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Empreenda MS > Meio Ambiente > Pasto vira lavoura e eucalipto: o Cerrado de MS muda de dono e perde 290 mil hectares nativos
Meio Ambiente

Pasto vira lavoura e eucalipto: o Cerrado de MS muda de dono e perde 290 mil hectares nativos

Empreenda MS Publicado em 11/09/2026 109 visualizações
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13 minutos de leitura
Caminho de terra ladeado por fileiras de eucaliptos altos em área de silvicultura
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Coleção 11 do MapBiomas mostra que agricultura e silvicultura avançaram sobretudo sobre áreas já abertas entre 2020 e 2025, mas 211,2 mil hectares de vegetação nativa foram convertidos em pastagem no mesmo período

O Cerrado sul-mato-grossense chega ao seu dia, celebrado nesta sexta-feira (11), no meio de uma reorganização silenciosa e profunda do uso da terra. Depois de décadas em que a expansão se deu sobretudo pela abertura de novas áreas de pastagem, o movimento agora é outro: a pecuária recua e cede espaço à agricultura e, principalmente, à silvicultura — o eucalipto que abastece as fábricas de celulose instaladas no Estado. Entre 2020 e 2025, pouco mais de 1 milhão de hectares deixaram de ser classificados como pastagem na porção sul-mato-grossense do bioma. Ao mesmo tempo, porém, a vegetação nativa continuou encolhendo: a redução líquida foi de 290 mil hectares, ou 5,2%, em apenas cinco anos. Os dados são da Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra do MapBiomas.

A troca de guarda no uso da terra

Os números descrevem uma virada de composição. As pastagens ocupavam 11,78 milhões de hectares em 2020 e passaram para 10,74 milhões em 2025. No mesmo intervalo, a agricultura cresceu de 2,94 milhões para 3,18 milhões de hectares, e a silvicultura saltou de 1,06 milhão para 1,41 milhão.

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A análise das transições entre classes ajuda a identificar de onde vieram essas novas áreas. Cerca de 156,1 mil hectares classificados como pastagem em 2020 aparecem como agricultura em 2025 — o equivalente a aproximadamente 60% de tudo o que passou para esse uso no período. Na silvicultura, a proporção é ainda mais expressiva: aproximadamente 315,3 mil hectares que eram pastagem em 2020 aparecem na categoria em 2025, cerca de 85% de toda a área incorporada pela atividade.

Pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas, Bárbara Costa explica que os mapas de transição comparam a classificação encontrada no início e no fim do período analisado.

“Esses dados representam uma comparação entre a classe registrada no início e no final do período. Ou seja, mostram as mudanças entre o que foi classificado em 2020 em relação ao ano de 2025”, afirma.

A ressalva é metodológica e importante: os dados não descrevem necessariamente todas as alterações ocorridas em cada área ao longo dos cinco anos, apenas o retrato nos dois extremos. Ainda assim, o padrão é claro. Segundo Bárbara, a parcela majoritária das áreas que passaram a ser classificadas como agricultura ou silvicultura já estava ocupada por usos antrópicos, especialmente pastagens, em 2020.

“Esse padrão pode estar associado à intensificação e à reorganização do uso da terra no Cerrado sul-mato-grossense, com áreas anteriormente destinadas à pecuária sendo incorporadas para atividades agrícolas ou de silvicultura”, diz a pesquisadora.

A conversão de vegetação nativa não parou

O aproveitamento de terras já abertas reduz, em tese, a pressão por novas conversões. Mas o próprio conjunto de dados impõe um contraponto. Entre 2020 e 2025, aproximadamente 211,2 mil hectares classificados como vegetação nativa no início do período aparecem como pastagem no final. De acordo com Bárbara, a maioria corresponde a áreas anteriormente classificadas como Formação Florestal e Formação Savânica.

“O dado mostra que dois processos estão ocorrendo ao mesmo tempo”, explica a pesquisadora. De um lado, áreas agropecuárias já abertas mudam de uso, principalmente de pastagem para agricultura e silvicultura. De outro, continuam ocorrendo conversões de vegetação nativa para usos agropecuários.

A agricultura e a silvicultura também avançaram diretamente sobre áreas nativas, ainda que em escala menor: cerca de 8,2 mil hectares antes classificados entre as formações nativas analisadas aparecem como agricultura em 2025, e aproximadamente 37,5 mil hectares que eram vegetação nativa em 2020 aparecem destinados à silvicultura cinco anos depois.

O saldo aparece na cobertura total. Em 2020, as classes de vegetação nativa ocupavam cerca de 5,53 milhões de hectares no Cerrado de Mato Grosso do Sul. Em 2025, eram aproximadamente 5,24 milhões — a tal redução líquida de 290 mil hectares, ou 5,2%, em cinco anos.

Quarenta anos em um gráfico

A dimensão da transformação fica mais evidente quando a comparação volta ao início da série histórica do MapBiomas. Em 1985, as classes de vegetação nativa ocupavam 11,83 milhões de hectares na porção sul-mato-grossense do Cerrado. Quatro décadas depois, restavam cerca de 5,24 milhões — redução líquida de 55,7% no conjunto dessas formações, que reúne Formação Florestal, Formação Savânica, Savana Alagada, Campo Alagado e Área Pantanosa e Formação Campestre.

O indicador, ressalva a pesquisadora, representa a diferença entre a área ocupada nos dois extremos da série e não deve ser interpretado como uma taxa acumulada de desmatamento. Entre as formações, a mudança é especialmente expressiva na Formação Savânica: passou de aproximadamente 3,26 milhões de hectares em 1985 para cerca de 1 milhão em 2025.

Do outro lado da equação, a escala da ocupação produtiva mudou de patamar. A agricultura saiu de aproximadamente 432 mil hectares em 1985 para 3,18 milhões em 2025 — mais de sete vezes a área inicial. A silvicultura teve expansão proporcional ainda maior: de aproximadamente 50 mil hectares para 1,41 milhão, área mais de 28 vezes superior. As pastagens também cresceram no horizonte de 40 anos, de aproximadamente 8,59 milhões para 10,74 milhões de hectares, embora tenham recuado nos cinco anos mais recentes.

A geografia da transformação também se deslocou. Segundo Bárbara, entre 1985 e 1990 a transição de pastagem para agricultura aparecia com maior intensidade na porção sul de Mato Grosso do Sul. Com o passar dos anos, o movimento avançou mais ao norte do Estado. Os mapas, porém, não permitem concluir isoladamente que a pecuária tenha sido simplesmente deslocada para outras áreas: eles registram mudanças de classificação e a reorganização espacial dos usos.

A economia por trás do mapa

O avanço da silvicultura não é um fenômeno isolado do mapa: ele tem contrapartida direta no mercado de terras. Levantamento da Scot Consultoria divulgado nesta semana, relativo ao quadrimestre de agosto a novembro, mostra que a região de Três Lagoas — o chamado Vale da Celulose — registrou a maior valorização entre as dez regiões de Mato Grosso do Sul analisadas. O preço médio das propriedades destinadas à pastagem alcançou R$ 24,8 mil por hectare, alta de 16,4% sobre o quadrimestre anterior e de 13,8% na comparação com o mesmo período de 2025, superando a média estadual de R$ 20,71 mil.

Segundo o engenheiro agrônomo Gustavo Duprat, responsável pelo levantamento, a expansão da indústria de celulose em regiões como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo ampliou a procura por terras por parte de investidores — inclusive por áreas de menor preço e com menor aptidão agrícola, exatamente o perfil das pastagens que aparecem convertidas em silvicultura nos dados do MapBiomas.

Em outras palavras: a mesma dinâmica que aparece como mudança de classe no satélite aparece como valorização fundiária na planilha. Terra de pasto vale mais quando há uma fábrica de celulose à procura de madeira em um raio economicamente viável — e isso altera o cálculo de quem decide entre manter gado, plantar soja ou arrendar para eucalipto.

Água, biodiversidade e o elo com o Pantanal

Do ponto de vista ambiental, Bárbara Costa explica que a conversão da vegetação nativa pode provocar perda e fragmentação de habitats, alterações na conectividade da paisagem e mudanças em processos relacionados à água, ao solo e ao estoque de carbono.

O impacto, porém, extrapola os limites do próprio bioma. Em entrevista anterior ao Campo Grande News, a pesquisadora Isabel Schmidt, que estuda o Cerrado há pelo menos 25 anos, destacou a dependência direta do Pantanal em relação ao bioma vizinho.

“O Pantanal é um bioma muito dependente da água que vem do Cerrado, então, da conservação do Cerrado”, afirmou. Segundo ela, o desmatamento e o uso intensivo da água subterrânea por agricultura, pecuária e irrigação interferem na infiltração da água no Cerrado e, consequentemente, na chegada dela ao Pantanal. A pesquisadora classificou o bioma como a “savana mais rica em biodiversidade do mundo”.

A geógrafa Marine Dubos-Raoul, pesquisadora visitante do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMS em Três Lagoas, também ouvida anteriormente pelo mesmo veículo, lembrou que parte fundamental da dinâmica do Cerrado ocorre abaixo da superfície. Os solos profundos e bem drenados favorecem a recarga dos aquíferos no período chuvoso e ajudam a manter reservas hídricas na estação seca — razão pela qual o bioma é chamado de “floresta invertida”.

Segundo Marine, a substituição da vegetação nativa por monocultivos exóticos altera mecanismos naturais de infiltração e recarga e pode afetar diretamente a vazão dos cursos d’água e a disponibilidade hídrica. Ela defende políticas de preservação e recuperação de nascentes, corredores ecológicos e sistemas agroflorestais, que poderiam recuperar áreas degradadas, produzir alimentos e oferecer recursos para a fauna.

O que está em jogo para quem produz

Para o setor produtivo sul-mato-grossense, o recado dos dados é duplo. O primeiro é positivo: a maior parte da expansão recente de agricultura e silvicultura se deu sobre terra já aberta, o que indica intensificação — fazer mais na mesma área — e não apenas avanço de fronteira. Esse é justamente o argumento que sustenta a credencial ambiental exigida por compradores internacionais de celulose, grãos e proteína animal, e que pesa em contratos com exigências de rastreabilidade e de desmatamento zero.

O segundo é de alerta: a conversão de vegetação nativa não cessou, e a disponibilidade hídrica que sustenta tanto o eucalipto quanto a lavoura e a pecuária depende da parte do bioma que segue encolhendo. Em um Estado que aposta simultaneamente em celulose, grãos, pecuária, turismo pantaneiro e bioeconomia, a conta hídrica é compartilhada por todos os setores.

Os próximos passos passam pelo monitoramento das próximas coleções do MapBiomas, pela consolidação de políticas estaduais de recuperação de áreas degradadas e pelo desenho de instrumentos econômicos que remunerem a conservação em propriedades privadas. Enquanto isso, o mapa de 2025 registra um Cerrado sul-mato-grossense que produz mais, vale mais e conserva menos do que quarenta anos atrás.

Fontes

Campo Grande News — “Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS” (11/09/2026): campograndenews.com.br
Campo Grande News — “Pressão da agroindústria alavanca valor das terras no Vale da Celulose” (10/09/2026): campograndenews.com.br
MapBiomas — Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra: mapbiomas.org

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