Projetos apresentados ao Codecon somam R$ 25,2 milhões em investimentos fixos e 99 empregos diretos previstos na Capital; conselho também libera a Vó Ermínia Alimentos, empresa que nasceu na incubadora municipal, para ampliar a fábrica no Polo Empresarial Paulo Coelho Machado
Uma fábrica de fertilizantes, um laticínio de cooperativa da agricultura familiar e empresas de panificação, atacado de carnes e transporte rodoviário de cargas querem se instalar ou crescer em Campo Grande com apoio da prefeitura. Os projetos, que somam R$ 25,2 milhões em investimentos fixos e prometem 99 empregos diretos, foram apresentados na quarta-feira (14) à 214ª reunião ordinária do Codecon (Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico), no âmbito do Prodes (Programa de Incentivos para o Desenvolvimento Econômico e Social de Campo Grande). Entre os benefícios pedidos está a concessão de áreas públicas, prevista na legislação municipal.
Os valores e as vagas são previsões dos próprios empreendedores e dependem da implantação efetiva dos negócios. Ainda assim, a carteira ajuda a mostrar como a política de incentivos da Capital vem sendo usada por empresas de pequeno e médio porte, ao lado dos grandes projetos industriais e logísticos que marcaram as reuniões anteriores do conselho.
A carteira reúne cinco segmentos: comércio atacadista de carnes, indústria de panificação, fertilizantes, transporte rodoviário de cargas e produtos lácteos. Dois projetos foram detalhados publicamente; os outros três, que somam cerca de R$ 17 milhões e 64 das vagas previstas, não tiveram os nomes das empresas divulgados no material sobre a reunião.
Pelo Prodes, as empresas podem receber incentivos como a concessão ou doação de terrenos nos polos empresariais, mas precisam assumir contrapartidas ligadas ao volume investido, à implantação do projeto e à geração e manutenção dos empregos prometidos. Antes da concessão, as propostas passam por análise técnica da Semades e pelo Codecon.
Fertilizantes de olho no corredor do agro
O maior investimento individual detalhado na reunião é o da Oscarpes Fertilizantes Ltda., que pretende aplicar R$ 5 milhões em uma fábrica na Capital e contratar 20 trabalhadores. Segundo a CEO e sócia da empresa, Taina Carpes Ely, a localização de Campo Grande e a proximidade com o mercado do agronegócio pesaram na decisão.
“A cidade é um grande corredor para o agronegócio, tem um mercado importante e oferece condições para fazermos a região crescer, gerar empregos e trazer inovação e tecnologia para o setor”, afirmou a empresária, segundo o Campo Grande News.
A aposta faz sentido num Estado em que soja, milho, cana e eucalipto ocupam áreas crescentes e demandam insumos em grande volume. Produzir fertilizantes perto das lavouras reduz custos de frete e prazos de entrega, um argumento que tem atraído investimentos em diferentes elos da cadeia agroindustrial de Mato Grosso do Sul.
Laticínio para agregar valor ao leite familiar
Na cadeia do leite, a proposta veio da Cooplaf (Cooperativa Agrícola Mista da Pecuária de Corte e Leiteira e da Agricultura Familiar), que quer construir um laticínio com investimento de R$ 3,2 milhões e previsão de 15 empregos diretos. Somados, o projeto da cooperativa e o da fábrica de fertilizantes representam R$ 8,2 milhões e 35 vagas — cerca de um terço dos recursos e dos empregos apresentados na reunião.
O impacto esperado vai além das vagas na unidade. Com uma estrutura própria de processamento, a cooperativa pode transformar o leite cru em derivados, agregar valor à produção e ampliar as possibilidades de comercialização para os produtores familiares associados. Segundo a presidente da Cooplaf, Maria Neuzira Cardoso da Silva Garcia, a concessão da área é importante para viabilizar o empreendimento e estimular a renda das famílias que trabalham com a produção leiteira.
O projeto dialoga com uma agenda que tem ganhado espaço em Mato Grosso do Sul: a de abrir mercados para a agricultura familiar. Neste mês, o Empreenda MS mostrou como chamadas públicas da merenda escolar em São Gabriel do Oeste e Jaraguari destinaram mais de R$ 500 mil a pequenos produtores. Ter um laticínio cooperativo na Capital pode, no futuro, ampliar a oferta de produtos processados aptos a disputar esse tipo de compra pública.
Da incubadora municipal a 11 estados
A reunião também tratou de quem já está instalado. O Codecon aprovou a baixa da cláusula de reversão de uma área ocupada pela Vó Ermínia Alimentos no Polo Empresarial Paulo Coelho Machado, onde a empresa funciona desde 2011. A cláusula prevê a possibilidade de o imóvel voltar ao município caso as condições da concessão não sejam cumpridas; com a baixa, a empresa passa a ter mais segurança para investir no terreno.
Segundo o gestor Gabriel Ferreira Galvanin, os compromissos assumidos pela empresa já haviam sido cumpridos. “Agora conseguimos investir mais no imóvel e ampliar a estrutura, que já está precisando de melhorias”, disse ao Campo Grande News. O valor de uma eventual nova expansão não foi informado.
A trajetória da Vó Ermínia é um exemplo de como diferentes instrumentos de apoio ao empreendedorismo podem se encadear ao longo do tempo. De origem familiar, a empresa começou na produção rural, passou pela incubadora municipal antes de consolidar a atividade industrial e hoje atende mercados de 11 estados.
Uma política com duas frentes
A decisão sobre a Vó Ermínia repete um movimento visto na reunião anterior do conselho, a 213ª, realizada em 12 de agosto. Na ocasião, o Codecon aprovou a baixa da cláusula de reversão da Nutrição Animal MSX, fabricante de ração e suplementos instalada há mais de 20 anos no Polo Empresarial Norte. Quando recebeu o benefício, a empresa havia se comprometido a investir R$ 650 mil; ao longo de duas décadas, o valor aplicado ultrapassou R$ 2 milhões.
“O grande problema era a cláusula de reversão, que não permitia que o empresário tivesse a propriedade efetiva do seu investimento e pudesse ampliar sua produção”, explicou, na época, o assessor jurídico das Associações dos Polos Empresariais Norte e Oeste, Evaldo Mesquita.
Na mesma reunião de agosto, o conselho aprovou a doação de uma área de 5 mil metros quadrados para a Motirô Dermocosméticos, que prevê investir R$ 4,5 milhões em uma unidade de cosméticos e perfumaria, criar 50 empregos diretos e manter outros 11, com faturamento anual estimado em R$ 7,2 milhões. O sócio Marcos Aurélio Leite de Brito citou a posição central da Capital no Estado e a possibilidade de trocar imóveis alugados por sede própria como fatores decisivos.
Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável, Ademar Silva Junior, as duas frentes — atrair novos investimentos e consolidar empresas que já estão na cidade — fazem parte da mesma estratégia. “Ao mesmo tempo, também precisamos reconhecer e dar segurança para as empresas que já acreditaram na Capital, investiram aqui e construíram sua trajetória”, afirmou em agosto.
Carteira de R$ 460 milhões em 2026
Os projetos apresentados nesta semana se somam a uma carteira mais ampla. Em agosto, quando Campo Grande completou 127 anos, a prefeitura informou que o Codecon havia analisado cerca de R$ 460,5 milhões em investimentos privados ao longo de 2026, com previsão inicial de 265 empregos diretos. Entre os empreendimentos estavam uma indústria de hidrogênio verde e e-metanol, um grande grupo de panificação e um novo centro de distribuição de medicamentos.
Estudos técnicos da Semades estimaram, à época, que apenas dois desses empreendimentos poderiam movimentar entre R$ 43 milhões e R$ 120 milhões por ano na economia da cidade, com impacto de R$ 5 milhões a R$ 16 milhões anuais em receitas tributárias indiretas. “Nosso objetivo não é apenas conceder incentivos, mas atrair empresas que deixem um legado para Campo Grande”, disse Ademar Silva Junior naquela ocasião.
Acompanhamento e transparência
A reunião de quarta-feira também discutiu como fiscalizar os benefícios já concedidos. O secretário propôs que os conselheiros façam visitas técnicas aos polos empresariais e às empresas atendidas pelo Prodes, para verificar os investimentos, conhecer as condições de funcionamento e identificar demandas de infraestrutura. Também foram sugeridas reuniões itinerantes nas entidades que integram o conselho e a apresentação de um relatório das atividades do programa à Câmara Municipal.
A medida responde a uma lacuna apontada na cobertura da imprensa local: o material divulgado sobre a reunião não detalha o cronograma de implantação dos novos projetos, os prazos das contratações nem o valor das áreas solicitadas. São informações necessárias para medir a contrapartida pública e acompanhar quanto das promessas se transforma, de fato, em investimento e emprego.
Próximos passos
Os pedidos apresentados ainda seguem o rito do Prodes: análise técnica da Semades, deliberação do Codecon e, nos casos previstos em lei, aprovação legislativa. Se aprovados e implantados, a fábrica de fertilizantes, o laticínio da Cooplaf e os demais empreendimentos reforçam a tentativa de Campo Grande de diversificar uma economia historicamente concentrada em comércio e serviços, usando a posição logística no centro do Estado para atrair indústrias de transformação ligadas ao agro. O desafio, como mostram os casos da Vó Ermínia e da Nutrição Animal MSX, é transformar o incentivo inicial em negócios que se sustentem e cresçam por décadas.
Fontes: Campo Grande News — De fertilizantes a laticínio, projetos preveem R$ 25,2 milhões na Capital (15/10/2026); Indústria de cosméticos ganha incentivo para investir R$ 4,5 milhões na Capital (13/08/2026); Novos projetos somam R$ 460 milhões e prometem 265 empregos na Capital (10/08/2026).
