Concessionária Caminhos da Celulose tem 69 das 82 torres em execução ao longo de 870,3 km; cobertura deve alcançar 22 municípios, 37 distritos, 26 escolas públicas e mais de 6,3 mil propriedades rurais
A maior obra de conectividade rodoviária em curso em Mato Grosso do Sul deixou a fase de projeto e entrou de vez no canteiro. Das 82 torres previstas para levar sinal 4G/LTE às rodovias administradas pela concessionária Caminhos da Celulose, 69 — cerca de 84% do total — já contam com frentes de trabalho relacionadas à construção das estruturas ou à instalação dos equipamentos de telecomunicações. Os dados foram divulgados pela concessionária e publicados nesta segunda-feira (21). Até setembro, 15 torres já estavam com a estrutura finalizada.
A rede está distribuída pelas cinco rodovias que integram a concessão — BR-262, BR-267, MS-040, MS-338 e MS-395 — e deverá cobrir os 870,3 quilômetros sob administração da empresa. Segundo a concessionária, 40% da infraestrutura civil necessária à implantação já foi concluída, etapa que inclui execução de fundações e instalação de ferragens para preparar os locais onde as torres serão montadas e levantadas.
Muito além do sinal de celular na estrada
À primeira vista, o projeto poderia ser lido como uma simples ampliação de cobertura de telefonia. Mas o desenho apresentado pela Caminhos da Celulose aponta para algo mais amplo: uma espinha dorsal de telecomunicações que servirá simultaneamente ao usuário da rodovia, às comunidades do entorno e à própria operação tecnológica da concessão.
No raio de alcance previsto estão 22 municípios e 37 distritos. A cobertura deve chegar ainda a 26 escolas públicas, oito unidades de saúde e mais de 6,3 mil propriedades rurais localizadas no entorno da malha rodoviária. Em um Estado onde a área rural convive há décadas com zonas de sombra de sinal, esse é possivelmente o efeito colateral mais significativo do projeto — e um que não estava no centro do debate quando a concessão foi desenhada.
Para escolas rurais e distritos afastados, conectividade estável significa acesso a plataformas educacionais, matrícula e serviços digitais sem deslocamento até a sede do município. Para unidades de saúde, abre a porta para telemedicina e para o envio de informações em tempo real. Para as propriedades rurais, é a condição básica de qualquer aplicação de agricultura de precisão, monitoramento de rebanho, sensores de solo ou gestão remota de máquinas — tecnologias que existem no mercado há anos, mas que esbarram justamente na ausência de rede.
Segurança viária é o argumento imediato
O benefício mais direto, contudo, continua sendo o da estrada. Trechos rodoviários sem cobertura móvel são pontos cegos em qualquer protocolo de emergência: o motorista envolvido em um acidente não consegue pedir socorro, o socorro não consegue localizar a ocorrência com precisão e as equipes de operação perdem tempo em comunicação por rádio ou por deslocamento físico.
Segundo o presidente da Caminhos da Celulose, Luiz Fernando De Donno, a implantação da rede está diretamente relacionada a esse ponto. “A cobertura 4G nas rodovias representa um avanço importante para a segurança viária e para a comodidade dos usuários. As instalações avançam em ritmo acelerado e a expectativa é que o serviço esteja disponível em breve”, afirmou. De acordo com ele, a infraestrutura também poderá beneficiar comunidades localizadas próximas às rodovias, com ampliação do acesso à internet.
A rede deverá contribuir ainda para o acionamento e atendimento de ocorrências e para a comunicação entre as equipes que trabalham na operação da estrada e os órgãos de segurança pública — uma coordenação que, em rodovias de alto tráfego de carga como as que integram a chamada Rota da Celulose, tem impacto direto no tempo de liberação de pista após incidentes.
A rede que sustenta os sistemas inteligentes
Há uma segunda camada no projeto, menos visível ao usuário e igualmente decisiva. A estrutura de telecomunicações será usada na implantação e integração dos ITS (Sistemas Inteligentes de Transporte) previstos para as rodovias da concessão.
Entre esses sistemas estão os PMVs (Painéis de Mensagens Variáveis), que transmitem informações aos motoristas sobre condições de pista, obras e ocorrências; o monitoramento automático do tráfego; e a pesagem de veículos em movimento — tecnologia que dispensa a parada do caminhão em balança fixa e reduz filas e tempo de viagem no transporte de carga.
A mesma rede dará suporte ao pedágio eletrônico e às ferramentas usadas para acompanhar a operação em tempo real a partir do CCO (Centro de Controle Operacional). Na prática, isso reposiciona a infraestrutura: ela deixa de ser um serviço acessório oferecido ao usuário e passa a ser o sistema nervoso da própria concessão. Sem conectividade contínua ao longo dos 870,3 quilômetros, nenhum desses sistemas opera de forma integrada.
Estrutura preparada para IoT, drones e veículos conectados
O ponto que mais chama atenção do ponto de vista tecnológico é o dimensionamento das torres. Segundo a concessionária, além do 4G/LTE, as estruturas estão sendo preparadas para receber aplicações que dependem de comunicação contínua entre equipamentos, veículos e sistemas.
Entre as tecnologias previstas estão Internet das Coisas, NB-IoT (padrão de rede de baixo consumo voltado a sensores), inteligência artificial, Edge Computing, monitoramento ambiental, drones e veículos conectados. Está prevista também a utilização de comunicação V2X — sigla para a troca de informações entre veículos, infraestrutura viária e outros dispositivos conectados. E a estrutura poderá ainda receber futuras aplicações baseadas em redes 5G.
Essa lista não é retórica de release. Ela define o horizonte de uso da infraestrutura por décadas. Uma torre projetada apenas para 4G envelhece com a tecnologia; uma torre dimensionada para Edge Computing e V2X permite que aplicações de direção assistida, telemetria de frota e monitoramento ambiental automatizado sejam implantadas depois, sem obra civil adicional. Para um corredor logístico que movimenta cargas de celulose, grãos e proteína animal, a diferença entre os dois cenários é substancial.
O contexto: conectividade como ativo de desenvolvimento regional
A obra ocorre em uma região que passou por uma transformação econômica acelerada na última década, com a instalação de plantas de celulose e a consequente multiplicação do tráfego pesado nas rodovias do leste e do centro do Estado. A malha concedida à Caminhos da Celulose é justamente aquela que conecta essas unidades produtivas ao restante da logística estadual.
Nesse contexto, a rede 4G deixa de ser apenas conforto e passa a ser insumo de competitividade. Rastreamento de carga em tempo real, comunicação entre transportadora e motorista, integração com sistemas de gestão de frota e emissão de documentos fiscais eletrônicos em trânsito são tarefas que dependem de sinal disponível ao longo de todo o percurso — não apenas nas cidades.
Há também um efeito menos óbvio sobre o ecossistema empreendedor local. Distritos e comunidades rurais que passam a ter conectividade estável ganham condição mínima para operar pequenos negócios digitais: venda por aplicativos, pagamento eletrônico, emissão de nota fiscal, acesso a plataformas de crédito e a cursos de qualificação a distância. É o tipo de infraestrutura que não gera manchete de inauguração, mas que redefine o que é possível fazer a partir de um endereço fora do perímetro urbano.
Próximos passos
Com 69 das 82 torres em alguma etapa de execução e 15 estruturas já concluídas, a maior parte da rede saiu do papel. Restam 13 torres a iniciar e 60% da infraestrutura civil a completar, além da fase de instalação e ativação dos equipamentos de telecomunicações nas estruturas já levantadas. A concessionária não divulgou data específica para a ativação integral do serviço, informando apenas que a expectativa é de disponibilização “em breve”.
O indicador a acompanhar nos próximos meses será menos o número de torres erguidas e mais o de trechos efetivamente cobertos — e, sobretudo, quando os sistemas inteligentes de transporte começarem a operar sobre essa rede. É nesse momento que a infraestrutura deixará de ser uma promessa de sinal para se converter em ganho mensurável de segurança, tempo de viagem e custo logístico para quem produz e escoa em Mato Grosso do Sul.
A escala do projeto também ajuda a dimensionar o desafio. Erguer 82 torres ao longo de quase 900 quilômetros exige licenciamento, acesso a áreas privadas, fornecimento de energia elétrica em pontos remotos e coordenação com operadoras de telefonia — etapas que costumam ser o verdadeiro gargalo em obras de telecomunicações no interior. O fato de 84% das estruturas já estarem em execução indica que boa parte desses entraves foi superada na fase inicial do cronograma.
Outro aspecto relevante é a distribuição geográfica. Como as torres acompanham o traçado das cinco rodovias, a cobertura resultante forma corredores lineares em vez de manchas concentradas em núcleos urbanos. Esse desenho é o que explica o alcance sobre 37 distritos e 6,3 mil propriedades rurais: são localidades que historicamente ficam fora do raio de interesse comercial das operadoras, mas que passam a ser atendidas por estarem próximas ao eixo viário.
Vale registrar que a cobertura prevista não substitui políticas específicas de inclusão digital, nem garante que todas as comunidades no raio de alcance terão serviço contratado a preço acessível. A infraestrutura cria a possibilidade técnica; a efetivação depende da oferta das operadoras e da capacidade de pagamento das famílias e produtores atendidos — um ponto que costuma aparecer com atraso no debate público sobre conectividade rural.
Fontes
Campo Grande News — Com 69 torres em obras, 4G avança contra “apagão de sinal” nas rodovias de MS (21/09/2026), com dados divulgados pela concessionária Caminhos da Celulose.
