CIN-MS e Sistema Fiems abrem inscrições para formação de 40 horas que começa em 1º de outubro e reúne especialistas brasileiros e estrangeiros ligados ao novo corredor rodoviário sul-americano
A Rota Bioceânica promete encurtar distâncias, facilitar o acesso a mercados internacionais e colocar Mato Grosso do Sul no centro de um novo corredor comercial entre o Atlântico e o Pacífico. A estrada, porém, não transforma empresas locais em exportadoras por si só. Para tentar reduzir essa distância entre potencial e prática, o Centro Internacional de Negócios de Mato Grosso do Sul (CIN-MS) abriu inscrições para a Formação em Comércio Exterior e Rota Bioceânica, capacitação de 40 horas que será realizada de 1º de outubro a 8 de dezembro, em formato online e ao vivo.
A iniciativa é uma resposta institucional a um problema recorrente em regiões que recebem grandes obras de infraestrutura: a infraestrutura chega antes da capacidade empresarial de usá-la. Conhecer rotas e prazos é apenas parte do desafio. Regras comerciais, custos tributários, exigências sanitárias, instrumentos de financiamento e gestão de risco cambial compõem o restante — e é nesse terreno que a maioria das pequenas e médias empresas encontra barreira para dar o primeiro passo no mercado externo.
40 horas, 20 encontros e oito trilhas
A capacitação terá 40 horas distribuídas em 20 encontros, sempre às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h. O calendário noturno é uma escolha deliberada para atender profissionais que estão em atividade e empresários que não podem se ausentar do expediente.
O conteúdo está dividido em oito trilhas. Os participantes estudarão cenários globais e geopolítica, fundamentos do comércio exterior, estratégias de internacionalização, logística, Rota Bioceânica, negociação, financiamento, inteligência artificial, ESG e inovação. A programação também prevê um fórum com lideranças e a elaboração de um projeto executivo — ou seja, o participante não sai apenas com conteúdo teórico, mas com um plano aplicado ao próprio negócio.
A presença de inteligência artificial e ESG na grade indica como o desenho da formação tenta acompanhar exigências recentes do comércio internacional. Compradores estrangeiros, sobretudo na Ásia e na Europa, passaram a condicionar contratos a rastreabilidade, comprovação socioambiental e previsibilidade de entrega — temas que dependem de dados e de sistemas, não apenas de preço competitivo.
O curso é direcionado a profissionais de logística, comércio exterior, relações internacionais, inteligência de mercado, direito e áreas ligadas à sustentabilidade. A formação busca atender principalmente quem precisa transformar o potencial econômico da rota em planejamento concreto.
Especialistas do Brasil e do exterior
Entre os participantes convidados está Giovanni Gabas, gerente de projetos do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). Ele atua na avaliação de riscos, no fortalecimento da gestão institucional e na execução de programas públicos complexos — perfil que dialoga diretamente com o desafio de estruturar cadeias de exportação a partir de um corredor logístico ainda em consolidação.
A programação também terá representantes de instituições estrangeiras ligadas à Rota Bioceânica. Um deles é Fábio Roberto Cordeiro, da Corporación Tarapacá em Campo Grande. A região de Tarapacá, no norte do Chile, abriga a Zona Franca de Iquique, uma das principais áreas de livre comércio da América do Sul.
A menção a Iquique não é acessória. O porto chileno é um dos pontos de saída considerados para cargas brasileiras que utilizarem o corredor rodoviário rumo ao Pacífico, e a zona franca funciona como plataforma de redistribuição para mercados asiáticos. Para exportadores sul-mato-grossenses, entender como operam os regimes aduaneiros especiais do outro lado do continente é parte da equação de viabilidade.
Por que a formação surge agora
Segundo o CIN-MS, a formação foi criada diante das mudanças provocadas pela expansão industrial, pelos novos investimentos e pelo avanço da integração entre os países envolvidos no corredor. Esse cenário exige que as empresas conheçam não apenas o caminho físico das mercadorias, mas também as regras comerciais, as formas de financiamento e as exigências dos mercados internacionais.
O diagnóstico conversa com o momento econômico do Estado. Mato Grosso do Sul vive um ciclo de investimentos industriais de grande porte, com destaque para celulose, e registra expansão consistente da pauta exportadora. O desafio, apontado com frequência por entidades empresariais, é ampliar a base de empresas exportadoras para além dos grandes grupos — hoje, a maior parte do valor exportado pelo Estado se concentra em commodities e em um número reduzido de companhias.
Nesse contexto, capacitações como a do CIN-MS funcionam como instrumento de diversificação: ampliar o número de empresas aptas a exportar é condição para que o corredor bioceânico gere efeito econômico distribuído no território, e não apenas fluxo de passagem de carga por rodovias sul-mato-grossenses.
A base exportadora que o corredor vai encontrar
Dados recentes ajudam a dimensionar o que já circula pela pauta externa sul-mato-grossense. Levantamento do Observatório da Indústria da Fiems divulgado nesta semana mostra que o volume exportado de minério de ferro e manganês pelo Estado passou de 2,89 milhões para 9,19 milhões de toneladas entre 2006 e 2025, crescimento de 218% em 19 anos. No mesmo período, a receita das exportações do segmento subiu de US$ 98,5 milhões para US$ 436,5 milhões, e o valor bruto da produção avançou de R$ 311,1 milhões para R$ 2,44 bilhões. O número de trabalhadores formais na atividade saltou de 942 para 2.825, alta de aproximadamente 200%.
“Muitas vezes as pessoas se esquecem, mas Mato Grosso do Sul também é um estado minerador. Temos um segmento extrativo mineral forte e consolidado, especialmente com minério de ferro e manganês”, destacou o economista-chefe da Fiems, Ezequiel Resende, ao comentar os dados. Segundo ele, “hoje já são mais de 10 milhões de toneladas produzidas por ano” e houve “uma expansão muito importante da atividade mineral nos últimos anos”.
O retrato é ilustrativo do padrão que a formação do CIN-MS pretende ajudar a modificar. A pauta exportadora do Estado é robusta, mas ancorada em poucos produtos de baixo valor agregado e em um conjunto restrito de empresas de grande porte. Ampliar a participação de indústrias de transformação, de serviços e de negócios de menor porte exige exatamente o tipo de conhecimento operacional — classificação fiscal, incoterms, seguro de carga, câmbio, certificação — que a grade do curso pretende cobrir.
Rede de relacionamento e missões empresariais
Além do conteúdo, o programa oferece um ativo que costuma pesar tanto quanto a formação técnica: acesso. Os participantes terão contato com especialistas e com a rede de relacionamento do CIN-MS, estrutura ligada ao Sistema Fiems que atua na orientação de empresas interessadas em comércio exterior.
A conclusão do programa também poderá ser considerada como critério de prioridade em futuras missões empresariais, conforme o perfil do participante e a disponibilidade de vagas em cada iniciativa. Missões comerciais são, historicamente, um dos caminhos mais efetivos para a primeira exportação de uma pequena empresa, porque encurtam a etapa de prospecção e reduzem o custo de entrada em um mercado desconhecido.
As vagas são limitadas. O investimento é de R$ 650, com condição diferenciada para empresas filiadas ao Sistema Fiems e ao Lide Mato Grosso do Sul.
O que está em jogo no corredor
A Rota Bioceânica é tratada há anos como o principal projeto de reposicionamento logístico de Mato Grosso do Sul. A lógica é direta: ligar o Centro-Oeste brasileiro a portos do Pacífico por via terrestre, atravessando Paraguai, Argentina e Chile, para encurtar o trajeto de cargas destinadas à Ásia em comparação com a rota tradicional pelos portos do Atlântico.
Do ponto de vista empresarial, entretanto, a redução de distância só se converte em vantagem competitiva quando acompanhada de previsibilidade, documentação adequada e capacidade de negociação em contratos internacionais. Uma carga que chega mais rápido ao porto, mas fica retida por inconsistência documental ou por desconhecimento de exigência sanitária do país importador, não gera ganho algum para o exportador.
É essa lacuna que o curso tenta endereçar ao reunir, na mesma grade, geopolítica, logística, financiamento e negociação. A elaboração de um projeto executivo ao final do programa reforça a orientação prática: em vez de encerrar com uma avaliação teórica, o participante deve sair com um documento aplicável à realidade da empresa em que atua.
Serviço e próximos passos
A Formação em Comércio Exterior e Rota Bioceânica será realizada entre 1º de outubro e 8 de dezembro de 2026, em formato online e ao vivo, com aulas às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h, totalizando 40 horas em 20 encontros. O investimento é de R$ 650, com condição diferenciada para filiados ao Sistema Fiems e ao Lide MS. A realização é do CIN-MS em conjunto com o Sistema Fiems.
Com as aulas começando na primeira semana de outubro, o prazo de decisão para empresas interessadas é curto. Para o ecossistema empresarial de Mato Grosso do Sul, o indicador a acompanhar não será apenas o número de inscritos, mas quantos dos projetos executivos elaborados durante a formação chegarão, nos meses seguintes, a uma primeira operação de exportação efetiva — a métrica que de fato mede se a capacitação cumpriu o papel de transformar a expectativa em torno do corredor bioceânico em negócio.
Fontes: Campo Grande News — “Curso prepara empresas de MS para negócios na Rota Bioceânica”, reportagem de José Cândido (14/09/2026); e “Exportação de minério impulsiona economia de MS e atinge US$ 436,5 milhões”, reportagem de Izabela Cavalcanti, com dados do Observatório da Indústria da Fiems (15/09/2026).
