No II Fórum MS Sustentabilidade, especialistas avisam que o Corredor Bioceânico só vai gerar renda nas cidades de MS se empresas e prefeituras se prepararem antes de a rota funcionar plenamente
O Corredor Bioceânico precisa ser apresentado ao mercado asiático como ferramenta de atração de investimentos, mas a infraestrutura ainda não está pronta e os benefícios para as cidades de Mato Grosso do Sul não virão de forma automática. O alerta foi feito pelo economista Jaime Verruck, ex-secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, nesta terça-feira (3), no II Fórum MS Sustentabilidade, em Campo Grande.
O fórum foi realizado nos dias 2 e 3 de novembro no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo e reuniu poder público, empresários, universidades e especialistas do Brasil e dos países do corredor. A pergunta central era como transformar a Rota Bioceânica num vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental, e não apenas numa estrada de passagem.
Para quem empreende em MS, o recado é direto: a rota pode reduzir custos de transporte e abrir mercados, mas quem não se preparar corre o risco de ver negócios de fora ocuparem as oportunidades que surgirem.
Corredor Bioceânico na vitrine da Ásia
Verruck defendeu uma estratégia conjunta de Brasil, Paraguai, Argentina e Chile para vender a rota aos investidores asiáticos. “Nós temos que apresentar a rota para o mercado asiático enquanto um instrumento de atração de investimento, enquanto um instrumento competitivo de levar nossos produtos para lá”, afirmou.
A ideia é que o Corredor Bioceânico não seja visto só como um caminho mais curto para exportar commodities até os portos do Pacífico, mas como um argumento para que empresas da Ásia instalem operações ao longo do trajeto. Reduzir custos de transporte e ampliar o acesso à China são vantagens, mas, segundo ele, não garantem por si só ganho econômico para os municípios.
Para isso, será preciso política local de atração de empresas, qualificação profissional e capacidade de aproveitar as oportunidades. Sem esse trabalho, as cargas passam, e a riqueza fica em outro lugar.
Na leitura do economista, cada município do trajeto precisa saber o que tem a oferecer, seja mão de obra, área industrial, serviços ou matéria-prima, e apresentar isso de forma organizada a quem pretende investir. É esse dever de casa que separa uma cidade de passagem de um polo de negócios.
Obras do Corredor Bioceânico avançam em ritmos diferentes
O ex-secretário chamou atenção para o ritmo desigual das obras. O Paraguai avança rápido, o acesso brasileiro à ponte sobre o Rio Paraguai anda mais devagar, a Argentina tem obras pendentes e o porto chileno precisa de adequações.
“A infraestrutura ainda não está pronta. Ela está toda contratada, toda estruturada, mas ela não está pronta”, destacou Verruck. O acesso à ponte em Porto Murtinho, aliás, foi colocado pelo TCU no topo das obras prioritárias do país para 2027.
Ele também citou entraves aduaneiros e migratórios e lembrou que a Receita Federal fez recentemente uma iniciativa para identificar as dificuldades na circulação de cargas e pessoas. Segundo Verruck, ainda não é possível prever quando o corredor estará plenamente operacional, quais cargas vão usar a rota e qual capacidade os portos chilenos vão oferecer.

Alfândega é desafio para os quatro países
O tema aduaneiro apareceu também na fala de Fábio Roberto Cordeiro, gestor de negócios internacionais do Escritório Comercial de Tarapacá, região do Chile, em Campo Grande. Para ele, a operação do Corredor Bioceânico depende de medidas conjuntas entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Cordeiro relatou que a Receita Federal fez uma expedição para conhecer as estruturas aduaneiras ao longo do trajeto e identificar gargalos e possibilidades de harmonização. A segurança na fronteira também avança: a Polícia Rodoviária Federal prevê um posto em Porto Murtinho e treina policiais dos quatro países.
Para exportadores e transportadoras de MS, a padronização de documentos e procedimentos é o que vai definir se a economia de tempo prometida pela rota se confirma na prática ou se perde em filas nas fronteiras.
Concorrência entre os países do corredor
Outro alerta de Verruck é que os quatro países podem acabar disputando os mesmos investimentos. Por isso, ele defende identificar as vocações de cada território e montar uma estratégia regional, em vez de cada cidade correr sozinha atrás de empresas.
O ex-secretário destacou o papel do Fórum de Governadores da Rota Bioceânica e mencionou a previsão de assinatura de 17 protocolos num encontro em Antofagasta, no Chile. A governança compartilhada é vista como condição para que o Corredor Bioceânico funcione como um bloco.
Campo Grande já tenta se posicionar: os países da rota já respondem por 29% do comércio exterior da Capital, e a prefeitura lançou nesta semana um aplicativo com serviços, eventos e câmbio dos quatro países.
Impactos sociais e ambientais do Corredor Bioceânico
Verruck pediu que o planejamento leve em conta segurança pública, saúde e infraestrutura urbana nas cidades que vão receber mais movimento. Ele alertou para o risco de tráfico de drogas e crimes transnacionais nas cidades de fronteira.
Na área ambiental, sugeriu integração ferroviária e uso de gás natural como combustível de transição para reduzir emissões. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU podem servir de referência, desde que sejam incorporados à governança do corredor.
O próprio fórum seguiu essa linha. Os debates tomaram como base os ODS, especialmente os de número 7, 9, 11, 13, 15 e 17, que tratam de energia limpa, indústria e infraestrutura, cidades sustentáveis, clima, vida terrestre e parcerias.
Pequenos negócios precisam chegar antes
O diretor de Operações do Sebrae/MS, Tito Estanqueiro, disse no fórum que um dos maiores desafios é preparar os pequenos negócios dos municípios para aproveitar o crescimento trazido pelo Corredor Bioceânico. Segundo ele, o Sebrae já atua com associações comerciais, sindicatos rurais e prefeituras e pretende intensificar esse trabalho em 2027.
Estanqueiro defendeu qualificar os empreendedores que já estão no território, para que não percam espaço para empresas de fora quando o mercado surgir. Ele apontou o turismo em Jardim, Bonito e Porto Murtinho como a oportunidade mais imediata, algo que conversa com a ideia de transformar a rota num roteiro turístico de quatro países.
Hospedagem, alimentação, guias, artesanato, oficinas mecânicas, postos e serviços de apoio a caminhoneiros estão entre os segmentos que tendem a sentir primeiro o aumento do fluxo de pessoas e cargas.
Universidades entram no debate
A organizadora do fórum, Ana Cristina Franzoloso, da DuBem Sustentável, disse que a proposta é aproximar governos, iniciativa privada, universidades e sociedade civil. “Não tem como falar de saúde sem falar de desenvolvimento sustentável. Não tem como falar de tecnologia e inovação sem falar de impacto”, destacou.
O evento também teve o Desafio dos ODS no Corredor Bioceânico, que mobilizou universidades e profissionais. Segundo Marcos Rocha Martins da Silva, coordenador-geral do Movimento Nacional ODS/MS, mais de 40 trabalhos participaram. Doze foram selecionados para apresentação no fórum e três foram premiados.
A participação acadêmica indica um caminho para startups e pesquisadores de MS: soluções em logística, energia, monitoramento ambiental e gestão urbana devem ganhar demanda à medida que o corredor amadurece.
Como se preparar para o Corredor Bioceânico
Para o empresário que quer aproveitar o Corredor Bioceânico, o primeiro passo é conhecer o mercado vizinho. Entender o que paraguaios, argentinos e chilenos compram, como pagam e quais documentos são exigidos na fronteira ajuda a evitar prejuízos na primeira venda.
O segundo passo é olhar para a própria cidade. Municípios no trajeto do Corredor Bioceânico devem receber mais caminhões, turistas e trabalhadores, o que gera demanda por serviços básicos antes mesmo de qualquer exportação. Quem atende bem esse público local sai na frente.
O terceiro é procurar qualificação. O Sebrae/MS já trabalha com associações comerciais, sindicatos rurais e prefeituras, e cursos de gestão, idioma e comércio exterior tendem a ganhar valor à medida que o Corredor Bioceânico se aproxima da operação plena.
Por fim, vale acompanhar a agenda de governança. Os protocolos previstos para Antofagasta podem trazer regras novas para circulação de cargas e pessoas, e quem se informa cedo consegue ajustar preços, prazos e logística antes dos concorrentes. Como lembrou Verruck no fórum, o Corredor Bioceânico só será um eixo de desenvolvimento se as cidades e as empresas de MS se organizarem para isso.
O que vem pela frente
O próximo marco político é o encontro em Antofagasta, onde estão previstos os 17 protocolos citados por Verruck. No lado brasileiro, a conclusão do acesso à ponte em Porto Murtinho segue como ponto crítico do cronograma, e o Sebrae/MS promete ampliar em 2027 a qualificação de pequenos negócios nos municípios do trajeto.
Para Verruck, o futuro do Corredor Bioceânico depende das escolhas feitas agora. “Somos nós que vamos determinar se a rota será somente um corredor de exportação ou se conseguirá se transformar em um eixo de desenvolvimento econômico”, concluiu.
Leia também
Porto Murtinho: TCU põe acesso à Rota Bioceânica no topo das obras do país para 2027
Rota Bioceânica: PRF prevê posto em Porto Murtinho e treina policiais de 4 países
Fontes
Campo Grande News: “Precisamos apresentar a Rota Bioceânica ao mercado asiático”, diz Verruck
Campo Grande News: Fórum debate como conciliar avanço da Rota Bioceânica com sustentabilidade em MS
