Mineradora do grupo J&F saiu de 2,5 milhões para 12 milhões de toneladas anuais em quatro anos e prevê R$ 1,91 bilhão para ampliar seu porto no Rio Paraguai; no mesmo período, os royalties recebidos por Corumbá caíram pela metade
A LHG Mining, mineradora do grupo J&F que opera no Maciço do Urucum, em Corumbá e Ladário, no oeste de Mato Grosso do Sul, multiplicou por quase cinco sua produção de minério de ferro em quatro anos. A companhia passou de 2,5 milhões para 12 milhões de toneladas anuais desde que assumiu as operações no Estado, em 2022, um crescimento de 380%. Agora, a meta é ir além do dobro: chegar a 25 milhões de toneladas por ano de minério de ferro e manganês até 2029. Os números foram divulgados pela empresa e publicados pelo Campo Grande News nesta terça-feira (20).
O salto rendeu à LHG o título de Empresa do Ano do Setor Mineral 2026 na categoria Crescimento, em votação promovida pela revista Brasil Mineral. Mas a expansão acelerada convive com uma contradição que a Prefeitura de Corumbá vem apontando desde o início do ano: enquanto a produção dispara, a arrecadação da CFEM, a compensação financeira paga pelas mineradoras aos municípios produtores, encolheu à metade.
De 2,5 milhões a 12 milhões de toneladas
A LHG Mining nasceu em 2022, quando o grupo J&F comprou a antiga MCR (Mineração Corumbaense Reunida). Na época, a operação produzia cerca de 2,5 milhões de toneladas por ano. A empresa explora as minas de Santa Cruz e Urucum, no Maciço do Urucum, região que concentra depósitos de minério de ferro de alto teor, com concentração natural superior a 66%. Segundo a companhia, as reservas minerais somam 1,38 bilhão de toneladas, base que sustenta os planos de crescimento para os próximos anos.
Para cumprir a projeção de 25 milhões de toneladas até 2029, a mineradora precisará acrescentar 13 milhões de toneladas ao volume atual, o que representa uma expansão adicional de aproximadamente 108%. Em maio, reportagem do Campo Grande News registrava a projeção de 16 milhões de toneladas em 2026, alta de 33,3%, e um plano de investimentos próximo de R$ 4 bilhões, anunciado no fim de 2025, para alcançar a nova capacidade.
O presidente da LHG Mining, Darlan Carvalho, associou o prêmio à trajetória dos últimos anos. “Em quatro anos, elevamos a produção de 2,5 milhões para 12 milhões de toneladas por ano, ampliamos a geração de empregos e fortalecemos nossa presença junto às comunidades de Corumbá e Ladário. Esse prêmio reconhece essa evolução e o trabalho de mais de 3 mil colaboradores”, afirmou. A empresa informa que suas operações geram cerca de 3 mil empregos diretos e indiretos no Estado.
O gargalo está na logística
Produzir mais minério, porém, só faz sentido se houver como escoá-lo. Em apresentação feita durante seminário promovido pelo Comando do 6º Distrito Naval, a companhia informou que a estrutura logística instalada hoje em Mato Grosso do Sul permite movimentar cerca de 35 mil toneladas de minério por dia, o que equivale a algo próximo de 12 milhões de toneladas por ano. Em outras palavras, a produção atual já encosta no teto do transporte disponível.
Por isso, o principal projeto da expansão é a ampliação do Terminal Privativo Gregório Curvo, em Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai, em Corumbá. O investimento previsto é de R$ 1,91 bilhão, e a meta é elevar a capacidade anual de embarque para 15 milhões de toneladas. Em 2025, segundo a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), o terminal movimentou 5,6 milhões de toneladas de minério.
A nova estrutura inclui uma pera ferroviária, sistema automatizado de descarga de vagões, transportadores de correia, pátios de armazenamento e um novo píer para o carregamento de barcaças. Segundo a mineradora, depois de concluído o projeto, todo o minério que passar pelo terminal deverá chegar por ferrovia, reduzindo a dependência dos caminhões. Dali, a carga segue pela Hidrovia Paraguai-Paraná rumo a mercados nacionais e internacionais. O cronograma do RIMA (Relatório de Impacto Ambiental) prevê a implantação das obras entre 2026 e 2029.
A aposta na ferrovia conversa diretamente com a disputa pela Malha Oeste. Como o Empreenda MS mostrou em setembro, o grupo J&F está entre os interessados no leilão da ferrovia e tem atenção especial ao trecho de cerca de 45 quilômetros entre as minas e o porto Gregório Curvo. Em outubro, o governo federal incluiu a Malha Oeste na carteira de concessões de 2027, com leilão previsto para agosto do próximo ano.
Licença, dragagem e compensação ambiental
A ampliação do terminal está relacionada ao processo da Licença de Instalação nº 486/2025, no Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). Em agosto, foi firmado um termo de compromisso que destina R$ 21,58 milhões em compensação ambiental a unidades de conservação.
O projeto prevê intervenções em terra e no rio. Estão estimados 234,6 mil metros cúbicos de dragagem e intervenção em aproximadamente 66 hectares de vegetação na área diretamente afetada. Por estar às margens do Rio Paraguai, na porta de entrada do Pantanal, o empreendimento tende a ser acompanhado de perto por órgãos ambientais e pela sociedade civil.
O nível do rio, aliás, é variável decisiva para a expansão. No início de outubro, a Capitania Fluvial do Pantanal ampliou em caráter experimental, por um ano, o calado permitido às barcaças no trecho entre Porto Esperança e a foz do Rio Apa, o que permite carregar mais minério por comboio quando as condições de navegação permitem.
Produção sobe, royalties caem
O contraste mais incômodo da história está nos cofres municipais. Em maio, a Prefeitura de Corumbá, com base em dados da ANM (Agência Nacional de Mineração), informou que a arrecadação da CFEM das mineradoras instaladas no município caiu de R$ 39,479 milhões em 2022 para R$ 19 milhões em 2025. Só entre 2024 e 2025, a queda foi de 41,2%, perda estimada em R$ 13,3 milhões em um ano. Nos quatro primeiros meses de 2026, o recolhimento recuou 44,7%, de R$ 7,828 milhões para R$ 4,329 milhões, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Pela legislação, cerca de 60% da CFEM vai para o município produtor. A secretária de Planejamento, Receita e Administração de Corumbá, Camila de Campos Carvalho, classificou o valor arrecadado como “pífio” diante do crescimento da produção. “O município não está recebendo o retorno financeiro necessário para investir em infraestrutura, saúde e educação, que são justamente essas áreas atendidas pelos recursos da CFEM”, disse ela, em entrevista ao Campo Grande News em maio.
A prefeitura afirma que não tem acesso direto ao detalhamento das notas fiscais e identificou o uso de um CFOP (Código Fiscal de Operações e Prestações) diferente do adotado anteriormente, mudança que, segundo a gestão municipal, afeta o índice de participação do município. A ANM, por sua vez, informou que acompanha o recolhimento de forma contínua, que apura indícios de irregularidade quando necessário e que Corumbá não tem acordo de cooperação técnica com a autarquia para acompanhar fiscalizações. Na ocasião, a LHG Mining não respondeu à reportagem.
Há ainda um descompasso entre o tamanho da operação e quem paga a CFEM mês a mês. Embora a LHG responda por cerca de 80% da extração no município, a Vetria Mineração liderou a arrecadação em abril, com mais de 90% da receita daquele mês, segundo a prefeitura. Outras mineradoras presentes na região, como MMX e 3A Mining, também recolhem a compensação.
Poeira, emprego e efeito multiplicador
O debate vai além dos números. A prefeitura relata desgaste da infraestrutura urbana e reclamações sobre a poeira levantada pelos caminhões que transportam minério até os portos, com impacto sobre a saúde de crianças e idosos e sobre a manutenção de vias, inclusive no entorno de escolas. Nesse ponto, a promessa da empresa de que todo o minério chegue ao novo terminal por ferrovia pode aliviar a pressão sobre as ruas da cidade, desde que o cronograma seja cumprido.
Outra frustração apontada pela gestão municipal é o efeito multiplicador do emprego. Em maio, a avaliação era de que parte relevante da mão de obra contratada vinha de fora e não se fixava em Corumbá com a família, o que reduz o impacto sobre o comércio e os serviços locais. A LHG, por sua vez, destaca os cerca de 3 mil empregos diretos e indiretos e a movimentação de fornecedores e prestadores de serviço em Corumbá e Ladário.
A discussão se encaixa num quadro mais amplo da economia sul-mato-grossense. A indústria extrativa ajudou a puxar a produção industrial do Estado em agosto, segundo o IBGE, e a mineração de Corumbá é hoje uma das frentes que mais crescem em volume no oeste do Estado, ao lado da celulose no leste.
O que vem pela frente
Os próximos três anos vão mostrar se a LHG consegue transformar a meta de 25 milhões de toneladas em realidade. Para isso, dependerá de três fatores: a conclusão das obras do Terminal Gregório Curvo dentro do cronograma de 2026 a 2029, a definição do futuro da Malha Oeste e do ramal ferroviário até o porto, e as condições de navegação do Rio Paraguai, que oscilam com as cheias e as secas do Pantanal.
Para Corumbá, a questão central é outra: garantir que o crescimento da mineração se traduza em receita pública e em melhoria de serviços para a população. A prefeitura informou que mantém diálogo com o governo do Estado sobre o tema. Enquanto a produção avança em ritmo de recorde, a cidade que abriga as minas ainda busca uma fatia proporcional dessa riqueza.
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Fontes: Campo Grande News – Produção de minério de ferro da LHG Mining cresce 380% em 4 anos (20/10/2026); Campo Grande News – Mineração cresce em Corumbá, mas repasses caem e pressionam cofres públicos (05/05/2026).
