Curso de três dias em Coxim, promovido pelo Sebrae/MS com o Movimento Norte Forte MS, ensina prefeituras e organizações do terceiro setor a transformar demandas locais em projetos financiáveis — da elaboração à prestação de contas
Diante de orçamentos municipais cada vez mais apertados, prefeituras da região norte de Mato Grosso do Sul apostaram em uma aposta simples e pouco explorada: aprender a escrever projetos que consigam captar recursos fora do caixa próprio. Gestores públicos e representantes do terceiro setor participam desta terça-feira (15) até esta quinta-feira (17), em Coxim, da capacitação “Projetos para Captação de Recursos – da Construção à Prestação de Contas”, promovida pelo Sebrae/MS em parceria com o Movimento Norte Forte MS. A formação ocorre no auditório da instituição, das 8h às 18h.
Voltada aos municípios da região norte do Estado, a programação prepara os participantes para identificar necessidades, definir prioridades, estruturar propostas e buscar recursos para a execução de projetos. O conteúdo não para na captação: inclui também orientações sobre o acompanhamento das ações e a prestação de contas — etapa em que muitos convênios municipais travam e acabam devolvendo dinheiro que já havia sido conquistado.
Uma competência escassa na gestão municipal
A escolha do tema responde a um gargalo conhecido de quem acompanha finanças públicas no interior. Existem linhas de recursos disponíveis em ministérios, emendas parlamentares, fundos setoriais e organismos de fomento, mas acessá-las exige conhecimento técnico específico: legislação, domínio de sistemas de transferência, elaboração de projeto básico, planilha orçamentária compatível e capacidade de comprovar execução depois. Municípios pequenos raramente têm equipe dedicada a isso.
“A captação de recursos exige planejamento, organização e conhecimento sobre todas as etapas, desde a identificação de uma necessidade até a prestação de contas”, afirmou a gerente da Regional Norte do Sebrae/MS, Luzicarla Softov. Segundo ela, ao oferecer a capacitação, a instituição “contribui para que gestores públicos e lideranças do terceiro setor estejam mais preparados para estruturar projetos consistentes, buscar oportunidades e transformar recursos em ações que gerem resultados para os municípios e para a população”.
O consultor do Sebrae/RJ Marcus Macedo, que conduz a formação, situou a capacitação como resposta direta às limitações financeiras enfrentadas pelas prefeituras. “O objetivo do Sebrae é capacitar pessoas para elaborar projetos, captar mais recursos e investir em ações de infraestrutura e modernização que fortaleçam o ambiente de negócios para as micro e pequenas empresas”, destacou.
Para ele, a captação é uma alternativa importante para dinamizar as economias locais, mas ainda é uma habilidade pouco disseminada. “Queremos justamente desenvolver essas competências nos gestores públicos e representantes do terceiro setor que participam desta turma, contribuindo para a execução das ações previstas nos Planos de Desenvolvimento Municipal, do programa Cidade Empreendedora. É uma capacitação bastante estratégica”, completou.
O elo com os Planos de Desenvolvimento Municipal
A formação não é um evento isolado. Ela está diretamente relacionada às demandas identificadas nos PDMs (Planos de Desenvolvimento Municipal), documentos que reúnem ações e projetos voltados ao crescimento dos municípios e que são elaborados como parte do Cidade Empreendedora, programa executado pelo Sebrae/MS com apoio do Governo do Estado e das gestões municipais.
Essa ligação é o que dá sentido prático ao curso. Um PDM lista prioridades — pavimentação de um distrito produtivo, estruturação de um centro de comercialização, requalificação de área turística, modernização do atendimento ao contribuinte. Sem capacidade técnica de converter essas prioridades em projeto financiável, o plano permanece como diagnóstico. Com ela, vira pleito apresentável a quem tem recurso para repassar.
Atualmente, o Cidade Empreendedora está sendo desenvolvido em seis municípios da região norte: Camapuã, Chapadão do Sul, Costa Rica, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel do Oeste e Sonora. Ao todo, a Regional Norte do Sebrae/MS atende 12 municípios, contemplando os integrantes do programa. A iniciativa atua na transformação da gestão pública e na construção de um ambiente mais favorável ao empreendedorismo e ao desenvolvimento econômico.
O que dizem os municípios
Entre os participantes, o argumento se repete: preparar a equipe custa menos do que perder oportunidade por falta de projeto. O prefeito de São Gabriel do Oeste, Leocir Montanha, que também integra a Agência Norte Forte, ressaltou a importância de qualificar as equipes diante das restrições orçamentárias.
“É fundamental a preparação da nossa equipe para a elaboração de projetos e a captação de recursos, porque os recursos municipais estão muito limitados”, afirmou. Segundo o prefeito, o formato de três dias permite aos participantes “conhecer diferentes caminhos” e sair da formação “um passo à frente para buscar recursos, com condições de acompanhar também o passo a passo da execução”.
Da assessoria técnica da Secretaria de Saúde de Costa Rica, Matheus Paes destacou o componente jurídico do aprendizado. “É sempre bom aprimorar os conhecimentos sobre a legislação e sobre a captação de recursos, entendendo o que pode e o que não pode ser feito. Por isso, capacitações como essa contribuem para um aprendizado mais seguro e ajudam a evitar erros, tanto na captação quanto na prestação de contas”, explicou.
Ele acrescentou que o município tem usado a formação para revisar prioridades internas: “Desde o início, também estamos analisando os pontos mais sensíveis, as áreas em que precisamos melhorar e as prioridades do município, para desenvolver um trabalho mais eficiente e fazer entregas melhores à população”.
A gerente de núcleo da Secretaria de Administração de Sonora, Débora Amaral, apontou um efeito que extrapola a captação em si. “A capacitação é muito importante, principalmente porque ensina como identificar as demandas do município, compreender os problemas existentes e definir onde aplicar os recursos disponíveis e aqueles que ainda precisam ser buscados”, avaliou. Para ela, o conhecimento é útil “não apenas para a captação, mas também para o planejamento e a aplicação dos recursos nas demais secretarias”.
Prestação de contas, o calcanhar de aquiles
A programação desta quinta-feira (17), dedicada à conclusão da capacitação, reserva espaço justamente para a etapa que mais gera passivo nas prefeituras. Pela manhã, das 8h às 12h, os participantes recebem orientações sobre a estruturação de projetos para captação de recursos. À tarde, das 13h às 17h, o conteúdo se volta às boas práticas de elaboração de projetos e prestação de contas.
A ênfase tem razão de ser. Convênios mal prestados geram glosas, inscrição em cadastros de inadimplência e bloqueio de novas transferências — o que, na prática, fecha a porta para captações futuras. Um município com pendência em sistema federal pode ficar impedido de receber recursos voluntários mesmo tendo projetos tecnicamente bons na gaveta. Formar quadros capazes de executar e comprovar é, portanto, pré-condição para sustentar um ciclo de captação ao longo do tempo.
Outro aspecto pouco discutido é a rotatividade das equipes. A cada troca de gestão, o conhecimento acumulado sobre convênios, sistemas e prazos costuma sair pela porta junto com os servidores comissionados. Capacitações que alcançam quadros técnicos permanentes e lideranças do terceiro setor criam um estoque de competência menos vulnerável ao calendário eleitoral — e é justamente esse público que a turma de Coxim reúne, ao lado de secretários e assessores municipais.
A presença de organizações do terceiro setor na sala também amplia o alcance prático do curso. Associações, cooperativas e entidades assistenciais acessam linhas de fomento que nem sempre estão disponíveis às prefeituras, e frequentemente atuam como executoras de projetos em parceria com o poder público. Quando os dois lados dominam as mesmas regras, a chance de o recurso chegar ao território e ser corretamente aplicado aumenta.
Por que isso interessa ao pequeno negócio
À primeira vista, capacitar servidores municipais parece distante da agenda empresarial. A conexão, porém, é direta. Boa parte dos recursos captados por prefeituras se converte em infraestrutura que baixa o custo de operar no município: pavimentação de acesso a áreas produtivas, energia, saneamento, requalificação de espaços de comércio e turismo, conectividade, modernização do atendimento ao contribuinte.
É por isso que o Sebrae/MS posiciona a formação dentro de sua estratégia de apoio à jornada político-administrativa dos municípios — uma frente que busca melhorar o ambiente de negócios pela via da capacidade estatal, e não apenas pelo atendimento direto ao empreendedor. Em cidades de pequeno porte, onde o poder público é frequentemente o maior contratante e o principal indutor de investimento, a qualidade da gestão municipal é variável econômica de primeira ordem.
O Movimento Norte Forte MS, parceiro na realização do curso, opera na mesma lógica de articulação regional: municípios que compartilham características produtivas e gargalos semelhantes ganham escala ao planejar juntos, seja para disputar recursos, seja para estruturar projetos de interesse comum que dificilmente se sustentariam isoladamente.
Próximos passos
Encerrada a turma de Coxim, o desafio passa a ser de continuidade: transformar o conteúdo em rotina administrativa dentro das prefeituras, com responsáveis designados, acompanhamento de editais e um portfólio de projetos prontos para serem submetidos quando surgirem janelas de financiamento. Projeto engavetado não capta; projeto que espera o edital aparecer para começar a ser escrito raramente chega a tempo.
Mais informações sobre o programa Cidade Empreendedora podem ser obtidas pelo telefone 0800 570 0800 ou pelo site cidadeempreendedora.ms.sebrae.com.br. Para os municípios do norte de Mato Grosso do Sul, a aposta é de que a próxima rodada de investimentos na região dependa menos do tamanho do caixa próprio e mais da qualidade técnica das propostas que conseguirem colocar na mesa.
Fontes
Agência Sebrae de Notícias MS — “Sebrae/MS capacita gestores para fortalecer captação de recursos nos municípios na região norte de MS” (16/09/2026): acesse aqui
