Evento “Professor Transformador” encerrou o eixo Empreendedorismo nas Escolas do programa Cidade Empreendedora no município; as ações passaram por cinco escolas indígenas e duas extensões, envolvendo cerca de 150 professores
O auditório da Câmara Municipal de Paranhos, no extremo sul de Mato Grosso do Sul, reuniu na última sexta-feira (18) dezenas de professores, gestores e profissionais da educação para o evento “Professor Transformador”. O encontro marcou o encerramento das ações do eixo Empreendedorismo nas Escolas do programa Cidade Empreendedora, desenvolvido no município pelo Sebrae/MS em parceria com a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Educação, e com apoio do Governo do Estado.
No município, o ciclo de atividades voltadas à educação alcançou cinco escolas indígenas e duas extensões, beneficiando cerca de 1,8 mil estudantes e envolvendo aproximadamente 150 professores. A escolha de direcionar o evento de encerramento especialmente aos profissionais das escolas indígenas foi uma decisão do próprio município — e se tornou o traço mais distintivo desta edição do programa.
Avaliação da aprendizagem no centro do debate
A programação teve como atividade central a palestra “Avaliação da Aprendizagem: quais são os desafios?”, ministrada por Vânia Rego, mestra em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), pedagoga e professora concursada aposentada da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. O foco da exposição foi como transformar as avaliações em oportunidade de diagnosticar os pontos mais sensíveis e que precisam de revisão em sala de aula.
O recorte não é casual. Avaliação costuma ser tratada na rotina escolar como instrumento de classificação — um número no boletim ao fim do bimestre. A abordagem apresentada em Paranhos propõe o inverso: usar o resultado da avaliação como dado de gestão pedagógica, capaz de indicar onde o planejamento precisa ser ajustado e que tipo de intervenção cada turma demanda. É uma mudança de lógica que conecta diretamente educação e cultura empreendedora, já que ambas partem do mesmo princípio de medir, aprender com o erro e corrigir o rumo.
Durante o encontro, os professores indígenas aproveitaram o debate para compartilhar os desafios enfrentados diariamente nas escolas da comunidade. A palestrante destacou o nível de envolvimento do grupo. “Saio hoje desse encontro cheia de esperança, de um testemunho que foi dado aqui por vários professores que já foram únicos nos seus povos e que já formaram novos profissionais. Fiquei tocada pela seriedade com que eles levaram toda a temática da avaliação, do currículo, de como fazer planejamento e intervenção pedagógica significativa. Um grupo muito sério e comprometido”, avaliou Vânia Rego.
Gestão municipal aponta efeito sobre planejamento e recursos
Para a secretária municipal de Educação de Paranhos, Cleonice Barce de Lima, as formações realizadas ao longo do programa contribuíram para ampliar o conhecimento das equipes sobre avaliação, planejamento e políticas públicas. “Estamos na administração há dez meses e ainda tínhamos dúvidas sobre certas avaliações e como alcançar os resultados. O apoio do Sebrae foi importante neste sentido, além de nos ajudar muito na gestão dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)”, explicou.
A menção ao PNAE revela uma dimensão do programa que costuma passar despercebida. O Programa Nacional de Alimentação Escolar determina que ao menos 30% dos recursos federais repassados sejam aplicados na compra de alimentos da agricultura familiar. Qualificar a gestão desse recurso em um município significa, na prática, abrir um canal permanente de compra pública para produtores locais — inclusive indígenas — e transformar a merenda escolar em política de geração de renda no próprio território.
Segundo a secretária, os conhecimentos adquiridos também contribuíram para aprimorar projetos já desenvolvidos nas escolas. “Essas formações estão sendo refletidas no empreendedorismo dentro e fora da sala de aula. Temos vários projetos que estão sendo trabalhados e aprimorados a partir do conhecimento adquirido”, acrescentou.
O professor como agente de transformação
De acordo com a gestora estadual do programa Educação Empreendedora do Sebrae/MS, Priscila Veloso, o “Professor Transformador” representa o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelos profissionais da educação ao longo da jornada. “Além de ser a finalização do atendimento do eixo Empreendedorismo nas Escolas, o evento também vem para coroar o trabalho que é feito pelos profissionais de educação no município de Paranhos”, explicou.
Segundo ela, a programação foi pensada para promover inspiração, formação e troca de experiências, fortalecendo práticas pedagógicas inovadoras e conectadas aos desafios atuais da educação. Sobre a opção do município por concentrar o encontro nas escolas indígenas, Priscila avaliou que a escolha reforça a abrangência da educação empreendedora.
“Isso também é muito importante porque mostra que o programa Educação Empreendedora ultrapassa essas barreiras e nós estamos também fortalecendo a cultura do empreendedorismo na escola com os estudantes indígenas do município”, afirmou.
Paranhos e o recorte indígena
Localizado na faixa de fronteira com o Paraguai, na região do Cone Sul de Mato Grosso do Sul, Paranhos tem em sua composição populacional uma presença indígena expressiva, com comunidades Guarani e Kaiowá. A educação escolar indígena no município é atendida por unidades específicas, com professores em boa parte oriundos das próprias comunidades — perfil que a palestrante mencionou ao destacar os profissionais “que já foram únicos nos seus povos e que já formaram novos profissionais”.
Levar conteúdo de cultura empreendedora a esse contexto exige um cuidado particular. Não se trata de transplantar um modelo urbano de negócio para a aldeia, mas de trabalhar competências transversais — autonomia, planejamento, resolução de problemas, organização coletiva — que se aplicam tanto a um empreendimento formal quanto à gestão de uma produção comunitária, de um artesanato ou de uma feira local. É nesse ponto que a educação empreendedora se aproxima do que já vem sendo feito em outras frentes do Sebrae/MS junto a comunidades indígenas do Estado.
Um ciclo que segue por mais seis municípios
O evento realizado em Paranhos integra uma série de encontros de encerramento do eixo Empreendedorismo nas Escolas que serão promovidos nos municípios atendidos pelo pacote Transforma, do Cidade Empreendedora. A proposta é celebrar os resultados alcançados, reconhecer o compromisso dos profissionais da educação e estimular a continuidade das iniciativas nos municípios.
Os próximos municípios a receberem o evento serão Tacuru, Coronel Sapucaia, Antônio João, Eldorado, Japorã e Sete Quedas — todos na mesma faixa sul do Estado, região que concentra parte significativa da população indígena de Mato Grosso do Sul e que vem sendo alvo prioritário de programas de desenvolvimento local. Tacuru, por exemplo, lançou neste mês um projeto de moeda social a partir da coleta de recicláveis em escolas, também com apoio do Sebrae/MS dentro do Cidade Empreendedora.
O que é o pacote Transforma
O pacote Transforma tem duração de 18 meses e estrutura suas ações em cinco eixos: Simplificação, Compras Públicas, Sala do Empreendedor, Empreendedorismo nas Escolas e Inclusão Socioprodutiva. A estratégia busca melhorar o ambiente de negócios, apoiar a gestão pública e criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento dos pequenos negócios.
A lógica do desenho é de encadeamento. Simplificação e Sala do Empreendedor atuam sobre a burocracia que atrasa a abertura e a formalização de empresas. Compras Públicas busca direcionar parte do orçamento municipal para fornecedores locais. Inclusão Socioprodutiva alcança quem está fora do mercado formal. E Empreendedorismo nas Escolas opera no prazo mais longo de todos: forma, ainda na educação básica, a geração que vai ocupar esse ambiente de negócios daqui a uma década.
É justamente por atuar nesse horizonte que o eixo educacional é o mais difícil de medir. Não produz indicador imediato de empresas abertas ou de faturamento gerado. Seu resultado aparece em variáveis como permanência escolar, projetos estudantis, iniciativas de geração de renda nas comunidades e, sobretudo, na mudança de repertório dos professores — que permanecem nas escolas depois que o programa termina.
Próximos passos
Com o encerramento em Paranhos, a atenção se volta para a continuidade das práticas após a saída do programa. O desafio declarado pelos organizadores é o de estimular que as iniciativas sigam nos municípios sem a presença do atendimento estruturado — o que depende diretamente da apropriação do conteúdo pelas redes municipais de ensino e da manutenção das ações pelas secretarias.
Informações sobre ações do Sebrae/MS podem ser obtidas pela Central de Relacionamento, no telefone 0800 570 0800, ou pelo site da instituição.
A escala do atendimento em Paranhos ajuda a dimensionar o alcance. Cerca de 1,8 mil estudantes passaram por atividades ligadas ao eixo, número expressivo para um município de porte pequeno. E os aproximadamente 150 professores envolvidos representam um efeito multiplicador que ultrapassa a duração do programa: cada docente formado segue aplicando o conteúdo em novas turmas nos anos seguintes, sem custo adicional para o município.
Esse desenho — formar o professor em vez de atender apenas o aluno — é o que diferencia programas de educação empreendedora de ações pontuais como palestras ou feiras escolares. O investimento se concentra em quem permanece na rede, e não em um evento com data marcada para acabar. A contrapartida é que o resultado demora mais a aparecer e depende da rotatividade docente, historicamente alta em municípios de fronteira e em escolas rurais e indígenas.
Vale registrar que o encontro não trouxe indicadores quantitativos de impacto, como número de projetos estudantis criados ou de negócios gerados a partir das atividades. O balanço apresentado foi qualitativo, centrado nos relatos dos profissionais envolvidos e no reconhecimento do trabalho realizado — formato usual nesse tipo de encerramento, mas que deixa em aberto a avaliação de efetividade no médio prazo.
Fontes
Agência Sebrae de Notícias MS — Paranhos encerra ciclo de Educação Empreendedora com formação para professores (21/09/2026).
