Roadshow de 19 e 20 de outubro apresenta ao mercado o pacote que leva Bonito, Dourados e Três Lagoas para a concessão do Aeroporto de Brasília, com leilão em 17 de dezembro; no mesmo dia em que o projeto foi detalhado, o governo federal pôs a Malha Oeste na carteira ferroviária de 2027, com edital em abril e aporte público para recuperar a ferrovia
Mato Grosso do Sul entra na próxima semana em uma vitrine decisiva para a sua infraestrutura de transporte. Nos dias 19 e 20 de outubro, o Ministério de Portos e Aeroportos, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e a Seppi (Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos da Casa Civil) apresentam a potenciais investidores o projeto de repactuação da concessão do Aeroporto Internacional de Brasília, que incorpora dez terminais regionais — entre eles os de Bonito, Dourados e Três Lagoas. O leilão está marcado para 17 de dezembro de 2026. Quase ao mesmo tempo, na quinta-feira (15), o governo federal incluiu a Malha Oeste, ferrovia que liga Corumbá (MS) a Mairinque (SP), na carteira de 18 projetos ferroviários previstos para 2027, com edital programado para abril e leilão para agosto.
As duas agendas, uma aérea e outra sobre trilhos, têm em comum o modelo: o poder público tenta atrair capital privado para ativos que, sozinhos, não se pagam. No caso dos aeroportos, por meio do chamado subsídio cruzado com um terminal rentável; no caso da ferrovia, com recursos públicos vinculados, garantias e crédito de longo prazo do BNDES.
Como será o roadshow
O roadshow é a etapa em que o governo apresenta o projeto ao mercado antes da disputa, detalha as condições da concessão e responde a dúvidas de empresas e grupos interessados. Segundo informações divulgadas pela organização e publicadas pelo Campo Grande News, os encontros serão individuais e terão duração de até 60 minutos. Na segunda-feira (19), as reuniões serão presenciais, na sede da Anac em São Paulo; na terça-feira (20), ocorrerão de forma virtual. As inscrições para participar foram abertas por formulário eletrônico e vão até esta sexta-feira (16).
A repactuação do contrato de Brasília prevê cerca de R$ 2,06 bilhões em investimentos. Desse total, R$ 1,2 bilhão vai para o aeroporto da capital federal, que deve ganhar um novo píer internacional, um edifício-garagem e uma nova via de acesso, e R$ 857,8 milhões serão destinados aos dez aeroportos regionais, para expansão, manutenção e operação. A concessão do terminal de Brasília segue até 2037, e os aeroportos regionais passam a fazer parte do mesmo contrato pelo prazo remanescente.
O que está previsto para Bonito, Dourados e Três Lagoas
Os três terminais sul-mato-grossenses aparecem na relação oficial do edital, publicado pela Anac em 9 de setembro, pelos códigos SBDB (Bonito), SBDO (Dourados) e SBTG (Três Lagoas). Além deles, o pacote regional reúne Alto Paraíso de Goiás e São Miguel do Araguaia, em Goiás; Barreiras, na Bahia; Cáceres, Juína e Tangará da Serra, em Mato Grosso; e Ponta Grossa, no Paraná.
Quando o projeto foi encaminhado para consulta pública, em junho, a estimativa era de que os três aeroportos de Mato Grosso do Sul recebessem R$ 270,2 milhões do total previsto para os regionais — quase um terço do valor. O número, porém, ainda pode mudar. O modelo prevê uma etapa de Diagnóstico Inicial, em que a futura concessionária avaliará as condições físicas e fundiárias de cada terminal antes da definição final das obras. Os investimentos adicionais só começam depois da manifestação final do poder público sobre esse relatório.
O Plano de Exploração Aeroportuária (PEA) dos regionais classifica Bonito, Dourados e Três Lagoas na Faixa 3 de infraestrutura, a mesma de Barreiras e Ponta Grossa. A faixa define os parâmetros mínimos que cada terminal precisa atender: capacidade de processamento de passageiros e bagagens, áreas mínimas para saguões, filas de check-in, inspeção de segurança e salas de embarque e desembarque, além de intervenções em estacionamento, vias de acesso, pistas e pátios de aeronaves.
Os prazos também estão no edital. Em Bonito e Dourados, a concessionária terá 36 meses para concluir os investimentos tanto do chamado lado terra (terminal, acessos e estacionamento) quanto do lado ar (pistas, pátios e área de movimento das aeronaves). Em Três Lagoas, o prazo é de 36 meses para o lado terra e de 60 meses para o lado ar.
Subsídio cruzado e o Programa Ampliar
A inclusão dos terminais de Mato Grosso do Sul faz parte do Ampliar (Programa de Investimentos Privados em Aeroportos Regionais), do Ministério de Portos e Aeroportos. A lógica do programa é transferir para grandes concessionárias a gestão de aeroportos de menor porte, que têm viabilidade financeira negativa, atrelando-os a ativos mais rentáveis por meio da revisão das obrigações contratuais. Em outras palavras, o movimento de Brasília ajuda a pagar a modernização de pistas e terminais no interior.
O caminho até o leilão começou com a solução consensual aprovada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) em abril, para reequilibrar o contrato do Aeroporto de Brasília. Em junho, a Anac abriu consulta pública de 45 dias sobre a minuta do edital, que admite a participação da Inframérica, atual administradora do terminal da capital federal. O edital definitivo saiu em setembro.
Em nota enviada ao Campo Grande News à época da consulta pública, o ministério afirmou que a inclusão dos aeroportos regionais foi construída em diálogo com os governos estaduais e que a concessão deve ampliar a capacidade de investimento e modernizar a infraestrutura. “O Ministério de Portos e Aeroportos e os demais órgãos do setor trabalham continuamente na estruturação de projetos que conciliem atratividade para investidores, sustentabilidade econômico-financeira e fortalecimento da conectividade regional”, informou a pasta, ressaltando que o interesse do mercado só poderia ser medido após a publicação das condições definitivas.
Há ainda uma questão em aberto no plano estadual. Antes da inclusão dos três terminais no pacote federal, o governo de Mato Grosso do Sul estudava licitar uma carteira própria de nove aeroportos regionais, por meio do Escritório de Parcerias Estratégicas (EPE), em parceria com a estatal Infra S.A. Em junho, o escritório não informou se a proposta seria mantida nem qual seria o novo desenho diante da concessão federal.
Malha Oeste ganha calendário e aporte público
Nos trilhos, a novidade veio de São Paulo. Na quinta-feira (15), em evento na B3, o ministro dos Transportes, George Santoro, e o secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, lançaram a carteira de concessões rodoviárias e ferroviárias de 2027, que soma R$ 262,6 bilhões em investimentos — R$ 102,68 bilhões em 11 contratos rodoviários e R$ 160 bilhões em 18 projetos ferroviários. A Malha Oeste está na lista, com edital previsto para abril e leilão para agosto de 2027.
O que muda em relação à cobertura anterior do Empreenda MS, de 23 de setembro, é o desenho financeiro e o calendário. Naquela ocasião, a ANTT falava em edital até dezembro e leilão até o fim do primeiro semestre de 2027. Agora, o governo assumiu publicamente que a recuperação da ferrovia de cerca de 1.900 quilômetros terá recursos públicos, embora os valores ainda não tenham sido divulgados, e empurrou o leilão para agosto.
“No caso da Malha Oeste, em que os aportes serão públicos, estruturamos uma vinculação de recursos que nos permite monitorar exatamente quanto o setor ferroviário está arrecadando”, afirmou Ribeiro, segundo o Campo Grande News. O mecanismo, chamado de contas vinculadas, usa recursos de contratos maduros para bancar novos projetos. “Quando falamos em contas vinculadas e investimentos cruzados, estamos falando de viabilizar aportes sem onerar o orçamento, dentro do que a lei já autoriza”, disse o secretário.
O modelo, inspirado no setor rodoviário, prevê uma matriz de riscos em que a União compartilha responsabilidades sobre construção e licenciamento. “O poder público assume o risco do licenciamento ambiental para dar segurança à iniciativa privada de que os projetos estão ambientalmente licenciados”, explicou Ribeiro. Santoro, que se reuniu com o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, disse que as linhas de crédito poderão ter prazo de até 40 anos. A carteira também conta com garantias do FDIRS (Fundo de Desenvolvimento da Infraestrutura Regional Sustentável) e com blended finance, que mistura capital público ou filantrópico com recursos privados.
Toda a modelagem passará pelo TCU, com julgamento final esperado para novembro, segundo o ministro. O plano de outorga da Malha Oeste, orçado em até R$ 29 bilhões, foi aprovado pelo Ministério dos Transportes em junho e já está em análise na corte de contas.
Enquanto o leilão não chega, a ferrovia segue em transição. O contrato da Rumo terminou em 30 de junho, após 30 anos, e a empresa firmou com a ANTT um acordo de 180 dias que prevê até R$ 26,9 milhões em créditos para manutenção e conservação. Em paralelo, o DNIT abriu licitação de até R$ 212,55 milhões para contratar manutenção, conservação e vigilância por até 36 meses. Entre os grupos que manifestaram interesse estão a J&F e as concessionárias Rumo, MRS e FCA; o interesse chinês, segundo o Campo Grande News, segue genérico desde o roadshow feito na China em junho.
Próximos passos
O calendário dos próximos meses é decisivo para a logística de Mato Grosso do Sul: roadshow dos aeroportos em 19 e 20 de outubro, julgamento do TCU sobre a carteira ferroviária em novembro, leilão do pacote de Brasília em 17 de dezembro, edital da Malha Oeste em abril e leilão da ferrovia em agosto de 2027. Se os cronogramas forem cumpridos, o Estado terá, em menos de um ano, novos operadores privados responsáveis por três de seus principais aeroportos regionais e pela ferrovia que conecta Corumbá e a fronteira boliviana ao interior paulista — duas peças que se somam à Rota Bioceânica e à hidrovia do Rio Paraguai na estratégia de transformar Mato Grosso do Sul em um corredor logístico do continente.
Fontes: Campo Grande News — Pacotão de concessão com 3 aeroportos de MS será apresentado a investidores (15/10/2026); Terminais de MS vão a leilão em dezembro no pacotão do Aeroporto de Brasília (09/09/2026); Anac prepara consulta pública para privatizar 3 aeroportos de Mato Grosso do Sul (19/06/2026); Governo prevê aporte público para recuperar Malha Oeste e prepara leilão em 2027 (16/10/2026).
