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Empreenda MS > Inovação > Grafite de R$ 0,25 vira sensor forense e coloca MS na fronteira da química de baixo custo
Inovação

Grafite de R$ 0,25 vira sensor forense e coloca MS na fronteira da química de baixo custo

Empreenda MS Publicado em 15/09/2026 167 visualizações
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13 minutos de leitura
Pesquisador com luvas manipula pipeta e frasco em bancada de laboratório
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Parceria entre a UFMS e a Polícia Científica transforma grafite de lapiseira de R$ 0,25 em sensor capaz de apontar raticida em alimentos e em conteúdo gástrico de animais; método já rendeu 36 laudos e levou o Estado a investir R$ 100 mil em equipamentos próprios

Um grafite de lapiseira de 0,7 milímetro, desses vendidos em qualquer papelaria, virou a peça central de uma tecnologia forense desenvolvida em Mato Grosso do Sul. O material funciona como eletrodo sensor em um método criado pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em parceria com a Polícia Científica do Estado para detectar bromadiolona — substância usada como raticida — em amostras de alimentos e em conteúdo gástrico de animais com suspeita de envenenamento. Cada sensor custa cerca de R$ 0,25 e a análise completa sai por aproximadamente R$ 0,80, segundo os pesquisadores. A metodologia já foi aplicada em 36 exames, com a emissão de 36 laudos periciais, e a informação foi divulgada nesta terça-feira (15) pelo Campo Grande News.

O balanço é do perito criminal Evandro Rodrigo Pedon, chefe da DQT (Divisão de Química e Toxicologia Forense) do IALF (Instituto de Análises Laboratoriais Forenses), ligado à Polícia Científica de Mato Grosso do Sul. Dos 36 exames realizados até agora, oito foram feitos em alimentos e 28 em conteúdo gástrico de animais. Entre as amostras que chegaram ao laboratório estão achocolatado em pó, leite em pó, suco de uva e farofa — produtos de consumo cotidiano que, em determinadas ocorrências, passaram a ser objeto de investigação criminal.

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Ciência de baixo custo aplicada a um gargalo real

O caso é um exemplo prático de algo que o ecossistema de inovação sul-mato-grossense vem tentando estruturar há anos: pesquisa universitária endereçada a um problema concreto de um órgão público, com resultado mensurável em custo e em tempo. A aproximação entre a Polícia Científica e a UFMS começou em 2020, quando necessidades identificadas na rotina dos exames periciais passaram a ser levadas aos pesquisadores em busca de alternativas. A cooperação entre o IALF, a Coordenadoria-Geral de Perícias e o Instituto de Química da UFMS foi formalizada em 2021.

No caso da bromadiolona, a demanda surgiu a partir de ocorrências recebidas pela própria perícia. O método foi desenvolvido inicialmente para a análise de alimentos e, posteriormente, ampliado para conteúdo gástrico de animais com suspeita de envenenamento. Conforme o perito, os detalhes das ocorrências não são divulgados por envolverem informações periciais sensíveis.

Bruno Gabriel Lucca, professor do Instituto de Química da UFMS e um dos pesquisadores envolvidos na parceria, explica que, no método para bromadiolona, o grafite de lapiseira de 0,7 milímetro funciona como eletrodo sensor: é na superfície dele que ocorre a resposta eletroquímica associada à presença da substância. A escolha por um material trivial não é acidental. Trata-se de uma linha de pesquisa que combina materiais simples, eletroquímica e impressão 3D para criar dispositivos analíticos com custo muito inferior ao dos equipamentos convencionais.

Impressão 3D em 90% dos dispositivos

A impressão 3D entra no processo para fabricar uma tampa personalizada do dispositivo, responsável por acomodar e posicionar adequadamente os sensores. Ou seja, não é a peça impressa que detecta o raticida — o sensor propriamente dito continua sendo o grafite da lapiseira. Ainda assim, a tecnologia é decisiva para a viabilidade do conjunto.

Segundo Lucca, a impressão 3D está presente em cerca de 90% dos dispositivos desenvolvidos pelo grupo. Ela permite personalizar o desenho e a geometria para cada aplicação, fabricar as peças dentro do próprio laboratório e automatizar a produção de lotes. Além do grafite, os pesquisadores utilizam outros materiais de baixo custo, como papel e tintas produzidas no próprio laboratório.

Esse arranjo — prototipagem rápida, insumos baratos e produção interna — encurta o ciclo entre identificar um problema analítico e ter um dispositivo funcional na bancada. É o mesmo raciocínio que sustenta boa parte dos laboratórios de inovação aberta e dos makerspaces instalados em universidades e parques tecnológicos brasileiros nos últimos anos, agora aplicado à área forense.

Resposta em segundos, mas para triagem

Depois que a amostra já preparada é aplicada ao dispositivo, a resposta analítica é obtida em questão de segundos. A velocidade, porém, não significa que o sensor substitua todos os exames convencionais. Lucca ressalta que o método é destinado principalmente à triagem inicial. Em situações que exigem confirmação inequívoca, continuam necessárias técnicas oficiais de análise, como a cromatografia.

A vantagem, segundo o professor, está justamente em permitir uma avaliação inicial rápida e de baixo custo, reduzindo a quantidade de amostras que precisam seguir para análises cromatográficas — mais demoradas, mais caras e dependentes de equipamentos de grande porte. Em um laboratório público que atende todo o Estado, filtrar amostras negativas logo na entrada significa liberar capacidade para os casos que realmente exigem a técnica confirmatória.

Também é preciso diferenciar os segundos necessários para obter a resposta do sensor do tempo total do procedimento. O perito criminal explica que alimentos e conteúdo gástrico exigem etapas de extração e preparação antes da análise. Por isso, atualmente, os exames de bromadiolona são realizados no Instituto de Análises Laboratoriais Forenses, em Campo Grande, e não diretamente no local onde ocorreu a suspeita de envenenamento.

Um segundo método, agora para fungicida

A bromadiolona não é o único alvo da parceria. A Polícia Científica confirma que duas metodologias desenvolvidas com o Instituto de Química da UFMS já têm aplicação no IALF: uma para a bromadiolona e outra para o fungicida benzovindiflupir.

O método para o benzovindiflupir pode ser utilizado em casos de suspeita de falsificação ou adulteração de produtos que contenham o fungicida — um problema de impacto direto sobre o agronegócio, principal motor econômico de Mato Grosso do Sul. Assim como no trabalho com o raticida, a eletroquímica está na base da análise, também com uso de impressão 3D.

O estudo científico produzido com participação da UFMS e da perícia sul-mato-grossense descreve um dispositivo microfluídico com detector integrado, desenvolvido como ferramenta portátil para detecção do fungicida em amostras forenses. Nesse caso, há ainda a possibilidade de aproximar o equipamento do local onde o produto é apreendido. Pedon explica que a preparação da amostra é mais simples, o que abre perspectiva para utilização do equipamento próximo a uma apreensão, principalmente em cargas com suspeita de falsificação ou adulteração de fungicidas. Isso, no entanto, não significa que o exame já esteja sendo realizado em campo.

A distinção é relevante para dimensionar o estágio da tecnologia: trata-se de uma solução validada em laboratório e já incorporada à rotina pericial, mas ainda em processo de amadurecimento quanto à portabilidade plena. É um percurso típico de tecnologias desenvolvidas em ambiente acadêmico que migram para a operação — o chamado vale da morte entre a bancada e o uso final, que costuma consumir anos e exigir investimento adicional.

R$ 100 mil em equipamentos próprios

E é exatamente aí que entra o desdobramento mais concreto da parceria em 2026. Até então, os trabalhos eletroquímicos eram realizados com equipamentos da UFMS. Agora, a Polícia Científica passa a contar com aparelhos próprios.

Segundo Pedon, a instituição adquiriu dois potenciostatos/galvanostatos — equipamentos utilizados nas análises eletroquímicas — por aproximadamente R$ 50 mil cada, totalizando investimento de cerca de R$ 100 mil. A implantação ainda está em andamento e os aparelhos serão utilizados pelos peritos do laboratório.

A aquisição não significa, contudo, que todas as análises poderão ser imediatamente realizadas nos locais de ocorrência ou no interior do Estado. Conforme o perito, essa possibilidade depende do tipo de exame e, principalmente, do preparo necessário para cada amostra. Ainda assim, a compra marca uma transição importante: o Estado deixa de depender exclusivamente da infraestrutura universitária para operar a tecnologia que ajudou a desenvolver.

Por que isso interessa ao ecossistema de MS

A iniciativa se encaixa em uma agenda que Mato Grosso do Sul vem construindo com instrumentos como o Fundect, os programas de fomento à pesquisa aplicada e a rede de ecossistemas locais de inovação articulada por Sebrae/MS e Semadesc em 12 municípios. O ponto comum é a tentativa de converter produção científica em solução utilizável — seja por empresas, seja pelo poder público.

No caso do sensor de grafite, o retorno não aparece em faturamento, mas em custo evitado e em capacidade instalada. Um insumo de R$ 0,25 substituindo eletrodos comerciais em uma etapa de triagem representa economia direta em material de consumo, e a redução no número de amostras encaminhadas à cromatografia libera horas de equipamento e de pessoal qualificado. Para um laboratório que atende demandas de todo o Estado, essa capacidade extra tem valor difícil de quantificar, mas visível na fila de laudos.

Há ainda um efeito menos evidente: a formação de pessoal. Cada dispositivo desenvolvido envolve estudantes de graduação e pós-graduação do Instituto de Química da UFMS, que passam a trabalhar em um problema com destinatário real e prazo definido. É o tipo de experiência que costuma alimentar tanto a carreira acadêmica quanto a criação de empresas de base tecnológica — a rota que parques tecnológicos e incubadoras do Estado tentam pavimentar.

Próximos passos

Com os dois potenciostatos em implantação, a expectativa é que a Polícia Científica amplie o uso das metodologias eletroquímicas dentro do IALF e reduza a dependência de agendamento em laboratórios externos. A continuidade da cooperação com o Instituto de Química da UFMS também abre espaço para que novos gargalos da rotina pericial sejam transformados em linhas de pesquisa — o mesmo caminho que originou os métodos para bromadiolona e benzovindiflupir.

A portabilidade permanece como fronteira seguinte. No caso do fungicida, a preparação mais simples da amostra já indica viabilidade técnica para uso próximo ao local de apreensão, cenário que mudaria a lógica de fiscalização de cargas suspeitas no Estado. Para os exames de raticida, o desafio segue sendo a etapa de extração, que ainda exige estrutura laboratorial.

Enquanto isso, o número que sintetiza o experimento sul-mato-grossense continua sendo o mais simples: R$ 0,25 por sensor, R$ 0,80 por análise, 36 laudos emitidos. Inovação, nesse caso, não veio de um equipamento importado, e sim de uma lapiseira, uma impressora 3D e uma pergunta feita por quem estava com o problema na mão.

Fontes

Campo Grande News — Grafite de lapiseira vira sensor para detectar veneno em alimentos (15/09/2026)

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