Pesquisa publicada na revista Forest Ecology and Management usou 2.662 inventários florestais do Imasul e mapas do MapBiomas para reconstruir o estoque de carbono desde 1985: no Cerrado, o desmatamento pesa mais; no Pantanal, o vilão é o fogo que volta ano após ano
A vegetação nativa de Mato Grosso do Sul guardava, em 1985, cerca de 248,2 milhões de toneladas de carbono em troncos, galhos e folhas. Em 2024, esse estoque havia caído para 162,8 milhões de toneladas. A diferença, de 85,4 milhões de toneladas, equivale a 34,4% do total — mais de um terço do carbono que as florestas, savanas e campos do Estado mantinham fora da atmosfera há quatro décadas. Os números são de um estudo conduzido pelo pesquisador Rômullo Oliveira Louzada e colaboradores, publicado recentemente na revista científica internacional Forest Ecology and Management e divulgado nesta terça-feira (13) pelo Campo Grande News.
A pesquisa é a primeira a reconstruir, ano a ano, a trajetória do carbono armazenado acima do solo nos três biomas presentes em Mato Grosso do Sul — Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica — e a separar o peso de cada processo nessa conta: o desmatamento, os incêndios e a recuperação natural da vegetação. O resultado mostra que a perda não tem uma causa única. No Cerrado, o que mais pesou foi a conversão da vegetação nativa em pastagens e lavouras. No Pantanal, o destaque ficou com as queimadas recorrentes, que atingem as mesmas áreas várias vezes ao longo dos anos.
“Já tinha uma noção de que o carbono ia cair. Caiu a quantidade de vegetação nativa, cai a quantidade de carbono. Mas a gente não tinha noção da magnitude”, afirmou Louzada em entrevista ao portal.
Cerrado perdeu quase metade do estoque
O Cerrado concentra a maior perda absoluta. Em 1985, a vegetação do bioma em território sul-mato-grossense reunia aproximadamente 151,4 milhões de toneladas de carbono. Em 2024, restavam 79,2 milhões. A redução, de 72,2 milhões de toneladas, corresponde a cerca de 47,7% do estoque estimado no início da série — praticamente metade do carbono que o bioma guardava há 40 anos.
Sozinho, o Cerrado responde por cerca de 85% de toda a perda registrada no Estado. Segundo o estudo, a principal explicação está na mudança de uso da terra: quando a cobertura original é retirada para dar lugar a pastos ou lavouras, desaparece também a biomassa que armazenava o carbono. Durante o crescimento, as plantas absorvem gás carbônico da atmosfera e usam o carbono para formar seus tecidos; por isso, o volume e o tipo de vegetação existente determinam diretamente quanto carbono fica estocado na paisagem.
O fogo também deixou marca no bioma. Entre 1985 e 2024, os pesquisadores estimaram perdas acumuladas de 11,6 milhões de toneladas de carbono atribuídas a incêndios no Cerrado, enquanto os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação somaram 6,3 milhões de toneladas. Mesmo com esse desequilíbrio, foi o desmatamento que teve maior peso na queda do estoque.
Os dados conversam com outros levantamentos recentes sobre o bioma. Em setembro, por ocasião do Dia do Cerrado, a Coleção 11 do MapBiomas mostrou que o Cerrado de Mato Grosso do Sul perdeu 290 mil hectares de vegetação nativa entre 2020 e 2025, com a agricultura e a silvicultura avançando sobretudo sobre áreas que já haviam sido abertas para pastagem. O novo estudo acrescenta uma dimensão que os mapas de cobertura, sozinhos, não mostram: quanto carbono foi embora junto com essa vegetação.
No Pantanal, o problema é o fogo que se repete
No Pantanal sul-mato-grossense, a fotografia de início e fim parece menos dramática. O estoque estimado de carbono na vegetação passou de 83,1 milhões de toneladas, em 1985, para 73,4 milhões, em 2024 — uma redução de 9,7 milhões de toneladas, ou cerca de 12%. A pesquisa, porém, mostra que esse saldo esconde uma movimentação muito maior ao longo do caminho.
Ao somar as perdas atribuídas aos incêndios nas quatro décadas, os pesquisadores chegaram a 145,7 milhões de toneladas de carbono no bioma pantaneiro. Os ganhos ligados à recuperação e às mudanças da vegetação foram estimados em 27 milhões de toneladas. A explicação está na dinâmica própria da planície: uma mesma área pode perder carbono durante uma queimada, recuperar parte dele com o rebrote da vegetação e voltar a perder quando outro incêndio acontece. Por isso, olhar apenas para o primeiro e o último ano da série subestima o quanto o fogo pesa no balanço do Pantanal.
A comparação entre os dois biomas é um dos principais achados do trabalho. No Cerrado, predomina a conversão da vegetação nativa para outros usos da terra; no Pantanal, destaca-se a recorrência do fogo. Para a formulação de políticas públicas, a distinção é relevante: as ferramentas para conter a supressão de vegetação — licenciamento, fiscalização, incentivos à manutenção de áreas nativas — não são as mesmas usadas para reduzir a frequência e a extensão das queimadas.
A Mata Atlântica, que ocupa uma porção menor do território sul-mato-grossense, completa a conta. Pelos números do próprio estudo, o estoque do bioma no Estado caiu de cerca de 13,7 milhões para aproximadamente 10,2 milhões de toneladas no período, uma perda em torno de 3,5 milhões de toneladas.
Inventários do licenciamento viraram base científica
Um dos diferenciais da pesquisa está na origem dos dados. Os autores utilizaram 2.662 inventários florestais associados a processos de licenciamento ambiental do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). Esses documentos, exigidos de quem pede autorização para suprimir vegetação, reúnem informações sobre as espécies encontradas em áreas nativas e os volumes de madeira estimados em campo. A partir desses registros e de dados científicos sobre a densidade da madeira de cada espécie, os pesquisadores calcularam quanto carbono é armazenado em diferentes tipos de vegetação.
Essas estimativas foram então associadas aos mapas anuais do MapBiomas, que registram as mudanças na cobertura e no uso da terra no Brasil desde 1985, e aos registros de áreas atingidas pelo fogo produzidos pela mesma iniciativa. Com isso, foi possível reconstruir a evolução dos estoques de carbono ao longo de 40 anos, identificando períodos de perda e de recuperação.
Segundo Louzada, os levantamentos disponíveis até então permitiam conhecer a quantidade estimada de carbono em determinadas áreas ou em momentos específicos. O novo estudo acrescenta uma dimensão histórica, mostrando como esse armazenamento mudou ao longo das décadas. A metodologia também permite distinguir situações que produziriam resultados semelhantes se observadas apenas no início e no fim do período: uma área que perdeu a vegetação de forma permanente tem uma dinâmica muito diferente de outra que queimou, se regenerou e voltou a ser atingida pelo fogo.
Limites das estimativas
Os autores ressaltam que os resultados são estimativas científicas e têm escopo definido. O levantamento concentrou-se no carbono armazenado na vegetação acima do solo e não incluiu diretamente os estoques existentes nas raízes e no solo. A ressalva é importante no caso do Cerrado, bioma conhecido por concentrar boa parte de sua biomassa abaixo da superfície, em sistemas radiculares profundos. Ou seja, o estudo mede uma parte — significativa, mas não a totalidade — do carbono que a vegetação nativa do Estado guarda.
Para dar uma ideia de escala, a conversão padrão de carbono em gás carbônico (multiplicando-se a massa de carbono por cerca de 3,67) indica que as 85,4 milhões de toneladas perdidas correspondem a algo em torno de 313 milhões de toneladas de CO2. O cálculo é da redação, feito apenas como referência, e não consta do estudo; ele ilustra, porém, por que o tema interessa a quem discute metas climáticas, mercado de carbono e valorização de áreas preservadas.
Restauração com conta de mitigação
Para o pesquisador, conhecer a quantidade de carbono armazenada em cada formação vegetal tem aplicação prática no planejamento de ações de conservação e restauração. As estimativas permitem avaliar, por exemplo, quanto carbono determinada área poderá voltar a estocar caso a vegetação nativa seja recuperada. “Se algo vai ser restaurado, eu tenho uma ideia de quanto aquilo vai contribuir para a mitigação climática”, afirma Louzada.
Louzada defende o manejo integrado do fogo e a recuperação de áreas degradadas como medidas centrais para a conservação da vegetação. As duas frentes dialogam diretamente com os diagnósticos do estudo: a restauração ataca o passivo deixado pela conversão de áreas no Cerrado, enquanto o manejo do fogo — que combina prevenção, queimas controladas em épocas adequadas e resposta rápida — busca interromper o ciclo de queimadas recorrentes que drena o estoque do Pantanal.
A discussão tem também um componente econômico. Mato Grosso do Sul vive um ciclo de expansão de lavouras e, principalmente, de florestas plantadas de eucalipto para a indústria de celulose, ao mesmo tempo em que tenta se posicionar em cadeias de valor ligadas à sustentabilidade, ao turismo de natureza e à rastreabilidade ambiental exigida por compradores internacionais. Dados robustos e locais sobre carbono são matéria-prima para esse posicionamento — seja para orientar projetos de restauração que gerem créditos, seja para demonstrar, com números, o valor das áreas nativas que permanecem em pé.
Próximos passos
O trabalho abre caminho para que a mesma metodologia seja usada no monitoramento contínuo dos estoques de carbono do Estado, à medida que novas coleções do MapBiomas e novos inventários do licenciamento forem incorporados. Também oferece uma linha de base para medir, no futuro, o efeito de programas de restauração, de recuperação de pastagens degradadas e de prevenção a incêndios no Pantanal.
Para o ecossistema de inovação sul-mato-grossense, o estudo reforça uma tendência: a ciência feita com dados do próprio território, combinando bases públicas, sensoriamento remoto e análise estatística, tem potencial para orientar decisões de governo, de empresas e de produtores rurais. Num Estado em que a economia depende tanto do uso da terra, saber quanto carbono foi perdido — e onde, e por quê — é o primeiro passo para decidir quanto se quer recuperar.
Fontes: Campo Grande News — “Vegetação de MS perde 34% do carbono armazenado em 40 anos” (13/10/2026): campograndenews.com.br; Campo Grande News — “Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS” (setembro/2026): campograndenews.com.br.
