Programa PANTEQ, coordenado em Aquidauana, vai pesquisar saúde dos peixes, extratos naturais e qualidade da carne e levar as técnicas a pequenos produtores, num Estado em que o peixe nativo ainda é menos de 1% do abate
A UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) aprovou um projeto de R$ 4.442.638,94 para desenvolver novas tecnologias de criação de pacu em Mato Grosso do Sul. Batizado de PANTEQ (Programa de Avanço Tecnológico de Espécies Piscícolas do Pantanal), o programa foi contemplado em chamada pública da Finep, agência ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e será executado em parceria com a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A aprovação foi noticiada pelo Campo Grande News no domingo (1º).
A coordenação ficará com a professora Cristiane Meldau de Campos Amaral, na unidade da UEMS em Aquidauana, cidade que é uma das portas de entrada do Pantanal sul-mato-grossense. Além da pesquisa científica, o projeto prevê levar os resultados a agricultores familiares e pequenos produtores rurais, o que dá à iniciativa um viés de desenvolvimento regional e de geração de renda no campo.
Cinco frentes de pesquisa
O trabalho foi dividido em cinco frentes, que acompanham o pacu desde o viveiro até o prato do consumidor.
A primeira trata da sanidade: desenvolver técnicas para prevenir doenças e melhorar o manejo dos peixes durante a criação. Perdas por doença estão entre os principais fatores que encarecem a produção e desestimulam pequenos piscicultores.
A segunda vai estudar o uso de produtos naturais, como óleos essenciais e extratos de plantas, para reduzir o estresse dos animais e contribuir para a saúde dos peixes. A linha dialoga com a demanda crescente por pescado produzido com menos insumos químicos.
A terceira frente se dedica à conservação do pescado e à qualidade da carne, etapa decisiva para que o produto chegue ao mercado com padrão e prazo de validade compatíveis com redes varejistas.
A quarta prevê testar as tecnologias diretamente em propriedades rurais, saindo do laboratório para as condições reais de produção.
A quinta é voltada à capacitação de agricultores familiares, técnicos e estudantes, com a produção de materiais educativos e manuais para orientar os produtores sobre as técnicas de criação.
Pesquisa que precisa chegar ao produtor
A parceria reúne professores da UEMS em Aquidauana e pesquisadores da UFMS em Campo Grande para desenvolver estudos e testar soluções aplicáveis à piscicultura. Segundo o coordenador do Núcleo de Inovação Tecnológica da UEMS, Fábio dos Santos Barros, a iniciativa busca transformar pesquisas acadêmicas em soluções que atendam às necessidades dos produtores.
Esse é o ponto que interessa ao ecossistema de inovação de Mato Grosso do Sul. Recursos de agências federais como a Finep costumam ter como contrapartida a geração de tecnologia com potencial de uso econômico. No caso do PANTEQ, o caminho previsto é a transferência direta do conhecimento a quem cria peixe, por meio de testes em propriedades e capacitação.
A expectativa, segundo a universidade, é que os resultados contribuam para fortalecer a criação de espécies nativas, ampliar as oportunidades para a agricultura familiar e estimular a produção de pescado no Estado.
Por que o pacu
O pacu é uma espécie nativa da bacia do Rio Paraguai, a mesma que forma o Pantanal, e é conhecido pela carne gordurosa e saborosa, usada em cortes, costelinha e bolinhos. É, ao lado do pintado, um dos símbolos da culinária pantaneira e um dos peixes mais pedidos em feiras e pastelarias de Campo Grande.
Apesar da identidade regional, a criação comercial de espécies nativas ainda ocupa espaço pequeno em Mato Grosso do Sul. A piscicultura do Estado cresceu puxada pela tilápia, espécie exótica de manejo já dominado e com cadeia industrial estruturada. Segundo dados da Semadesc e da Superintendência Federal de Pesca e Aquicultura citados pelo portal A Crítica em setembro, MS produziu mais de 53 mil toneladas de peixe de cultivo em 2025, das quais cerca de 38,7 mil toneladas de tilápia, ou 73% do total. O Anuário 2026 da Peixe BR, com metodologia própria, registrou 40.620 toneladas no Estado em 2025, alta de 0,30% sobre o ano anterior, também com predomínio da tilápia.
Peixe nativo ainda é nicho
A distância entre o potencial e a realidade aparece nos números do abate. A Pirakuá Pescados, de Três Lagoas, apontada pelo superintendente federal de Pesca e Aquicultura em MS, Marcelo Heitor, como o único frigorífico do Estado que abate peixe nativo, processa cerca de 240 toneladas por ano. O volume equivale a menos de 0,5% da produção estadual, segundo o levantamento publicado pelo A Crítica.
A empresa desenvolveu produtos como costelinha sem espinha, versões empanadas e bolinho de pacu, e busca espaço em redes atacadistas de São Paulo. O caso mostra que existe demanda por produtos de maior valor agregado com peixe pantaneiro, mas também que a oferta de matéria-prima ainda é limitada.
A operação dá uma ideia da escala de uma cadeia de nativos. Segundo o levantamento, a unidade usa cerca de 390 toneladas de ração e 150 mil alevinos por ano, e cerca de 90% da mão de obra do frigorífico é formada por mulheres, de acordo com Marcelo Heitor. Ao apresentar produtos como o bolinho de pacu durante a Semana do Pescado, em setembro, o proprietário Luiz Acorci resumiu a aposta: “Mais uma inovação com peixe nativo, com o peixe pantaneiro nosso. Isso não existia.”
A mesma campanha mostrou o interesse do consumidor. A associação de comerciantes do Mercadão Municipal de Campo Grande relatou alta de 30% a 35% nas vendas de peixe na primeira quinzena de setembro em comparação com o mesmo período de agosto, acima da previsão inicial de até 15%. O número vale para todos os peixes, não só para os nativos, e reflete a avaliação dos próprios comerciantes, mas sinaliza que há público para o pescado regional quando ele chega ao balcão com preço e apresentação adequados.
É nessa lacuna que pesquisas como o PANTEQ podem fazer diferença. Melhorar a sanidade, reduzir perdas e padronizar a qualidade da carne são condições para que mais produtores invistam em espécies nativas e para que frigoríficos tenham volume regular para abastecer o varejo.
Tilápia lidera, nativos buscam espaço
A força da tilápia em MS foi reforçada recentemente pela entrada de grandes grupos cooperativos. Como mostrou o empreendams.com, a Aurora Coop comprou o frigorífico de peixes de Itaporã e coloca a produção própria de peixes em seu portfólio. A tilápia de MS também tem forte inserção externa, com os Estados Unidos como principal comprador.
Os peixes nativos jogam em outro campeonato. O apelo está menos no volume e mais na origem, na gastronomia regional e no turismo. Bonito e o Pantanal recebem centenas de milhares de visitantes por ano, e a culinária com pacu e pintado faz parte da experiência vendida a esses turistas. Uma cadeia de criação mais organizada pode reduzir a pressão sobre a pesca e garantir oferta estável a restaurantes e hotéis.
Para a agricultura familiar, a piscicultura de nativos pode ser alternativa de diversificação em propriedades pequenas, desde que o produtor tenha acesso a técnica, alevinos, ração e mercado. É exatamente a etapa de técnica e capacitação que o projeto da UEMS pretende atacar.
Ciência aplicada no interior
O fato de o projeto ser coordenado em Aquidauana também tem peso. A interiorização da pesquisa aproxima universidades dos territórios produtivos e cria oportunidades para estudantes e técnicos da região. O desenho do PANTEQ prevê a formação de estudantes e técnicos, o que pode ampliar a mão de obra qualificada para a piscicultura no interior.
Iniciativas do tipo se somam a outras frentes do ecossistema de inovação do Estado, que tem buscado aproximar pesquisa, empresas e produtores. Em outubro, o i9-67 reuniu Sebrae/MS, Semadesc e Fundect para discutir inovação em pequenos negócios e ecossistemas locais, como mostrou o empreendams.com em reportagem sobre os resultados do i9-67.
Próximos passos
Com os recursos aprovados pela Finep, a próxima etapa é a execução das cinco frentes de trabalho, com pesquisas em laboratório, testes em propriedades e produção dos materiais de capacitação. O cronograma detalhado e o número de produtores que serão atendidos não foram divulgados. Pesquisadores de outras instituições e empresas de MS interessados em recursos semelhantes podem acompanhar as chamadas públicas da Finep, que financia projetos de ciência, tecnologia e inovação em todo o país.
Para quem cria ou pensa em criar peixe em Mato Grosso do Sul, vale acompanhar as ações de extensão da UEMS em Aquidauana e da UFMS, que devem incluir manuais e cursos. Para frigoríficos, restaurantes e empresas de alimentos, o projeto pode representar, no médio prazo, uma oferta maior e mais padronizada de pacu, matéria-prima com forte identidade regional e espaço para produtos de maior valor agregado.
Se as tecnologias desenvolvidas chegarem ao campo, o pacu pode deixar de ser apenas um prato típico e se tornar uma cadeia produtiva relevante para a economia do Pantanal e do interior do Estado.
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Fontes
Campo Grande News: https://www.campograndenews.com.br/educacao-e-tecnologia/pesquisa-de-r-4-4-milhoes-aposta-na-criacao-de-pacu-no-pantanal
A Crítica: https://acritica.net/economia/semana-do-pescado-2026-ms-vendas-alta-35-por-cento-peixe-nativo/
O Presente Rural: https://opresenterural.com.br/tilapia-sustenta-crescimento-da-piscicultura-em-mato-grosso-do-sul/
