Encontro marcado para 25 de novembro, no auditório da Fiems, em Campo Grande, reunirá indústria, comércio, poder público, educação e comunicação para discutir governança, proteção de dados e supervisão humana sobre decisões automatizadas
Mato Grosso do Sul terá, em novembro, o seu primeiro encontro dedicado exclusivamente ao uso seguro da inteligência artificial. O 1º Fórum MS de IA Segura está marcado para o dia 25 de novembro, no auditório da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, e é uma realização conjunta do portal Campo Grande News e da empresa sul-mato-grossense i4t (Intelligence for Transformation). A proposta é reunir representantes de setores que já convivem com sistemas automatizados no dia a dia para discutir governança, segurança de dados e responsabilidade sobre decisões tomadas com apoio de algoritmos.
A organização do evento entrou em nova fase nesta semana, com uma reunião estratégica entre representantes das duas empresas responsáveis pela iniciativa. O encontro definiu pontos da programação e das ações institucionais do fórum. Participaram da conversa os empresários Alcir Abuchaim e Peely Jean, proprietários da i4t, e o proprietário do Campo Grande News, Lucimar Couto. A informação foi divulgada pelo próprio portal, que assina a realização do evento ao lado da empresa de tecnologia.
O fórum já nasce com uma base institucional relevante para o ecossistema sul-mato-grossense: além da Fiems, que cede o auditório, a iniciativa conta com o apoio do Sebrae e da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, segundo os organizadores. A expectativa é que o encontro tenha caráter transversal, com participação de profissionais da comunicação, da indústria, do comércio, do poder público, da educação e do setor de tecnologia — ou seja, exatamente os campos em que a adoção de ferramentas de IA tem avançado mais rápido do que as regras internas de uso.
Da ferramenta à cultura organizacional
O recorte escolhido pelos organizadores desloca a discussão do entusiasmo tecnológico para o terreno da gestão. Não se trata apenas de decidir qual plataforma contratar, mas de estabelecer quem responde quando um sistema automatizado erra, quais dados podem ser acessados por essas ferramentas e quais decisões podem — ou não — ser delegadas a uma máquina. É uma pergunta que já bate à porta de hospitais, bancos, escolas, indústrias e órgãos públicos que incorporaram soluções capazes de analisar informações, produzir conteúdo, triar candidatos e apoiar decisões administrativas.
“Não se trata apenas de adotar uma nova tecnologia, mas de estabelecer uma cultura de uso seguro, responsável e estratégico da inteligência artificial. Precisamos discutir como proteger dados, definir responsabilidades e garantir que exista sempre uma visão humana por trás das decisões apoiadas pela IA”, afirmou Alcir Abuchaim, da i4t, em declaração divulgada pelos organizadores.
Em outra manifestação pública sobre o tema, o empresário resumiu o princípio que deve orientar a programação do fórum. “Quanto maior a capacidade e a autonomia de uma IA, maior precisa ser a governança sobre ela. Precisamos saber quem estabelece os limites, quem supervisiona seu funcionamento e quem responde pelas decisões. Segurança em IA começa com gestão humana”, disse. Para ele, “a tecnologia precisa ampliar a capacidade humana, não substituir a responsabilidade humana”.
A distinção não é retórica. Quando uma organização adota um sistema de recomendação para apoiar contratações, concessões de crédito ou priorização de atendimentos, ela transfere parte de um processo decisório para um modelo estatístico cujos critérios nem sempre são auditáveis. Sem política interna, registro de decisões e revisão humana, o resultado é uma zona cinzenta de responsabilidade — que aparece justamente quando algo dá errado.
Comunicação no centro da discussão
A escolha de um veículo jornalístico como um dos realizadores do fórum não é casual. A imprensa está entre os setores em que a inteligência artificial se infiltrou mais rapidamente nas rotinas produtivas, da transcrição de entrevistas à geração de resumos e à distribuição de conteúdo. E também é um dos setores em que o custo de um erro automatizado é mais alto, porque atinge diretamente a confiança do público na informação.
“A inteligência artificial já faz parte da nossa rotina e pode contribuir em diferentes etapas da produção de uma notícia. Mas, quando estamos falando de informação que chega ao público, é fundamental que exista controle, responsabilidade e supervisão humana”, afirmou Lucimar Couto, proprietário do Campo Grande News.
Segundo ele, a tecnologia deve funcionar como apoio, sem deslocar os fundamentos da atividade. “A apuração, a checagem das informações e a decisão sobre o que será publicado precisam continuar sob responsabilidade das pessoas. Esse debate sobre o uso seguro da IA é essencial para o futuro da comunicação”, acrescentou.
Um alerta global que chegou ao debate local
O fórum sul-mato-grossense se organiza em um momento de intensificação do debate internacional sobre os limites da tecnologia. A discussão ganhou nova tração depois que o pesquisador Jacob Coxon, que trabalhou na OpenAI e deixou recentemente a Anthropic, manifestou preocupação com a possibilidade de sistemas cada vez mais autônomos evoluírem em ritmo superior ao desenvolvimento dos mecanismos capazes de controlá-los. Ele chegou a mencionar cenários extremos, incluindo riscos à sobrevivência humana.
Essa hipótese está longe de representar consenso na comunidade científica. Parte dos pesquisadores considera o cenário especulativo e defende que a atenção se concentre em problemas já existentes e mensuráveis: desinformação em escala, ataques cibernéticos automatizados, discriminação algorítmica, uso indevido de dados pessoais e a automatização de decisões que afetam diretamente a vida das pessoas. São riscos que não dependem de nenhuma ruptura tecnológica futura para produzir prejuízo — eles já operam.
O ponto de convergência entre as duas leituras é justamente o que o fórum pretende endereçar: os sistemas estão ficando mais poderosos e mais autônomos, enquanto regras, fiscalização e mecanismos de responsabilização avançam em ritmo mais lento. Esse descompasso é sentido com mais força fora dos grandes centros de tecnologia, em organizações que adotam ferramentas prontas sem tempo ou estrutura para construir políticas próprias de uso.
MS vem acumulando repertório em dados e IA
O fórum chega a um estado que já vinha construindo, de forma dispersa, sua própria agenda de inteligência artificial. Na formação profissional, a Faculdade Senac MS lançou neste mês a primeira pós-graduação em Ciência de Dados com Inteligência Artificial Aplicada de Campo Grande, com início previsto para 3 de outubro, em formato presencial no Senac Hub Academy. É um sinal de que a demanda por profissionais capazes de operar e supervisionar esses sistemas deixou de ser uma promessa de futuro e virou vaga de trabalho.
Na estrutura de apoio à inovação, Mato Grosso do Sul conta atualmente com 12 ecossistemas locais de inovação estruturados, articulados pelo Sebrae/MS em parceria com a Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), abrangendo municípios como Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Corumbá/Ladário, Ponta Porã, Chapadão do Sul, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Maracaju, Aquidauana/Anastácio e Jardim/Guia Lopes da Laguna. São ambientes que tendem a ser os primeiros a testar — e a precisar regular — o uso de IA em pequenos negócios.
Há ainda aplicações de pesquisa que mostram o outro lado da equação. Grupos da UFMS e da Polícia Científica de MS têm desenvolvido soluções tecnológicas de baixo custo para problemas periciais concretos, como o sensor eletroquímico feito com grafite de lapiseira que permite detectar raticida em alimentos por menos de R$ 1 por análise. São exemplos de tecnologia aplicada com resultado verificável, categoria distinta dos sistemas generativos que dominam o noticiário, mas que compartilham com eles a necessidade de validação e controle metodológico.
O que está em jogo para empresas e órgãos públicos
Para o setor produtivo sul-mato-grossense, a pauta do fórum tem um recorte prático. A adoção de IA em empresas costuma começar de forma informal, por iniciativa de colaboradores que passam a usar ferramentas gratuitas para acelerar tarefas. O problema aparece quando informações sensíveis — contratos, dados de clientes, planilhas financeiras, propriedade intelectual — são inseridas em plataformas de terceiros sem qualquer avaliação sobre onde esses dados são armazenados e como são tratados.
No setor público, a exposição é de outra natureza. Órgãos que automatizam triagens, análises documentais ou atendimento ao cidadão precisam garantir rastreabilidade das decisões, direito de revisão e transparência sobre o uso das ferramentas. Sem isso, a modernização administrativa pode produzir o efeito inverso do pretendido: mais velocidade e menos capacidade de explicar por que uma decisão foi tomada.
É esse conjunto de questões — segurança de dados, governança, soberania da informação, inovação e supervisão humana — que os organizadores colocaram no centro da programação. A expectativa é que especialistas, empresários, gestores públicos e autoridades compartilhem experiências concretas de implantação e discutam critérios aplicáveis à realidade de organizações de médio e pequeno porte, que dificilmente terão equipes dedicadas a governança algorítmica.
Próximos passos
Até 25 de novembro, a organização deve fechar a grade de painéis e ampliar a rede de instituições envolvidas. O formato transversal indica que o encontro tende a funcionar menos como vitrine de produtos e mais como espaço de construção de parâmetros comuns — algo que, no caso de Mato Grosso do Sul, pode se traduzir em recomendações práticas para setores que ainda estão na primeira curva de adoção.
O resultado mais consequente de um fórum como esse raramente é o que se diz no palco. É o que as instituições presentes levam de volta para dentro de casa: uma política de uso, um responsável designado, um procedimento de revisão. A tecnologia vai seguir avançando de qualquer forma. O que está em disputa, agora, é quem define seus limites, quem responde por seus erros e como garantir que a decisão final continue sendo humana.
Fontes
Campo Grande News — “Campo Grande News e I4t avançam na construção de fórum sobre IA” (16/09/2026): acesse aqui
Campo Grande News — “Alerta sobre riscos da IA reacende debate sobre limites e segurança” (14/09/2026): acesse aqui
Campo Grande News — “Inteligência artificial ganha curso de especialização em Campo Grande”: acesse aqui
