Cooperativa catarinense, que faturou R$ 26,9 bilhões em 2025, assume indústria, fábrica de ração e fazendas da Mar & Terra; negócio depende do Cade e é a terceira troca de dono da planta em sete anos
A Aurora Coop, cooperativa central com sede em Chapecó (SC), anunciou nesta quinta-feira (29) um acordo com a Bello Alimentos para comprar os ativos do complexo de pescados da Mar & Terra, em Itaporã, a 234 quilômetros de Campo Grande. A operação inclui a estrutura industrial de processamento de peixes, uma fábrica de rações e fazendas de produção própria. O valor não foi divulgado, e o negócio ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Se for concluída, será a terceira troca de comando da planta em sete anos.
Para Mato Grosso do Sul, o movimento é relevante por dois motivos: coloca uma das maiores empresas de proteína animal do país dentro da piscicultura do Estado, com produção própria, e mantém em operação uma indústria que já tem certificações para exportar e capacidade ociosa a ser preenchida.
O que está sendo vendido
O frigorífico de Itaporã tem capacidade instalada para abater até 60 toneladas de peixe por dia, segundo o Campo Grande News e o portal AgFeed. A planta nem sempre trabalhou perto desse limite: em agosto de 2024, o governo do Estado informava produção de 25 toneladas diárias, menos da metade do potencial, com meta de chegar a 40 toneladas até o fim daquele ano e ao teto da unidade em 2025. O anúncio desta semana não informa se essas metas foram atingidas.
Segundo o AgFeed, a unidade tem certificações FDA, da agência sanitária dos Estados Unidos, e BAP, selo internacional de boas práticas na aquicultura. O detalhe pesa porque os Estados Unidos concentraram 99,96% das exportações de tilápia de Mato Grosso do Sul em 2025, de acordo com o portal.
As empresas não informaram quantos empregados trabalham no complexo, se haverá mudanças no quadro de pessoal nem quando a transferência será concluída. Em comunicado conjunto citado pela CNN Brasil, Aurora e Bello afirmam estar comprometidas com uma “transição responsável e transparente”, com atenção a colaboradores, produtores, parceiros comerciais e demais públicos envolvidos.
Quem é a compradora
Fundada em 1969, a Aurora Coop reúne 14 cooperativas agropecuárias filiadas e cerca de 87 mil famílias associadas. Em 2025, registrou receita operacional bruta de R$ 26,9 bilhões e sobras de R$ 1,2 bilhão, segundo dados da própria cooperativa. A empresa é presidida por Neivor Canton.
A Aurora já vendia peixe, mas dependia de terceiros para o processamento. Segundo o AgFeed, a cooperativa comprava e distribuía pescados industrializados por outras empresas, sobretudo pela paranaense C.Vale, e esse segmento somou R$ 270 milhões em vendas no mercado interno em 2025. Em julho de 2026, a Aurora anunciou a entrada “definitiva e ampliada” na piscicultura com produção própria, dentro de um ciclo de investimentos superior a R$ 1,1 bilhão. A compra em Itaporã é o primeiro passo concreto dessa estratégia em Mato Grosso do Sul.
A cooperativa não é estreante no Estado. Ela mantém uma unidade de abate e processamento de suínos em São Gabriel do Oeste e, também em julho de 2026, anunciou a ampliação dessa planta, com investimento de R$ 350 milhões e aumento da capacidade de abate. A suinocultura sul-mato-grossense vive fase de expansão, como mostrou o Empreenda MS ao noticiar que o rebanho de suínos de MS bateu recorde enquanto o bovino recuou pelo segundo ano.
Em números, a operação de pescados ainda é pequena dentro da Aurora: os R$ 270 milhões vendidos em 2025 equivalem a cerca de 1% da receita bruta de R$ 26,9 bilhões da cooperativa, em cálculo do Empreenda MS. É justamente essa distância que torna a compra estratégica. Com indústria, ração e fazendas próprias, a cooperativa deixa de revender o peixe de terceiros e passa a controlar toda a cadeia, do alevino ao filé embalado, como já faz com frangos e suínos.
Quem é a vendedora
A Bello Alimentos, com sede em Itaquiraí, é a empresa avícola do Grupo Pluma, conhecido também como grupo Frango Bello. Segundo o AgFeed, o grupo faturou R$ 8,7 bilhões em 2025 e mantinha duas plantas de pescados em Mato Grosso do Sul: a de Itaporã, agora negociada, e a de Aparecida do Taboado. Em outubro, a empresa abriu filial em Aparecida do Taboado com atividade de criação de peixes em água doce, o que indica que o grupo não deixa o setor, mas concentra a operação em outro polo.
A Bello segue com as demais atividades de produção animal no Estado, entre elas a avicultura, cadeia que enfrenta neste mês a suspensão das compras de frango brasileiro pelo México após o foco de Newcastle em Santa Catarina.
Sete anos, três donos
A história da Mar & Terra ajuda a explicar a importância de Itaporã no mapa do peixe sul-mato-grossense. A empresa começou a operar em 2003, sob o Grupo Axial, com foco em espécies nativas como pintado, pacu, pirarucu e tambaqui, além da tilápia. Em 2019, tinha duas fazendas com 132 hectares de lâmina d’água e uma planta industrial de 1.900 metros quadrados.
Em dezembro de 2019, a Axial anunciou a venda das operações para a Paturi Piscicultura Agroindustrial, de Toledo (PR), empresa no ramo desde 1993 que queria ganhar escala industrial com foco em tilápia. Um ano depois, em dezembro de 2020, o governo do Estado informou que o grupo Frango Bello havia comprado a Mar & Terra, com planos de montar um sistema integrado, em que produtores rurais fornecem o peixe à indústria, de ampliar a capacidade da planta e de instalar uma fábrica de ração.
Em agosto de 2022, o então superintendente estadual de Agricultura e Pecuária, Rogério Beretta, avaliava que a chegada da Bello poderia reativar pisciculturas paradas na região de Itaporã e Dourados e ampliar as exportações. A chegada da Aurora, com sua estrutura de cooperativas e experiência em integração na suinocultura e na avicultura, abre a possibilidade de repetir esse modelo em escala maior, embora a cooperativa ainda não tenha detalhado seus planos para a unidade.
Na prática, o modelo de integração, muito comum na avicultura e na suinocultura do Sul do país, funciona assim: a indústria fornece insumos, como ração e animais jovens, e assistência técnica, e o produtor parceiro cria os animais na propriedade dele e entrega a produção para o abate. Para regiões com pisciculturas paradas ou subaproveitadas, como a de Itaporã e Dourados citada por Beretta em 2022, esse arranjo costuma ser a porta de entrada de pequenos e médios produtores na atividade, porque reduz o risco de não ter para quem vender.
A capacidade ociosa é o outro lado da conta. Com as 25 toneladas diárias registrados em agosto de 2024, a planta usava pouco mais de 40% do potencial de 60 toneladas. Ocupar o restante exige mais peixe entregue na porta da indústria, o que depende de novos viveiros, tanques-rede e produtores integrados na região.
O peso da piscicultura em MS
O Brasil produziu mais de 1 milhão de toneladas de peixes de cultivo em 2025, alta de 4,41%, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), com mais de 707 mil toneladas de tilápia. Mato Grosso do Sul passou de 53 mil toneladas e ocupa a sexta posição entre os estados, de acordo com o AgFeed.
O avanço é recente. Em 2024, o Estado havia produzido 40,5 mil toneladas, alta de 18,77% sobre o ano anterior, sendo 38,4 mil toneladas de tilápia e cerca de 2 mil toneladas de nativos como pacu e pintado, segundo dados da Peixe BR citados pelo portal O Presente Rural. A atividade ocupava 3.324 hectares, com 10.305 viveiros e 2.456 tanques-rede. Pelos dados preliminares do IBGE, Selvíria, Itaporã e Aparecida do Taboado lideram a produção, seguidos por Dourados, Mundo Novo, Deodápolis, Paranaíba, Sidrolândia, Ponta Porã e Brasilândia.
Ou seja, a venda envolve justamente dois dos três maiores polos do Estado: a Aurora entra em Itaporã, e a Bello reforça presença em Aparecida do Taboado.
O que vem agora
A notificação ao Cade é obrigatória porque um dos grupos fatura mais de R$ 750 milhões por ano. Como não há sobreposição relevante entre as atividades das duas empresas no mesmo mercado, a análise tende a ser sumária, segundo o AgFeed. Até a decisão, Aurora e Bello seguem operando de forma independente.
Para os piscicultores da região de Itaporã e Dourados, a questão central é se a nova dona vai adotar o modelo de integração, comprando peixe de produtores parceiros, e em que ritmo vai ocupar a capacidade ociosa do frigorífico. Para quem fornece insumos, ração, transporte e serviços, a chegada de uma cooperativa com receita de quase R$ 27 bilhões tende a significar mais demanda, mas os detalhes só devem aparecer depois do aval do Cade.
O negócio também reforça uma tendência que o Empreenda MS acompanha: o interesse de grupos de fora em transformar a produção primária de Mato Grosso do Sul dentro do próprio Estado, agregando valor antes da exportação. Na suinocultura, cooperativas como a Copérdia investem na profissionalização de produtores integrados; no peixe, a Aurora agora entra no mesmo jogo.
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Fontes: Campo Grande News (https://www.campograndenews.com.br/economia/frigorifico-de-itapora-pode-mudar-de-dono-pela-3a-vez-em-sete-anos); AgFeed (https://agfeed.com.br/negocios/aurora-compra-frigorifico-no-ms-e-coloca-a-producao-propria-de-peixes-no-seu-cardapio/); CNN Brasil (https://www.cnnbrasil.com.br/agro/aurora-coop-anuncia-aquisicao-de-ativos-da-mar-terra-em-ms/); O Presente Rural (https://opresenterural.com.br/tilapia-impulsiona-piscicultura-em-mato-grosso-do-sul-e-leva-producao-a-novo-patamar/).
