Projeto da UFMS com a Secretaria de Saúde já tem protótipos de xarope de guaco e gel de erva-baleeira, mas ainda depende de licença sanitária; horto quer virar referência para municípios que pensam em produzir plantas medicinais
Em uma área de 7 mil metros quadrados dentro da Cidade Universitária da UFMS, em Campo Grande, 70 espécies de plantas medicinais crescem sob os cuidados de um agricultor de 63 anos e a coordenação de uma professora farmacêutica. É ali que funciona o Grande Horto da Farmácia Viva de Mato Grosso do Sul, projeto da Secretaria de Estado de Saúde (SES) com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul que pretende produzir, todos os anos, 40 mil frascos de xarope de guaco e 16 mil bisnagas de gel de erva-baleeira para a rede pública. A previsão da SES, divulgada nesta quarta-feira (21) em reportagem do Campo Grande News, é que os fitoterápicos comecem a chegar aos pacientes do SUS em 2028.
Os primeiros protótipos já existem, mas ainda não podem ser distribuídos. Para começar a produção regular, a Farmácia Viva precisa concluir adequações na estrutura dos laboratórios e obter a Licença Sanitária. Quando o contrato entre o Governo do Estado e a universidade foi assinado, em agosto de 2024, a expectativa anunciada era começar a fabricar medicamentos já em 2025. O cronograma, portanto, se estendeu em cerca de três anos.
Para quem acompanha inovação e desenvolvimento em MS, o projeto interessa por um motivo que vai além da saúde: ele monta, dentro de uma universidade pública, uma cadeia produtiva completa, que vai da produção da muda ao medicamento com controle de qualidade e rastreabilidade de lote. E a coordenação quer transformar essa experiência em referência estadual para prefeituras que pensam em criar hortos de plantas medicinais. Itaporã e Rio Verde já demonstraram interesse.
Saber do campo encontra o laboratório
O agricultor João Batista Lima trabalha há cerca de dois anos e meio com as plantas do horto. Aprendeu a lidar com a terra ainda criança, no meio rural, com os ensinamentos de pessoas mais velhas. Entre as práticas que mantém está a observação das fases da Lua: prefere plantar na crescente e reserva a minguante para a poda. “A própria natureza ensina a gente a trabalhar”, resumiu ao Campo Grande News.
O aprendizado, porém, corre nos dois sentidos. João conta que algumas espécies cultivadas no horto eram desconhecidas para ele, e de outras sabia da existência sem conhecer os nomes. Já a professora e farmacêutica Soraya Solon, que coordena o projeto na UFMS, admite que no início da implantação não dominava as técnicas práticas de cultivo e produção de mudas. Foi com a experiência do agricultor, e com um curso específico, que passou a entender melhor essa etapa. “Nós só existimos como existimos por causa dele”, afirmou a coordenadora.
O resultado aparece nos números. O projeto previa inicialmente o plantio de 125 unidades de cada uma das quatro espécies escolhidas para a produção de fitoterápicos. Segundo Soraya, João conseguiu ampliar esse número para 240 plantas de cada espécie, quase o dobro do planejado. A equipe também conta com a orientação de um engenheiro agrônomo com experiência em Farmácia Viva, que ajuda a planejar a produção.
O horto ocupa hoje 7 mil dos 10 mil metros quadrados (um hectare) cedidos pela UFMS. A área restante ainda depende da ampliação do sistema de irrigação. Além do cultivo para medicamentos, o espaço recebe atividades de ensino e extensão, com estudantes de diferentes cursos, crianças e idosos.
Quatro plantas escolhidas pelo perfil de saúde de MS
Das 70 espécies do horto, quatro foram selecionadas para a primeira linha de produtos destinados ao SUS: guaco, erva-baleeira, capim-cidreira e colônia. De acordo com a supervisora do projeto pela SES, Márcia Gutierrez, a escolha foi precedida de um levantamento epidemiológico, que considerou as necessidades de saúde da população sul-mato-grossense, as características das plantas e a viabilidade de cultivo.
O guaco vai virar xarope, por causa da ocorrência de problemas respiratórios e do uso já consolidado desse fitoterápico nos serviços de saúde. A erva-baleeira será usada em um gel com ação anti-inflamatória, pensado como opção complementar para pacientes com problemas articulares. O capim-cidreira e a colônia serão oferecidos como plantas secas para uso medicinal em chá. Na apresentação do projeto, em 2024, a SES descreveu essas duas últimas como espécies de ação ansiolítica.
A meta anual é produzir 40 mil frascos de xarope de guaco, 16 mil bisnagas de gel de erva-baleeira, 800 embalagens de 100 gramas de capim-cidreira e outras 800 de colônia. Quando o contrato foi assinado, a previsão era atender a população próxima à Farmácia Escola da UFMS, pacientes das unidades de saúde Dr. Jorge David Nasser, Dona Neta, Vila Carlota e Guanandi e pacientes ambulatoriais do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian.
Do canteiro ao frasco, com rastreabilidade
Transformar uma planta em medicamento exige uma sequência de etapas. Depois da colheita, o material passa por seleção, limpeza, secagem e armazenamento. As amostras são submetidas a análises físico-químicas e microbiológicas antes de serem liberadas para a preparação farmacêutica. Segundo Soraya, esses procedimentos permitem verificar a qualidade das matérias-primas e garantir a rastreabilidade dos lotes, da origem das plantas até a preparação final. O trabalho envolve laboratórios e serviços de controle de qualidade, entre eles o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).
Esse é o ponto que aproxima o projeto do universo da inovação. O modelo Farmácia Viva nasceu no Ceará, nos anos 1980, a partir do trabalho do professor Francisco José de Abreu Matos, da Universidade Federal do Ceará, e foi incorporado ao SUS em 2010 pelo Ministério da Saúde, dentro da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, criada em 2006. Desde 2013, as boas práticas exigidas dessas unidades seguem regras próprias da Anvisa. Na prática, trata-se de aplicar padrão farmacêutico a uma produção de pequena escala, com base em conhecimento tradicional validado pela ciência, algo que exige equipe multidisciplinar, laboratório e processo documentado.
O dinheiro para estruturar a unidade de MS veio do Ministério da Saúde: R$ 987.302,26, sendo R$ 648.769,26 para manutenção e R$ 338.533,00 para estruturação, com gestão da Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (Fapec). Em abril deste ano, a Fapec abriu pregão eletrônico de R$ 53.366,98 para comprar equipamentos como estufa de esterilização e secagem, estereomicroscópio, balança de precisão, banho ultratermostático, centrífuga, capela de exaustão, pHmetro e termohigrômetro, com entrega prevista na Cidade Universitária.
O que ainda falta para a produção começar
Segundo Márcia Gutierrez, o projeto já recebeu a Certidão de Regularidade Técnica do Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul (CRF/MS), documento necessário para a regularização. A Vigilância Sanitária também fez uma visita técnica e apresentou as exigências que precisam ser cumpridas antes de autorizar a fabricação dos medicamentos.
Parte das adequações é física: mudanças em portas, ralos e torneiras dos laboratórios, de acordo com Soraya. Os equipamentos de cultivo e processamento já foram adquiridos, mas ainda faltam materiais para as atividades de manipulação e controle de qualidade. Hoje, a equipe faz testes de processamento e já tem protótipos de xarope de guaco, gel de erva-baleeira e ervas secas de capim-cidreira e colônia.
A linha do tempo ajuda a medir o desafio. Em agosto de 2024, a assinatura do contrato veio acompanhada da promessa de produção a partir de 2025. Em outubro de 2025, a SES informava que os recursos federais já tinham sido aplicados na estrutura física e técnica, mas que a produção ainda não havia começado. Em abril de 2026, o projeto seguia na fase de cultivo, ainda sem alvará sanitário e com a compra de equipamentos em andamento. Agora, a data de referência passou a ser 2028.
Referência para municípios e oportunidade no interior
Além de produzir medicamentos, a Farmácia Viva pretende funcionar como referência estadual para apoiar municípios interessados em criar hortos de plantas medicinais. A proposta inclui orientação técnica, produção de mudas, atividades educativas sobre o uso seguro das plantas e formação de profissionais de saúde para trabalhar com fitoterápicos. Itaporã e Rio Verde já procuraram a equipe.
O interesse das prefeituras tem lastro financeiro. Em outubro de 2025, uma portaria do Ministério da Saúde habilitou 35 municípios de Mato Grosso do Sul a receber, ao todo, R$ 1.014.682 para ações da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, com valores entre R$ 2.238 e R$ 49.553,50. Corumbá (R$ 49,5 mil), Ponta Porã (R$ 48,7 mil) e Aquidauana (R$ 29,1 mil) ficaram com as maiores fatias, e Itaporã, um dos interessados no modelo da UFMS, recebeu cerca de R$ 15 mil.
Se a rede de hortos municipais avançar, a demanda por mudas, cultivo padronizado, secagem e análise de qualidade tende a crescer fora da Capital, o que pode abrir espaço para produtores locais, de forma parecida com o que já acontece quando prefeituras reservam parte da merenda escolar para a agricultura familiar. O projeto também reforça o papel da UFMS como ponte entre pesquisa e aplicação prática, tema que apareceu com força no Integra UFMS, que reuniu 2,1 mil trabalhos neste mês, e se soma ao debate sobre o valor da biodiversidade do Cerrado e do Pantanal, que vêm perdendo vegetação nativa.
Próximos passos
Enquanto a autorização da Vigilância Sanitária não sai, o trabalho no horto continua. Para João, ver as espécies que ajudou a cultivar virarem preparações farmacêuticas é motivo de satisfação. “Eu fico feliz”, disse, ao falar do guaco que já deu origem ao protótipo de xarope.
Os próximos marcos são a conclusão das obras de adequação dos laboratórios, a compra dos materiais que faltam para manipulação e controle de qualidade, a emissão da Licença Sanitária e, por fim, o início da distribuição na rede pública, previsto pela SES para 2028.
Fontes: Campo Grande News, Na UFMS, agricultor e professora trocam saberes para produzir medicamentos (21/10/2026); Edital prevê R$ 53 mil em equipamentos para Farmácia Viva (10/04/2026); MS recebe R$ 1 milhão para programa de plantas medicinais no SUS (12/10/2025); Projeto Farmácia Viva criará fitoterápicos para principais doenças de MS (15/08/2024).
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