Estudo exclusivo projeta expansão média de 4,5% ao ano para o setor industrial até 2027, sustentada pela consolidação do Vale da Celulose, enquanto o agro perde ritmo após ciclo de supersafras
Depois de anos em que o agronegócio foi o principal responsável pelo crescimento da economia sul-mato-grossense, a indústria começa a assumir o protagonismo na trajetória econômica de Mato Grosso do Sul. É o que aponta um estudo do Departamento Econômico do Santander, obtido com exclusividade pelo Correio do Estado, que projeta expansão média anual de 4,5% para o setor industrial entre 2025 e 2027 — desempenho que deverá sustentar a atividade econômica do Estado após o ciclo excepcional das supersafras de soja e milho dos últimos anos.
O levantamento estima que, depois de o Produto Interno Bruto (PIB) de Mato Grosso do Sul crescer 7% em 2025, a economia estadual continuará avançando, embora em ritmo mais moderado, com altas de 1,3% em 2026 e 1,7% em 2027 — reflexo da elevada base de comparação deixada pelo desempenho recorde do agronegócio nos anos anteriores. O estudo reúne dados do PIB regional do IBGE até 2023 e projeções do banco para o período de 2024 a 2027.
Vale da Celulose muda o perfil da economia estadual
A mudança no perfil do crescimento coincide com a consolidação do chamado Vale da Celulose, região que concentra alguns dos maiores investimentos privados do país. A fábrica da Suzano, inaugurada em Ribas do Rio Pardo, já opera em plena capacidade, enquanto a chilena Arauco constrói uma nova planta em Inocência e a Bracell prepara seu projeto industrial na região de Bataguassu e Água Clara. Juntos, os empreendimentos ampliam significativamente a participação da indústria de transformação na economia estadual e reduzem a dependência exclusiva do desempenho das safras agrícolas — um movimento que, segundo o estudo, tende a se aprofundar nos próximos anos.
Ainda de acordo com o levantamento, o dinamismo da indústria deverá compensar a desaceleração natural da agropecuária após o desempenho extraordinário registrado nos últimos anos. O relatório do Santander destaca que a indústria tende a manter crescimento moderado na maior parte das regiões brasileiras e ressalta que o Centro-Oeste continuará entre os destaques nacionais, favorecido tanto pelo agronegócio quanto pelos novos investimentos industriais.
“Centro-Oeste foi a região com desempenho mais expressivo”, diz economista
O economista do Santander e um dos autores do estudo, Henrique Danyi, afirma que o Centro-Oeste foi a região brasileira com desempenho mais expressivo nos últimos anos, impulsionado pelas safras recordes e pelos efeitos da agropecuária sobre os demais setores da economia. “O Centro-Oeste foi a região brasileira com desempenho mais excepcional nos últimos anos, impulsionado por safras recordes e pelos impactos da agropecuária sobre os demais setores”, afirma Danyi.
Segundo ele, Mato Grosso do Sul responde por 15,3% do PIB do Centro-Oeste, conforme os dados mais recentes do IBGE, referentes a 2023. Ainda de acordo com o estudo, a região deverá crescer 4,8% em 2025, 2,3% neste ano e 1,9% em 2027, mantendo desempenho acima da média nacional em razão do ciclo das commodities — mesmo com a desaceleração prevista para o biênio seguinte.
Agropecuária perde intensidade, mas segue como pilar
Embora permaneça como um dos pilares da economia estadual, a agropecuária deverá perder intensidade nos próximos anos, segundo o levantamento. O PIB do setor registrou desempenho excepcional em 2023, com crescimento de 55,3%, impulsionado pela supersafra histórica de grãos, mas recuou 10% em 2024. Para 2025, a expectativa era de nova expansão, desta vez de 18%, novamente apoiada pela elevada produção de soja e milho. Já para este ano, a projeção é de retração de 3,7%, consequência da elevada base de comparação, seguida de recuperação discreta de 0,5% em 2027.
O Santander destaca que um dos principais riscos para esse cenário é a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño, que poderá alterar os padrões de chuva e temperatura, afetando a produtividade das próximas safras. Se o agronegócio tende a desacelerar, a indústria deverá ganhar espaço como principal vetor de crescimento: o estudo aponta que o setor crescerá, em média, 4,5% ao ano entre 2025 e 2027, ritmo superior ao dos demais segmentos da economia estadual.
Indústria de transformação ganha tração
Segundo o relatório, as safras recordes dos últimos anos contribuíram para fortalecer a indústria das regiões produtoras, mas a perspectiva para os próximos anos passa a ser sustentada também pelo aumento da demanda e pela expansão da capacidade produtiva instalada. O documento observa que “a indústria de transformação apresentou desempenho irregular nos últimos anos, enquanto o setor extrativo tem se destacado”. Ainda assim, avalia que “a perspectiva para 2026 é favorável, com impulso na demanda, apesar da política monetária restritiva, com o mercado de trabalho ainda resiliente”. Nesse contexto, o estudo aponta que Norte, Nordeste e Centro-Oeste tendem a registrar os melhores desempenhos industriais do país nos próximos anos.
No caso específico de Mato Grosso do Sul, esse movimento encontra respaldo direto na expansão do parque industrial de base florestal. Além das novas fábricas de celulose e de etanol, o Estado tem atraído empresas fornecedoras, investimentos em logística, energia e serviços, consolidando uma cadeia produtiva que deverá ampliar sua participação no PIB estadual nos próximos anos — um movimento que já aparece refletido nos números recordes de exportações industriais registrados no primeiro semestre deste ano.
Serviços acompanham em ritmo mais lento
O setor de serviços continuará acompanhando a evolução da economia estadual, embora em ritmo inferior ao da indústria. As projeções do Santander apontam crescimento de 2,4% em 2025 e 2,4% neste ano, com desaceleração para 1,7% em 2027, refletindo condições financeiras mais restritivas no país. Apesar disso, o varejo deverá manter trajetória positiva, sustentado pelo mercado de trabalho aquecido e pelo consumo das famílias sul-mato-grossenses.
O que vem pela frente
Segundo Henrique Danyi, a atividade econômica regional continuará sendo influenciada por fatores nacionais, como o comportamento do mercado de trabalho, a política monetária e o desempenho da agropecuária. O economista ressalta ainda que os eventos climáticos permanecem entre os principais fatores de atenção para os próximos anos, especialmente diante da possibilidade de ocorrência do El Niño. Ao avaliar o cenário nacional, Danyi afirma que o crescimento continuará disseminado entre as regiões, embora em ritmo mais moderado. “Mesmo com a desaceleração prevista a partir de 2026, o mapa econômico do país segue mostrando uma expansão disseminada. O desafio à frente passa a ser manter maior consistência no crescimento, em contexto de heterogeneidade regional e sensibilidade a choques climáticos e financeiros”, conclui.
Para Mato Grosso do Sul, o desafio dos próximos anos será administrar essa transição de motor econômico sem perder o protagonismo que o agronegócio conquistou nas últimas décadas — combinando a maturidade do campo com a força crescente da nova indústria de base florestal e frigorífica que se consolida no território estadual.
Fonte: Correio do Estado — https://correiodoestado.com.br/economia/industria-assume-lugar-do-agro-e-passa-a-puxar-o-crescimento-de-ms/469020/
