Pesquisa do Sebrae/MS e do Sistema Comércio MS projeta alta de 33% sobre 2025, com gasto médio de R$ 568,90 por consumidor, enquanto o IBGE aponta Mato Grosso do Sul na liderança nacional das vendas do varejo ampliado em julho
O Dia das Crianças de 2026 deve movimentar R$ 491,29 milhões na economia de Mato Grosso do Sul, somadas as compras de presentes e os gastos com comemorações. O número, divulgado nesta semana pelo Sebrae/MS e pelo Sistema Comércio MS, por meio do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPF-MS), representa crescimento de 33% em relação ao volume registrado no ano anterior e coloca a data comemorativa como um dos principais testes do varejo sul-mato-grossense no segundo semestre. A projeção chega justamente no momento em que o Estado aparece na liderança nacional de crescimento das vendas do comércio varejista ampliado, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE referente a julho.
A combinação entre expectativa de consumo aquecido e indicadores oficiais em alta desenha um cenário favorável para o pequeno e médio empresário do comércio, mas também impõe uma exigência prática: preparar estoque, vitrine, atendimento e formas de pagamento para capturar uma demanda que, segundo a própria pesquisa, continua majoritariamente presencial e concentrada nas lojas de rua.
Presentes concentram mais da metade do bolo
Do total estimado de R$ 491,29 milhões, a maior parcela será direcionada aos presentes, que devem movimentar R$ 276,87 milhões. A intenção de presentear foi confirmada por 62,58% dos entrevistados, que pretendem gastar, em média, R$ 289,52 com os itens. Já as comemorações — refeições, passeios e encontros familiares — devem injetar outros R$ 214,42 milhões na economia estadual, com 40,80% dos consumidores planejando celebrar a data e ticket médio de R$ 279,39 para essa finalidade.
Somando as duas frentes, o gasto médio total projetado chega a R$ 568,90 por consumidor. É um patamar que ajuda a explicar por que a data se tornou relevante para segmentos que vão muito além das lojas de brinquedos, alcançando calçadistas, confecções, papelarias, supermercados e o setor de alimentação fora do lar.
O levantamento mostra ainda a hierarquia das preferências. Os brinquedos seguem como escolha absoluta, liderando a intenção de compra de 72% dos consumidores, seguidos por calçados, tênis e chuteiras, com 17%. A pesquisa também revela quem decide: para 53,94% dos compradores, a escolha final do produto é da própria criança. O filho é o principal presenteado, com 48,54% das indicações, seguido por sobrinhos (27,13%) e netos (23,06%).
Loja física, Pix e desconto à vista
O comportamento de compra apontado pelo estudo reforça o peso do comércio de rua no Estado. As lojas físicas da região central concentram a preferência de 67,34% do público que pretende ir às compras, enquanto 17,73% optarão pelo comércio de bairro — um dado que pesa diretamente sobre a estratégia de pequenos lojistas, que competem com marketplaces e grandes redes.
Na hora de fechar a conta, o fator decisivo será o desconto no pagamento à vista, exigência de 66,26% dos entrevistados. A modalidade favorita de pagamento é o Pix, com 39,45%, seguida pelo cartão de crédito parcelado (20,71%) e pelo dinheiro em espécie (19,7%). A liderança do Pix sobre o crédito parcelado indica um consumidor que busca preço final menor e evita alongar dívidas, num ambiente de juros ainda elevados.
“Este é um período bastante oportuno para o empresário se preparar e atrair o consumidor, visto que temos uma tendência de forte crescimento, uma vez que a pesquisa aponta que a grande maioria pretende realizar suas compras presencialmente. Então, é o momento de o varejo oferecer um comércio preparado, focando no bom atendimento, na variedade de produtos e em benefícios reais e atrativos para o pagamento à vista”, analisou o presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer.
Para o analista-técnico do Sebrae/MS Paulo Maciel, o desenho da loja importa tanto quanto o preço. “Mais da metade dos consumidores deixa a própria criança escolher o presente. Portanto, caprichar na vitrine, deixar o produto ao alcance e facilitar a experimentação faz toda a diferença na hora da venda. A combinação de uma presença física bem trabalhada no comércio local, produtos atrativos para os pequenos e a agilidade do Pix, atrelada a descontos, é o que o consumidor mais valoriza e o que garante o fechamento do negócio neste ano”, ressaltou.
Quem é o consumidor da data
O perfil traçado pela pesquisa ajuda a calibrar a oferta. O público que pretende ir às compras é formado por 51,4% de mulheres e 48,6% de homens. A maior fatia, 43,18%, tem renda média familiar entre um e três salários mínimos, e 42,31% atuam sob regime CLT. É, portanto, um consumidor de renda intermediária, sensível a preço e a condições de pagamento — o que dialoga diretamente com a preferência declarada por descontos à vista.
Entre os que pretendem comemorar a data, a principal escolha, com 53,22%, é passar o dia reunido com a família e preparar uma refeição em casa. Outros 14,04% pretendem frequentar lanchonetes, restaurantes ou sorveterias, o que distribui parte do faturamento para o setor de alimentação.
O estudo é de natureza quantitativa e foi realizado por meio de entrevistas em ponto de fluxo entre os dias 15 e 25 de agosto de 2026. Foram ouvidas 2.515 pessoas em Campo Grande, Dourados, Ponta Porã, Coxim, Bonito, Corumbá/Ladário, Naviraí, Nova Andradina e Três Lagoas. A margem de erro varia de 5% a 6%, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
O ano das datas comemorativas em MS
A projeção para o Dia das Crianças se encaixa numa sequência de resultados crescentes em datas sazonais no Estado. Levantamentos anteriores do Sebrae/MS em parceria com entidades do comércio estimaram movimentação de R$ 448,3 milhões no Dia das Mães e de mais de R$ 384 milhões no Dia dos Namorados deste ano. Na edição anterior do Dia das Crianças, a projeção havia sido de R$ 352 milhões — base de comparação que sustenta o salto de 33% agora estimado.
IBGE: MS lidera o varejo ampliado do país
A expectativa do comércio para outubro encontra respaldo nos dados oficiais mais recentes. Mato Grosso do Sul registrou o maior crescimento do Brasil nas vendas do comércio varejista ampliado em julho, com avanço de 3,6% em relação a junho, na série com ajuste sazonal. O Estado também liderou a comparação interanual, com alta de 10,9% sobre julho de 2025, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio divulgada pelo IBGE na terça-feira (15).
O indicador do varejo ampliado reúne o comércio varejista tradicional e atividades como venda de veículos, motos e peças, materiais de construção e atacado especializado em alimentos, bebidas e fumo. Na comparação mensal, Mato Grosso do Sul ficou à frente do Distrito Federal, que cresceu 2,8%, e de Sergipe, com avanço de 2,7%. Ao todo, 11 unidades da Federação tiveram resultado positivo no mês, enquanto 16 registraram queda — um contexto nacional heterogêneo que torna o desempenho sul-mato-grossense ainda mais destacado.
Na comparação com julho do ano passado, o crescimento de 10,9% em MS superou os 7,5% do Distrito Federal e os 6,1% de Pernambuco. De janeiro a julho, o volume de vendas do varejo ampliado no Estado acumulou alta de 6,2% sobre o mesmo período de 2025, e em 12 meses o avanço foi de 5,3%.
O recorte mais restrito, porém, mostra um quadro menos uniforme. No comércio varejista que não inclui veículos, materiais de construção e atacado especializado, as vendas caíram 0,2% entre junho e julho. Ainda assim, o varejo restrito de MS vendeu 2,1% mais do que em julho de 2025 e acumula crescimento de 2,5% no ano e de 2,2% em 12 meses.
Um desempenho que contrasta com os serviços
O bom momento do comércio convive com sinais mistos em outros setores da economia sul-mato-grossense. Também com base em pesquisas do IBGE, o Estado registrou em julho a maior retração do país no volume de serviços, indicador que reúne atividades como transporte, tecnologia da informação, serviços profissionais e prestados às famílias. A indústria, por sua vez, acumula crescimento no ano, mas perdeu fôlego nos meses mais recentes.
Para o empresário de pequeno porte, a leitura prática é que a demanda existe, mas está concentrada em momentos específicos do calendário e fortemente condicionada a preço e conveniência. A preferência declarada pelo pagamento à vista com desconto, somada à liderança do Pix, reduz o custo financeiro da venda para o lojista, mas também comprime margem quando o desconto vira condição de fechamento do negócio.
O que observar até 12 de outubro
O Dia das Crianças cai numa segunda-feira em 2026, o que tende a concentrar o fluxo de compras no fim de semana anterior — período em que lojistas costumam estender horários e reforçar equipes. A pesquisa do IPF-MS indica que a maior parte do público comprará presencialmente, o que reforça a importância da exposição de produtos, da organização da vitrine e da possibilidade de a criança manusear o item antes da compra, conforme destacou o Sebrae/MS.
Do lado dos indicadores, o próximo teste será verificar se o desempenho recorde do varejo ampliado em julho se sustenta nos meses seguintes, quando entram no radar os efeitos das decisões de política monetária e o aquecimento típico do último trimestre. Se a projeção de R$ 491,29 milhões se confirmar, a data comemorativa terá funcionado como ponte entre um terceiro trimestre positivo e a temporada mais forte do varejo, que começa em novembro.
Para o ecossistema de pequenos negócios de Mato Grosso do Sul, o recado dos dois levantamentos é convergente: há espaço para vender mais, mas a conversão dependerá de preparação operacional — estoque adequado, atendimento treinado, meios de pagamento ágeis e políticas de desconto desenhadas com antecedência, e não improvisadas na véspera.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — “Dia das Crianças deve movimentar R$ 491,29 milhões no comércio de Mato Grosso do Sul” (15/09/2026); Campo Grande News — “Consumidor de MS deve gastar R$ 289,52 com presentes no Dia das Crianças” (15/09/2026) e “MS lidera alta nas vendas do varejo ampliado em julho, aponta IBGE” (15/09/2026).
