Aplicativo da Prefeitura é apresentado nesta quarta-feira (4) em fórum no Paço Municipal e promete dar vitrine a hotéis, restaurantes e serviços do corredor. Na véspera, especialistas avisaram que os ganhos da rota não virão sozinhos, e um seminário gratuito no dia 10 mostra como o pequeno negócio pode se preparar.
A Prefeitura de Campo Grande apresenta nesta quarta-feira, 4 de novembro, o aplicativo Rota Bioceânica, uma plataforma para Android e iOS que reúne informações econômicas, turísticas e institucionais das cidades do Corredor Bioceânico de Capricórnio, a ligação rodoviária entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. O lançamento acontece no Fórum Internacional da Rota Bioceânica, com o tema “Campo Grande na Rota Certa”, a partir das 9h, no Teatro do Paço Municipal. O app foi desenvolvido pela Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação (Agetec) e deve listar hospedagem, restaurantes, atrações turísticas, bancos e serviços de saúde ao longo do trajeto, além de trazer cotações de câmbio em tempo real.
O lançamento ocorre um dia depois de outro encontro sobre o corredor na Capital, o II Fórum MS Sustentabilidade, em que especialistas e o Sebrae/MS alertaram que os benefícios da rota não chegarão automaticamente às cidades e aos pequenos negócios. A combinação dos dois eventos ajuda a entender o momento: a infraestrutura avança, a Capital tenta se posicionar como centro de serviços do corredor e o empresário local precisa decidir como vai aproveitar o fluxo de viajantes e cargas.
O que o aplicativo promete
Segundo a Prefeitura, o aplicativo terá uma página para cada município ou região do corredor, com dados de população, gestão local, cultura, gastronomia e agenda de eventos, incluindo fotos e descrições. Entre os recursos previstos estão previsão do tempo, calendário de eventos, cotações de câmbio em tempo real e uma seção institucional sobre o Corredor Bioceânico.
Para o empresário, o ponto mais relevante é a parte de serviços. A ferramenta vai reunir hotéis, restaurantes, atrações, instituições financeiras e estabelecimentos de saúde, e terá um selo de verificação para estabelecimentos validados. A Prefeitura descreve o app como voltado tanto a viajantes que querem conhecer as cidades, planejar deslocamentos ou procurar serviços quanto a empreendimentos locais, que ganham visibilidade.
“O aplicativo será um importante instrumento de conexão entre os países”, afirmou o secretário municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável, Ademar Silva Junior. Segundo ele, a ideia é que as pessoas “encontrem em um só lugar informações para conhecer, circular e aproveitar” as oportunidades da integração.
As informações divulgadas até a véspera do lançamento não detalham como um estabelecimento faz para aparecer no aplicativo ou obter o selo de verificação, nem se haverá versão em espanhol. São perguntas que donos de hotéis, restaurantes e agências de Campo Grande devem levar ao fórum ou à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico (Semades).
A programação do fórum
O Fórum Internacional da Rota Bioceânica reúne representantes de instituições, do setor produtivo e parceiros, com debates sobre internacionalização de negócios, atração de investimentos, integração regional, turismo e cultura local. Às 9h40, o presidente do Sistema Comércio MS (Fecomércio) e do Sindicato de Hotéis e Alimentação (Sindha), Juliano Wertheimer, fala sobre identidade visual e sinalização do corredor e seu impacto logístico e econômico. Às 10h20, Danniele Paiva, coordenadora do Projeto de Integração do Corredor Bioceânico na Semadesc, aborda integração subnacional, governança e planejamento estratégico.
O evento também terá a apresentação do Prêmio Rota Bioceânica de Jornalismo e a assinatura de dois termos de cooperação. O primeiro, com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), prevê ações conjuntas para desenvolver o corredor e projetos econômicos, produtivos e logísticos, com foco em integração aduaneira, comércio regional e na consolidação de Campo Grande como centro logístico e de negócios. O segundo, com a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos (Agems), prevê o compartilhamento de estudos técnicos e de dados tecnológicos e regulatórios para subsidiar políticas públicas.
“Campo Grande busca consolidar seu papel como centro de articulação de negócios, serviços”, disse Ademar Silva Junior ao apresentar o fórum.
O alerta da véspera: a rota não entrega resultado sozinha
Na terça-feira, 3, o II Fórum MS Sustentabilidade, realizado no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, discutiu como transformar o corredor em vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental. O tom foi de cautela.
O economista Jaime Verruck, ex-secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, defendeu que a rota seja apresentada à Ásia como projeto de desenvolvimento, e não apenas como atalho logístico. “Nós temos que apresentar a rota para o mercado asiático enquanto um instrumento de atração de investimento”, afirmou, segundo o Campo Grande News. Ele também foi direto sobre o estágio das obras: “A infraestrutura ainda não está pronta. Ela está toda contratada, toda estruturada, mas ela não está pronta”.
Para Verruck, a redução do custo de frete e o acesso mais rápido à China não bastam. As cidades precisariam de políticas próprias para atrair empresas e qualificar mão de obra, e os quatro países podem acabar disputando os mesmos investimentos, o que pede um mapeamento das vocações de cada território. “Somos nós que vamos determinar se a rota será somente um corredor de exportação”, disse.
O ex-secretário apontou ainda ritmos diferentes entre os países: o Paraguai avança rápido, o acesso brasileiro à ponte sobre o Rio Paraguai anda mais devagar, a Argentina tem obras pendentes e o Chile precisa adequar seus portos. O acesso à ponte em Porto Murtinho é justamente a obra que o TCU colocou no topo das prioridades do país para 2027, como mostrou a reportagem Porto Murtinho: TCU põe acesso à Rota Bioceânica no topo das obras do país para 2027.
Sebrae quer qualificar quem já está no território
No mesmo fórum, o diretor de Operações do Sebrae/MS, Tito Estanqueiro, resumiu a preocupação de quem trabalha com pequenos negócios. “É muito importante qualificar os empreendedores que estão no território, porque, quando surgir um mercado, os de fora vão querer absorver esse mercado”, afirmou. Segundo ele, o Sebrae/MS pretende intensificar em 2027 a qualificação de pequenos negócios ao longo do corredor, em parceria com associações comerciais, sindicatos rurais e prefeituras, e vê no turismo de Jardim, Bonito e Porto Murtinho as oportunidades mais imediatas.
O tema já vinha aparecendo em ações do Sebrae com a ApexBrasil, que levaram pequenos empresários a olhar o Paraguai como mercado, assunto de Com a Rota Bioceânica no horizonte, Paraguai entra no radar dos pequenos negócios de MS.
Também no fórum, Fábio Roberto Cordeiro, do Escritório Comercial de Tarapacá, do Chile, em Campo Grande, lembrou que o funcionamento do corredor depende de medidas conjuntas dos quatro países, além das obras. Segundo ele, a Receita Federal fez uma expedição às estruturas aduaneiras para identificar gargalos e avaliar a harmonização de procedimentos. O Movimento Nacional ODS/MS informou que o Desafio dos ODS no Corredor Bioceânico recebeu mais de 40 trabalhos, dos quais 12 foram apresentados e três foram escolhidos como vencedores.
Seminário gratuito no dia 10 mira economia criativa
Para quem quer sair da discussão e partir para a prática, há uma agenda próxima e gratuita. O seminário Conexões Criativas acontece em 10 de novembro, das 13h às 18h30, no auditório do Bioparque Pantanal, em Campo Grande, com foco em empreendedores que querem ganhar dinheiro com cultura, artesanato, moda, gastronomia e outras atividades criativas. O evento é aberto ao público, e a inscrição é feita por formulário on-line divulgado pela organização.
A programação, segundo o JD1 Notícias, inclui painéis sobre economia criativa e bioeconomia (14h), mercados criativos (15h) e, às 16h30, um painel específico sobre a Rota Bioceânica, com Sandra Amarilha, Daniele Paiva e Cristiane Viegas. Às 17h30, o tema é a música como motor da economia, e o encerramento, às 18h30, terá a leitura da Carta MS Criativo 2030. Haverá ainda apresentações da Orquestra Jovem e do Corpo de Dança do Sesc/MS no intervalo.
O que o empresário pode fazer agora
Para o dono de hotel, restaurante, agência ou loja em Campo Grande e nas cidades do corredor, o recado das duas discussões é parecido: o fluxo de pessoas e mercadorias tende a crescer, mas a fatia que fica na economia local depende de preparo. Algumas medidas estão ao alcance de imediato: acompanhar a abertura do aplicativo e entender como o negócio pode ser listado e verificado, preparar atendimento e cardápios em espanhol, aceitar meios de pagamento usados por paraguaios, argentinos e chilenos e procurar as capacitações do Sebrae/MS.
A dimensão turística do corredor também ganhou novo impulso nesta semana, com a articulação do Ministério do Turismo para criar um roteiro rodoviário entre os quatro países, tema de Rota Bioceânica pode virar roteiro turístico de 4 países com Bonito e Pantanal na vitrine. O aplicativo da Prefeitura entra nesse contexto como uma das primeiras ferramentas concretas para que o viajante encontre o comércio e os serviços locais.
Os próximos passos de governança estão no Fórum de Governadores da Rota Bioceânica, que, segundo Verruck, tem previsão de assinatura de 17 protocolos em encontro em Antofagasta, no Chile. O Empreenda MS vai acompanhar o lançamento do aplicativo e os desdobramentos dos acordos assinados no fórum desta quarta-feira.
Leia também
Rota Bioceânica: PRF prevê posto em Porto Murtinho e treina policiais de 4 países
Países da Rota Bioceânica já movimentam 29% do comércio exterior de Campo Grande
Fontes
A Crítica de Campo Grande: Campo Grande apresenta nesta quarta (4) o aplicativo da Rota Bioceânica
Portal Rota Bioceânica (com informações da Prefeitura de Campo Grande): Campo Grande realiza Fórum da Rota Bioceânica
Campo Grande News: Fórum debate como conciliar avanço da Rota Bioceânica com sustentabilidade em MS
A Gazeta de Dourados (texto do Campo Grande News): “Precisamos apresentar a Rota Bioceânica ao mercado asiático”, diz Verruck
JD1 Notícias: Seminário gratuito terá dicas para empreendedores sobre oportunidades da Rota Bioceânica
