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Inovação

Sensor de R$ 0,25 feito com grafite de lapiseira leva inovação da UFMS à perícia de MS

Empreenda MS Publicado em 16/09/2026 82 visualizações
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12 minutos de leitura
Pesquisador ajusta o foco de um microscópio em bancada de laboratório
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Parceria entre o Instituto de Química da UFMS e a Polícia Científica de MS criou um eletrodo de R$ 0,25 que já rendeu 36 laudos periciais; instituição investiu R$ 100 mil em equipamentos próprios para internalizar a tecnologia

Um grafite de lapiseira de 0,7 milímetro, item vendido em qualquer papelaria por poucos reais, virou o coração de um método de análise forense desenvolvido em Mato Grosso do Sul. Usado como eletrodo sensor, o material permite detectar bromadiolona — substância empregada como raticida — em amostras de alimentos e em conteúdo gástrico de animais com suspeita de envenenamento. Cada sensor custa cerca de R$ 0,25 e cada análise sai por aproximadamente R$ 0,80. A metodologia é fruto de uma parceria entre o Instituto de Química da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e a Polícia Científica do Estado, e já foi aplicada em 36 exames, com a emissão de 36 laudos periciais.

O caso é um exemplo pouco comum no ecossistema de inovação sul-mato-grossense: uma tecnologia nascida de uma demanda concreta do serviço público, desenvolvida dentro da universidade estadual federal e incorporada à rotina operacional do órgão que a encomendou — sem passar por importação de equipamento caro nem por licenciamento de solução estrangeira.

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Do problema da perícia para a bancada da universidade

A aproximação entre a Polícia Científica e a UFMS começou em 2020, quando necessidades identificadas na rotina dos exames passaram a ser levadas aos pesquisadores em busca de alternativas. A cooperação entre o Instituto de Análises Laboratoriais Forenses (IALF), a Coordenadoria-Geral de Perícias e o Instituto de Química da UFMS foi formalizada em 2021.

No caso da bromadiolona, a demanda surgiu diretamente das ocorrências recebidas pela perícia. Achocolatado em pó, leite em pó, suco de uva, farofa e conteúdo gástrico de animais estão entre as amostras que chegaram ao laboratório para análise da substância. O método foi desenvolvido inicialmente para alimentos e, depois, ampliado para conteúdo gástrico de animais com suspeita de envenenamento.

O balanço das 36 análises é do perito criminal Evandro Rodrigo Pedon, chefe da Divisão de Química e Toxicologia Forense (DQT) do IALF. Foram 8 exames em alimentos e 28 em conteúdo gástrico de animais. Segundo o perito, os detalhes das ocorrências não são divulgados por envolverem informações periciais sensíveis.

Grafite, impressão 3D e tinta feita no laboratório

O sensor faz parte de uma linha de pesquisa que combina materiais simples, eletroquímica e impressão 3D para desenvolver novas formas de análise. Bruno Gabriel Lucca, professor do Instituto de Química da UFMS e um dos pesquisadores envolvidos na parceria, explica que, no método para bromadiolona, o grafite de lapiseira de 0,7 milímetro funciona como eletrodo sensor. É na superfície dele que ocorre a resposta eletroquímica associada à presença da substância.

A impressão 3D entra em outra função: fabricar uma tampa personalizada para o dispositivo, responsável por acomodar e posicionar adequadamente os sensores. Não é a peça impressa que detecta o raticida — o sensor propriamente dito é o grafite da lapiseira. Ainda assim, a manufatura aditiva é central no trabalho do grupo: segundo Lucca, a impressão 3D está presente em cerca de 90% dos dispositivos desenvolvidos pelos pesquisadores.

A tecnologia permite personalizar desenho e geometria para cada aplicação, fabricar as peças no próprio laboratório e automatizar a produção de lotes. Além dela, os pesquisadores utilizam outros materiais de baixo custo, como papel, grafite e tintas produzidas internamente. É uma estratégia de engenharia que reduz dependência de fornecedores especializados e encurta o ciclo entre a identificação de um problema e a entrega de um protótipo funcional.

Depois que a amostra já preparada é aplicada ao dispositivo, a resposta analítica é obtida em questão de segundos.

O contraste de custos é o que dá dimensão ao resultado. Enquanto o eletrodo consumível sai por cerca de R$ 0,25 e a análise por volta de R$ 0,80, os equipamentos convencionais de referência em toxicologia forense envolvem aquisição, manutenção e insumos em outra ordem de grandeza. Reduzir o custo unitário de uma triagem não elimina a necessidade desses aparelhos, mas muda a economia do laboratório: permite analisar mais amostras com o mesmo orçamento e reservar a capacidade dos equipamentos mais caros para os casos que realmente exigem confirmação.

Triagem rápida, não substituição da cromatografia

A rapidez, porém, não significa que o sensor substitua todos os exames convencionais. Lucca ressalta que o método é destinado principalmente à triagem inicial. Em situações que exigem confirmação inequívoca, continuam necessárias técnicas oficiais de análise, como a cromatografia.

A vantagem, segundo o professor, é permitir uma avaliação inicial rápida e de baixo custo, reduzindo a quantidade de amostras que precisam seguir para análises cromatográficas mais demoradas e complexas. Em um sistema pericial que convive com filas e com equipamentos de alto custo de operação, esse funil tem efeito direto sobre prazo de laudo e sobre capacidade de atendimento.

Também é preciso diferenciar os segundos necessários para obter a resposta do sensor do tempo gasto em todo o procedimento. O perito criminal explica que alimentos e conteúdo gástrico exigem etapas de extração e preparação antes da análise. Por isso, atualmente, os exames de bromadiolona são realizados no Instituto de Análises Laboratoriais Forenses, em Campo Grande, e não diretamente no local onde ocorreu a suspeita de envenenamento.

Um segundo método, agora para fungicida

A parceria já rendeu mais de uma entrega. A Polícia Científica confirma que duas metodologias desenvolvidas com o Instituto de Química da UFMS têm aplicação no IALF: uma para bromadiolona e outra para o fungicida benzovindiflupir.

O método para benzovindiflupir pode ser utilizado em casos de suspeita de falsificação ou adulteração de produtos que contenham o fungicida — uma questão sensível em um estado com forte base agrícola, onde a circulação de defensivos irregulares afeta produtividade, segurança alimentar e arrecadação. Assim como no trabalho com a bromadiolona, a eletroquímica está na base da análise, também com o uso da impressão 3D.

O estudo científico produzido com participação da UFMS e da perícia sul-mato-grossense descreve um dispositivo microfluídico com detector integrado, desenvolvido como ferramenta portátil para detecção do fungicida em amostras forenses.

Nesse caso, há ainda a possibilidade de aproximar o equipamento do local onde o produto é apreendido. Pedon explica que a preparação da amostra é mais simples, o que abre perspectiva para utilização do equipamento próximo a uma apreensão, principalmente em cargas com suspeita de falsificação ou adulteração de fungicidas. Isso, no entanto, não significa que o exame já esteja sendo realizado em campo.

R$ 100 mil para internalizar a tecnologia

A cooperação também começa a mudar a estrutura disponível dentro da própria Polícia Científica. Até agora, os trabalhos eletroquímicos eram realizados com equipamentos da UFMS. A instituição passa a contar com aparelhos próprios: segundo Pedon, foram adquiridos dois potenciostatos/galvanostatos, equipamentos utilizados nas análises eletroquímicas, por aproximadamente R$ 50 mil cada, totalizando investimento de cerca de R$ 100 mil.

A implantação ainda está em andamento e os aparelhos serão utilizados pelos peritos do laboratório. A aquisição, entretanto, não significa que todas as análises poderão ser imediatamente realizadas nos locais de ocorrência ou no interior do Estado. Conforme o perito, essa possibilidade depende do tipo de exame e, principalmente, do preparo necessário para cada amostra.

O passo é relevante do ponto de vista de política de inovação: transferir a capacidade instalada da universidade para o órgão usuário reduz a dependência de agenda compartilhada de laboratório e permite que a metodologia seja executada em escala de rotina, e não apenas em regime de pesquisa.

Por que o caso importa para o ecossistema de MS

O arranjo entre UFMS e Polícia Científica ilustra um modelo de inovação que costuma aparecer menos nas estatísticas de startups, mas que tem impacto direto sobre serviço público: a pesquisa aplicada por encomenda, em que o problema chega pronto do usuário final e a solução é validada no próprio ambiente de uso.

Há pelo menos três características que tornam o caso replicável. A primeira é o custo de insumo próximo de zero — grafite, papel e tintas produzidas no laboratório. A segunda é o uso de manufatura aditiva para prototipagem e produção de lotes dentro da própria instituição, o que elimina fornecedor intermediário e encurta prazos. A terceira é o foco em triagem, e não em substituição integral de métodos consagrados, o que reduz a barreira regulatória e de validação para a adoção.

Para o ecossistema sul-mato-grossense de ciência, tecnologia e inovação, o resultado também funciona como vitrine. Metodologias desenvolvidas localmente, publicadas em literatura científica e incorporadas à rotina de um órgão estadual são o tipo de indicador que sustenta pleitos por financiamento continuado a grupos de pesquisa e por programas de cooperação entre universidades e administração pública.

Próximos passos

No curto prazo, a expectativa é de consolidação: colocar em operação os dois potenciostatos adquiridos, capacitar os peritos do laboratório para o uso rotineiro dos equipamentos e ampliar o volume de análises realizadas internamente. A perspectiva de levar o exame para perto do local de apreensão, como no caso do benzovindiflupir, segue condicionada à simplificação do preparo de amostra.

No médio prazo, o formato da parceria — problema identificado na rotina pericial, levado ao Instituto de Química e devolvido como dispositivo de baixo custo — pode ser aplicado a outras substâncias de interesse forense. Com duas metodologias já em uso e uma linha de pesquisa estruturada em eletroquímica e impressão 3D, a cooperação firmada em 2021 se mostra menos um projeto pontual e mais uma rotina de desenvolvimento tecnológico instalada em Mato Grosso do Sul.

Fonte: Campo Grande News — “Grafite de lapiseira vira sensor para detectar veneno em alimentos”, reportagem de Inara Silva, publicada em 15/09/2026.

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