Prêmio criado pela Semadesc, com a Fundect e o Sebrae/MS, distribui bolsas de R$ 6,5 mil mensais por seis meses a pesquisas que vão de um cosmético à base de bocaiúva a uma plataforma de rastreabilidade de óleo de cozinha usado
A inovação voltada aos desafios do Pantanal e ao desenvolvimento sustentável de Mato Grosso do Sul ganhou destaque na última sexta-feira (3), durante a terceira edição da Pantanal Tech, realizada em Aquidauana. Em cerimônia na programação oficial da feira, foram anunciados os seis projetos vencedores do Desafio Pantanal Tech 2026, reconhecendo soluções capazes de contribuir para o fortalecimento do agronegócio, da bioeconomia e da transição energética no Estado. A iniciativa é promovida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), por meio da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect), em parceria com o Sebrae/MS.
O edital recebeu 144 projetos inscritos, número que a organização classifica como expressivo e que evidencia o crescimento do interesse de empreendedores, pesquisadores e startups sul-mato-grossenses em desenvolver soluções voltadas a necessidades reais de mercado. Do total de inscritos, 15 chegaram à fase final, na qual os proponentes classificados apresentaram seus projetos em formato de pitch a uma banca avaliadora composta por representantes da Semadesc, da Fundect e do Sebrae/MS. Os critérios de avaliação incluíram grau de inovação, viabilidade técnica, potencial de mercado, impacto socioambiental e contribuição para o desenvolvimento regional.

Segundo o secretário-executivo de Ciência, Tecnologia e Inovação da Semadesc, Ricardo Senna, o desafio nasceu com o propósito específico de aproximar a pesquisa acadêmica das demandas do setor produtivo, convertendo conhecimento científico em soluções com aplicação prática. “O Desafio Pantanal Tech foi criado para aproximar a academia do mercado e estimular a transformação do conhecimento científico em soluções capazes de gerar impacto real no setor produtivo. O número expressivo de projetos inscritos nesta edição demonstra o potencial do nosso ecossistema de ciência, tecnologia e inovação e reforça que Mato Grosso do Sul está preparado para desenvolver soluções que contribuam para a competitividade e o desenvolvimento sustentável do Estado”, afirmou Senna.
Na mesma linha, o diretor científico da Fundect, Saulo Moreira, destacou o papel do apoio financeiro público como elemento decisivo para que pesquisas em estágio inicial consigam avançar até etapas de validação e, eventualmente, cheguem ao mercado. “Nosso objetivo é aproximar as instituições de ensino e pesquisa das demandas do mercado, estimulando essas ideias a se transformarem em negócios. O apoio financeiro é essencial para que esse processo aconteça, permitindo que pesquisas avancem, sejam validadas e gerem soluções com impacto real para o desenvolvimento econômico e social do Estado. É muito gratificante ver a qualidade dos projetos apresentados e perceber que a inovação sul-mato-grossense está cada vez mais preparada para responder aos desafios da sociedade”, disse Moreira.
Já o diretor de operações do Sebrae/MS, Tito Estanqueiro, reforçou que a iniciativa vai além do reconhecimento pontual de projetos: segundo ele, o desafio funciona como uma ponte estrutural entre ideias que nascem em ambiente acadêmico e as necessidades concretas de setores como agronegócio, indústria e serviços. “O Desafio Pantanal Tech é uma iniciativa estratégica para fortalecer o ecossistema de inovação de Mato Grosso do Sul ao aproximar ideias que nascem na academia das necessidades do mercado. As propostas apresentadas demonstram o potencial dos empreendedores e pesquisadores em desenvolver soluções para desafios do agronegócio, da indústria, dos serviços e da sociedade. Mais do que reconhecer projetos, o desafio cria oportunidades para que essas ideias evoluam, gerem novos negócios, promovam inovação e contribuam para o desenvolvimento sustentável do Estado”, concluiu Estanqueiro.
Ao todo, os seis projetos mais bem avaliados foram premiados na cerimônia e passam a receber bolsas de R$ 6,5 mil mensais, por um período de seis meses, para o desenvolvimento das respectivas pesquisas. Em primeiro lugar ficou o projeto Acrodermo, da equipe formada por Antolim Penha Martinez Junior, Lucas Rannier Melo de Andrade e Maria Ligia Rodrigues Macedo, que desenvolve uma formulação cosmética a partir do resíduo da casca da bocaiúva (Acrocomia aculeata), fruto típico do Cerrado e do Pantanal sul-mato-grossenses. Para Martinez Junior, a premiação representa um passo concreto para transformar a pesquisa em produto comercial. “O projeto busca desenvolver um creme cosmético a partir do aproveitamento de um resíduo da bocaiuva, agregando valor a um recurso natural do nosso Estado. O reconhecimento no Desafio Pantanal Tech é muito importante porque nos permitirá avançar para as próximas etapas da pesquisa, aproximando o produto da aplicação comercial. O desenvolvimento científico exige investimentos constantes, especialmente nos ensaios de segurança e validação, e esse incentivo será fundamental para tornar a proposta viável e ampliar seu potencial de inovação”, afirmou.
Em segundo lugar ficou o Plantspec, projeto de Edson Antonio Batista e Jader Lucas Perez, que desenvolve uma plataforma capaz de transformar dados espectrais em inteligência aplicada a florestas de alta produtividade — tecnologia com potencial de uso direto no setor florestal do Estado, que tem atraído investimentos bilionários de empresas como Suzano e Arauco. O terceiro colocado foi o Óleoponto Innovation Lab, de Dionísio Machado Leite Filho e Zadrik José Pereira Mendonça, responsável pelo Óleobot, uma plataforma inteligente para coleta e rastreabilidade de óleo de cozinha residual. Fundador da startup, Zadrique Mendonça destacou o significado de vencer em um edital tão concorrido. “Receber esse reconhecimento em um desafio que reuniu 144 projetos é motivo de muita satisfação e reforça a confiança no potencial da nossa solução. Desenvolvemos uma plataforma inteligente para coleta e rastreabilidade de óleo de cozinha residual e esse incentivo será essencial para avançarmos nas pesquisas em parceria com a Universidade Federal. Transformar uma ideia inovadora em um negócio exige investimentos e etapas de validação, por isso esse apoio chega em um momento decisivo para acelerar o desenvolvimento da tecnologia e ampliar seu impacto”, afirmou Mendonça.
Completam a lista de premiados o Nematox, quarto colocado, equipe formada por Carlos Eduardo Braga Vieira Lima, Tiago Calves Nunes e Victória Viédes Ferreira, com uma plataforma de inteligência artificial para diagnóstico automatizado de nematoides fitoparasitas — pragas que afetam diretamente a produtividade agrícola; o Acronano, em quinto lugar, com Guilherme Aparecido de Oliveira Cardoso, Yasmin Lany Ventura Said e Maria Lígia Rodrigues Macedo, que desenvolve uma plataforma nanotecnológica baseada em peptídeo bioinspirado para uso em saúde animal; e o MTD Soluções Naturais, em sexto, com o projeto Nanofly, de Dyego Gonçalves Lino Borges, Marco Aurelio de Lara e Tainara Costa da Silva, voltado ao controle de pragas.
Integrante da equipe Acronano, Yasmin Lany Ventura Said explicou o potencial prático da pesquisa, voltada ao combate de um problema recorrente na pecuária do Estado. “Nosso projeto desenvolve uma formulação de nanopartículas para encapsular um peptídeo antimicrobiano voltado ao combate da mastite bovina, uma solução com potencial para gerar impactos positivos na produção animal. Os recursos recebidos por meio do Desafio Pantanal Tech serão fundamentais para dar continuidade ao desenvolvimento das nanopartículas e à validação do produto, aproximando a pesquisa da aplicação prática e do mercado”, afirmou.
Os seis projetos premiados ilustram uma característica recorrente do ecossistema de inovação sul-mato-grossense: a forte presença de soluções ligadas à bioeconomia e ao aproveitamento de recursos naturais regionais, do Cerrado ao Pantanal, aplicadas a cadeias como agronegócio, pecuária e florestas plantadas. O desafio integra um conjunto maior de instrumentos de fomento do Estado — que inclui também a Fundect, com linhas próprias de subvenção a startups, e programas como o recém-lançado MS Inova Mais Municípios, que busca justamente levar esse tipo de dinâmica para além dos grandes centros urbanos.
O modelo de fomento local por meio de editais como o Desafio Pantanal Tech ganha peso adicional diante da conhecida concentração dos recursos federais de ciência e tecnologia nas regiões Sul e Sudeste do país. Levantamentos anteriores sobre o ecossistema de inovação sul-mato-grossense já apontavam que cerca de 80% das ações de fomento do governo federal ficam concentradas nesses dois eixos, em detrimento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Diante desse cenário, a Fundect — que mantém orçamento próprio de cerca de R$ 100 milhões anuais, dos quais parcela relevante é destinada à subvenção direta de startups, com aportes que variam de R$ 50 mil a R$ 500 mil por projeto conforme o programa — tem sido apontada por gestores estaduais como um dos fatores que ajudaram Mato Grosso do Sul a construir um ecossistema de inovação mais robusto do que o de estados com PIB semelhante, mesmo sem depender de forma decisiva de recursos da União.
O resultado do Desafio Pantanal Tech também se soma a outras evidências de amadurecimento do ecossistema local de inovação neste ano. Em março, o Sebrae/MS promoveu, pela primeira vez, a edição simultânea do Startup Day em 12 municípios do Estado, reunindo mais de 700 participantes entre empreendedores, especialistas e representantes de instituições públicas e privadas — sinal de que iniciativas antes concentradas em Campo Grande vêm ganhando tração também no interior sul-mato-grossense.
Com o resultado divulgado, as seis equipes vencedoras agora entram no período de seis meses de bolsa, prazo em que deverão avançar nas etapas de validação técnica e aproximação com o mercado — fase historicamente apontada como um dos principais gargalos para transformar pesquisa em negócio no Brasil. A organização já sinaliza a continuidade do calendário de fomento à inovação no Estado, com editais como o MS Inova Impacto, hoje com inscrições abertas para acelerar negócios de impacto socioambiental, dando sequência ao fluxo de iniciativas que a Semadesc, a Fundect e o Sebrae/MS vêm lançando ao longo de 2026.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias – ASN Mato Grosso do Sul (https://ms.agenciasebrae.com.br/inovacao-e-tecnologia/desafio-pantanal-tech-2026-premia-solucoes-inovadoras-para-impulsionar-o-desenvolvimento-de-ms/) e Campo Grande News, “Boom de startups alavanca negócios em Mato Grosso do Sul” (https://www.campograndenews.com.br/educacao-e-tecnologia/boom-de-startups-alavanca-negocios-em-mato-grosso-do-sul), usada como contexto histórico sobre o orçamento da Fundect.
