Projeto Eco Moedas converte o peso dos recicláveis levados por 104 estudantes em créditos que só podem ser gastos na Feira do Produtor; iniciativa integra o Plano de Desenvolvimento Municipal e o programa Cidade Empreendedora
Um quilo de garrafa PET entregue por uma criança em Tacuru passou a valer alface, mandioca ou queijo produzidos a poucos quilômetros dali. É esse o mecanismo do Eco Moedas, projeto lançado na quarta-feira (9) no município do cone-sul de Mato Grosso do Sul, que transforma materiais recicláveis coletados por estudantes em uma moeda social de circulação restrita, destinada à compra de produtos na Feira do Produtor. A cerimônia ocorreu na Câmara Municipal e reuniu representantes da Prefeitura, escolas, produtores rurais e parceiros.
A iniciativa é promovida pela Prefeitura de Tacuru, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, com apoio do Sebrae/MS e do Sicredi. Nesta primeira etapa, 104 alunos de quatro escolas participam do projeto. Os materiais que eles levarem serão pesados e convertidos em Eco Moedas; os créditos, depois, serão usados para adquirir produtos da agricultura familiar diretamente dos produtores locais.
Uma engrenagem que fecha o ciclo dentro do município
O desenho do Eco Moedas responde a um problema comum em municípios de pequeno porte: a dificuldade de fazer o recurso circular internamente. Ao restringir o uso da moeda social à Feira do Produtor, o projeto garante que o valor gerado pela reciclagem não vaze para fora da economia local — ele volta, necessariamente, para quem produz alimento em Tacuru.
O gerente regional Sul do Sebrae/MS, Marcus Faria, enxerga aí a principal virtude da proposta: o resíduo deixa de ser apenas material descartado e passa a gerar valor ambiental, social e econômico ao mesmo tempo. “A criação dessa moeda social vai girar uma cadeia de valor, onde o produtor ganha ao comercializar o seu produto para essas crianças com a moeda social. É uma cadeia onde todo mundo ganha”, afirma.
Segundo ele, o projeto também abre espaço para trabalhar com os estudantes temas que raramente chegam à sala de aula de forma prática. “É um ciclo virtuoso que se forma no município a partir de uma moeda sustentável que cuida do meio ambiente, da educação financeira e da alimentação saudável dessas crianças e de suas famílias”, acrescenta.
Da coleta seletiva à mesa da família
Para o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti, o mérito da ação está em levar a coleta seletiva para dentro de casa, usando a criança como vetor de mudança de hábito familiar — e, ao mesmo tempo, criando uma situação concreta de aprendizado.
“Através de um pequeno esforço, a criança aprenderá matemática, finanças, irá contribuir com o meio ambiente na questão da sustentabilidade e ainda terá a oportunidade de ajudar na provisão de alimentos para a família”, celebra o prefeito.
A dimensão pedagógica é reforçada pela secretária municipal de Meio Ambiente, Maria Aparecida Fernandes Sanches. Ela destaca que a proposta busca mostrar aos estudantes que os materiais recicláveis possuem valor e podem retornar em benefícios para a própria população. “A Eco Moeda é uma iniciativa que busca transformar a reciclagem em uma experiência de educação, participação e geração de valor”, explica.
A expectativa da secretária é que a experiência-piloto sirva de base para a ampliação do projeto, formando uma rede que aproxime educação ambiental, reciclagem e desenvolvimento local. Em outras palavras: começar pequeno, medir resultado e escalar.
A Feira do Produtor como ponto de chegada
O componente que diferencia o Eco Moedas de programas convencionais de coleta seletiva escolar é o destino do crédito. Em vez de ser trocado por brindes ou material escolar, ele é convertido em poder de compra dentro de um equipamento econômico já existente no município — a Feira do Produtor.
A lógica tem consequência direta sobre a renda rural. Cada Eco Moeda gasta na feira representa uma venda adicional para quem planta e cria em Tacuru, muitas vezes em assentamentos e pequenas propriedades onde a comercialização é o gargalo histórico, não a produção.
Produtora do Assentamento Vitória da Fronteira, Delci Hermes avalia que a iniciativa pode fortalecer a feira. “É uma ótima ideia e vamos nos esforçar e lutar juntos para tornar nossa feira cada dia melhor”, afirmou.
O produtor José Nelson, o Zezinho, do Assentamento Água Viva, também aprovou a proposta. “Esse é um incentivo muito bom, para nós e para as crianças também. Foi uma ideia excelente”, destaca.
Recicla Tacuru e o Plano de Desenvolvimento Municipal
O Eco Moedas não surgiu como ação isolada. O lançamento integra o Recicla Tacuru, previsto no Plano de Desenvolvimento Municipal (PDM), instrumento que organiza as prioridades econômicas do município em horizonte de médio prazo. Estar no PDM significa que a moeda social não depende de uma janela de oportunidade pontual: ela foi inscrita no planejamento formal da gestão, com objetivos declarados de fortalecer a educação ambiental, valorizar a agricultura familiar e estimular a circulação de recursos dentro de Tacuru.
O projeto é parte das ações do Cidade Empreendedora, programa executado pelo Sebrae/MS com apoio do Governo do Estado e da gestão municipal. A metodologia do programa parte de um diagnóstico da economia local para então desenhar intervenções em eixos como desburocratização, compras públicas, educação empreendedora e desenvolvimento rural — o que explica por que uma ação de reciclagem escolar terminou conectada à cadeia de abastecimento de alimentos.
Por que moedas sociais voltaram ao radar do desenvolvimento local
Instrumentos de moeda social não são novidade no Brasil, mas voltaram a ganhar tração em municípios pequenos justamente por resolverem um problema de vazamento econômico. Em cidades onde boa parte do consumo é feito em centros regionais maiores, cada real que circula internamente tem efeito multiplicador superior ao de um real que sai do município logo após ser gasto.
Ao amarrar o crédito a um único ponto de venda — a feira de produtores locais —, Tacuru elimina esse vazamento por desenho. E adiciona uma camada que moedas sociais tradicionais não têm: a origem do valor não é uma transferência de renda, e sim um passivo ambiental convertido em ativo. O material que iria para o aterro vira, literalmente, lastro.
Há também um efeito de formação. Ao pesar o próprio material, calcular quanto vale e decidir como gastar, o estudante executa, em escala infantil, o mesmo raciocínio que estrutura qualquer negócio: converter insumo em receita e alocar recurso. É educação empreendedora aplicada, sem que precise ser nomeada como tal.
Próximos passos
A etapa inicial, com 104 alunos e quatro escolas, funcionará como piloto. Dela dependem as decisões sobre ampliação da rede de escolas participantes, ajuste na tabela de conversão entre peso e crédito e eventual inclusão de novos tipos de material reciclável. A avaliação dos resultados também deve indicar se a Feira do Produtor comporta o aumento de demanda projetado — e se a oferta local consegue acompanhá-lo.
Para Mato Grosso do Sul, o caso de Tacuru interessa como modelo replicável. São dezenas os municípios sul-mato-grossenses com perfil semelhante: base agrícola familiar, feira de produtores ativa, estrutura de coleta seletiva incipiente e rede escolar municipal como principal equipamento público de alcance. Se o piloto sustentar os resultados, a engenharia desenvolvida no cone-sul do Estado pode ganhar outros endereços — e transformar uma solução ambiental local em política de desenvolvimento econômico de escala regional.
Tacuru no mapa econômico do cone-sul
Localizado no extremo sul de Mato Grosso do Sul, próximo à fronteira com o Paraguai, Tacuru tem na agricultura familiar e nos assentamentos rurais parte relevante de sua base produtiva. Os depoimentos de produtores de assentamentos como o Vitória da Fronteira e o Água Viva, presentes ao lançamento, sinalizam quem são os beneficiários diretos da engrenagem: famílias que dependem da comercialização de pequenos volumes e para as quais um canal de venda previsível pesa mais do que um aumento de produtividade.
Nesse recorte, uma demanda garantida — ainda que modesta em valor absoluto — tem efeito desproporcional. Ela reduz a incerteza sobre o escoamento, permite planejar o que plantar e cria previsibilidade de caixa, três elementos que costumam faltar na ponta mais frágil da cadeia de alimentos.
Educação ambiental com resultado mensurável
Outro diferencial do desenho é que ele produz indicadores. Como os materiais são pesados para a conversão em crédito, o município passa a ter, automaticamente, uma medida do volume de recicláveis desviado do descarte comum — dado que raramente existe em cidades de pequeno porte e que é essencial para dimensionar investimentos futuros em coleta seletiva, galpões de triagem ou parcerias com cooperativas de catadores.
O mesmo vale para o lado econômico: o total de Eco Moedas gasto na Feira do Produtor equivale, de forma direta, à receita adicional injetada na agricultura familiar local. São dois números simples que permitem à gestão municipal avaliar, ao fim do piloto, se vale ampliar o programa — e com que intensidade.
A rastreabilidade do impacto é, aliás, um dos pontos em que projetos de moeda social costumam falhar. Sem medição, a iniciativa depende da percepção subjetiva de sucesso e tende a perder fôlego na troca de gestão. Com dois indicadores objetivos — quilos coletados e volume transacionado na feira —, o Eco Moedas nasce com a possibilidade de prestar contas em números.
Fontes
Agência Sebrae de Notícias MS — “Tacuru transforma materiais recicláveis em moeda social para fortalecer educação e agricultura familiar” (10/09/2026): https://ms.agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/tacuru-transforma-materiais-reciclaveis-em-moeda-social-para-fortalecer-educacao-e-agricultura-familiar/
