 5,6% no Brasil como um todo. Ou seja, embora o crédito esteja mais disponível e mais barato relativamente no Estado, uma fatia maior dos tomadores — pessoas e empresas — está enfrentando dificuldade para honrar os pagamentos em dia, um desequilíbrio que os próprios organizadores do estudo classificam como ponto de atenção.
A leitura dos números foi feita pela presidente da FCDL-MS, Inês Santiago, para quem os indicadores mostram um comportamento desigual entre os setores da economia estadual. “O comércio ampliado e a indústria apresentam crescimento, enquanto a prestação de serviços permanece praticamente parada”, afirmou. Para o segundo semestre, ela lista riscos que devem ser monitorados de perto pelo empresariado local: “há pontos de atenção que merecem ser acompanhados de perto, como o impacto do debate eleitoral sobre a economia, as novas tarifas impostas às exportações brasileiras e o fenômeno climático El Niño”.
A menção às tarifas não é gratuita: o Termômetro do Varejo chega dias depois de o setor produtivo sul-mato-grossense começar a mapear os efeitos do tarifaço americano sobre as exportações do Estado, e horas depois de a Confederação Nacional da Indústria (CNI) sinalizar queda de 42,5% na exportação de bens afetados pela nova tarifa imposta pelo México a produtos brasileiros — um lembrete de que a pauta exportadora de MS, ainda que robusta, está exposta a decisões de política comercial fora do controle local.
Indústria puxa a atividade; serviços travam
Os números de atividade econômica reforçam o diagnóstico da presidente da FCDL-MS. Enquanto a indústria de Mato Grosso do Sul cresceu 5,3% no período analisado — ante 1,4% no Brasil —, o volume de serviços no Estado recuou 0,2%, na contramão da alta de 1,9% observada nacionalmente. É um descolamento que ecoa outro dado divulgado nos últimos dias: estudo do Santander apontou que a indústria assumiu o posto de principal motor de crescimento de MS, superando o agronegócio, tradicionalmente o carro-chefe da economia estadual.
No varejo, o desempenho também veio acima da média nacional: o varejo ampliado do Estado acumula alta de 5% no ano, contra 1,3% no país, enquanto o comércio varejista tradicional cresce 2,3% em MS ante 1,7% no Brasil. Já as exportações do Estado somaram US$ 5,9 bilhões no primeiro semestre, avanço de 10,5%, com a China respondendo por 50,2% do total embarcado e os Estados Unidos por 6,3% — participação que ganha relevância justamente no momento em que o comércio exterior brasileiro discute os efeitos de novas barreiras tarifárias impostas por parceiros comerciais.
Emprego cresce, mas comércio perde vagas
O mercado de trabalho sul-mato-grossense seguiu em expansão em maio, com saldo de 1.779 vagas criadas no mês e acúmulo de 16,2 mil postos no ano em todo o Estado. Campo Grande respondeu por 517 vagas no mês e 3.169 no acumulado anual. O detalhe que chama atenção, porém, é setorial: o comércio fechou maio com saldo negativo tanto no Estado (-778 vagas, com 41.500 admissões e 42.278 desligamentos) quanto na Capital (-919 vagas, com 16.767 admissões e 17.686 desligamentos), um recuo que contrasta com o crescimento do crédito destinado ao próprio setor e sugere um comércio que se capitaliza para investir, mas ainda enxuga postos de trabalho em um cenário de reorganização.
A inflação em Campo Grande, por sua vez, acumula 4,4% em 12 meses pelo IPCA, com destaque para os grupos saúde e cuidados pessoais e transportes, ambos com alta de 5,4% no período, enquanto alimentação e bebidas subiu 2,7%. O IGP-M acumulado em 12 meses ficou em 3,2%.
Setor de alimentação: eficiência como resposta
A edição comemorativa do Termômetro do Varejo trouxe ainda a seção “Fala do Especialista”, com a avaliação de empresários sobre o momento do consumo na Capital. Os sócios-proprietários do Coco Bambu Campo Grande, Claudio Monteiro Filho e Luiz Felipe Cysne, descreveram um setor de alimentação que segue enfrentando um ambiente desafiador, marcado pela alta de custos, inflação de insumos, mudança no comportamento do consumidor e concorrência acirrada. “O cenário exige cada vez mais eficiência na gestão e capacidade de adaptação. Os restaurantes precisam investir continuamente em qualidade, atendimento e inovação. Nesse contexto, um varejo forte em Campo Grande é fundamental, porque movimenta a economia local, gera empregos, fortalece a cadeia de fornecedores e atrai consumidores, criando condições favoráveis para o crescimento do comércio e dos serviços”, afirmaram.
Para os empresários, a expectativa para os próximos meses é de uma movimentação maior no mercado, impulsionada por datas comemorativas, eventos e pela recuperação gradual da confiança do consumidor — desde que as empresas consigam equilibrar controle de custos, boa experiência de atendimento e uso de soluções digitais. “Acreditamos que Campo Grande continuará apresentando potencial para a expansão do varejo e da gastronomia. Para isso, o setor precisa permanecer unido na busca por inovação, qualificação e fortalecimento da economia local”, completaram.
O que vem pela frente
O conjunto de indicadores do Termômetro do Varejo desenha um cenário de crescimento real, mas desigual, na economia sul-mato-grossense: crédito mais abundante e mais barato relativamente à média do país, indústria e comércio ampliado em expansão acima da média nacional, e exportações em alta — ao lado de inadimplência mais elevada, perda de vagas no comércio e um setor de serviços praticamente estagnado. Para o segundo semestre, a própria FCDL-MS já sinaliza que o desempenho dependerá de fatores externos ao controle direto do empresariado local, do desfecho do debate eleitoral às novas tarifas ao comércio exterior brasileiro e aos efeitos do El Niño sobre safras e logística. A entidade deve voltar a publicar indicadores mensais nos próximos meses, o que permitirá acompanhar se o ritmo de expansão do crédito segue se traduzindo em geração de emprego e redução da inadimplência, ou se o descompasso atual entre financiamento fácil e capacidade de pagamento se aprofunda.
Fontes: Perfil News — Termômetro do Varejo: Crédito empresarial cresce 11,3% em Mato Grosso do Sul e supera média nacional; Perfil News — CNI sinaliza queda de 42,5% em exportação de bens afetados por nova tarifa mexicana.
