Protocolo firmado em Guangzhou prevê troca de informações de mercado, visitas técnicas, feiras e intercâmbio de especialistas; 53 empresários de MS já viram robôs, automação e armazenamento de energia, mas negócios ainda não foram fechados
A missão empresarial de Mato Grosso do Sul à China ganhou uma nova frente. Durante o Encontro Empresarial Brasil–Guangdong, realizado em Guangzhou, a Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) assinou um protocolo de intenções com a Guangdong Chamber of Commerce of Importers & Exporters, entidade empresarial chinesa voltada ao comércio internacional. O documento prevê dois anos de cooperação para aproximar indústrias dos dois mercados e ampliar as oportunidades de comércio exterior, segundo informou o Campo Grande News nesta segunda-feira (19).
A assinatura marca uma mudança de etapa na viagem. A comitiva, que reúne 53 empresários de diferentes setores do Estado, saiu de Mato Grosso do Sul com foco em conhecer tecnologias, prospectar fornecedores e visitar fabricantes. Com o protocolo, a Fiems tenta criar um canal institucional permanente com o setor empresarial chinês, que possa sobreviver ao fim da missão e gerar projetos de longo prazo.
O que diz o protocolo
O acordo estabelece uma agenda de cooperação ampla. Entre as iniciativas previstas estão a troca de informações sobre mercados e regulamentações, a identificação de oportunidades comerciais, a realização de visitas técnicas e reuniões de negócios, a participação em feiras, seminários e encontros empresariais, além de ações de qualificação profissional e de intercâmbio de pesquisadores e especialistas.
O texto também contempla temas que vêm ganhando peso no comércio internacional, como indicações geográficas, responsabilidade social, economia circular e sustentabilidade, incluindo estudos sobre práticas ESG, sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança. Esses pontos são relevantes para um Estado que exporta principalmente produtos ligados ao campo e à floresta plantada, setores cada vez mais cobrados por rastreabilidade e por comprovação de boas práticas socioambientais.
Como próximo passo, as duas instituições poderão formar um grupo de trabalho para desenvolver projetos específicos e acompanhar as oportunidades de cooperação. A criação desse grupo, porém, aparece no documento como uma possibilidade, e não como uma estrutura já estabelecida. Ou seja, o protocolo abre a porta, mas os resultados práticos ainda dependem dos projetos que vierem a ser construídos pelas duas entidades.
Quem assinou e o que a Fiems espera
O protocolo foi assinado por Luiz Gonzaga Crosara Júnior, vice-presidente da Fiems, que representou a federação no encontro. Também participaram o cônsul-geral do Brasil em Guangzhou, embaixador Alan Coêlho de Séllos, e representantes do setor empresarial chinês, entre eles Rich Wu, ligado à entidade de Guangdong.
Segundo Crosara, a intenção é transformar os contatos feitos durante a viagem em relações comerciais duradouras, que vão além da compra de equipamentos e da identificação de fornecedores. “Nosso objetivo é construir pontes permanentes entre as empresas de Mato Grosso do Sul e o mercado chinês. Mais do que identificar fornecedores e oportunidades imediatas, queremos desenvolver relações de longo prazo, promover o intercâmbio de conhecimento e criar condições para que nossas indústrias sejam cada vez mais competitivas”, afirmou o vice-presidente, de acordo com o Campo Grande News.
A iniciativa faz parte da estratégia de internacionalização empresarial da Fiems, conduzida sob a liderança do presidente da entidade, Sérgio Longen, que incentiva a aproximação das indústrias sul-mato-grossenses com mercados estrangeiros e com centros internacionais de inovação. Além da relação direta com a entidade chinesa, o acordo busca ampliar a integração entre organizações empresariais dos dois países e criar condições para iniciativas conjuntas.
Por que Guangdong
A escolha de Guangdong como ponto de aproximação comercial não é casual. A província, no sul da China, concentra polos industriais e comerciais que podem abrir caminhos para parcerias em manufatura, tecnologia, logística e comércio internacional. É lá que fica Guangzhou, sede da Canton Fair, uma das principais feiras internacionais de negócios do mundo e um dos destinos da comitiva sul-mato-grossense.
Conforme reportagem do jornal A Crítica de Campo Grande publicada em 29 de setembro, a programação da missão previa a participação na primeira fase da 140ª edição da Canton Fair, entre 15 e 19 de outubro, com foco em manufatura avançada, automação industrial, máquinas, eletrônicos, mobilidade, energia e novas tecnologias. O roteiro divulgado pela Fiems também incluía uma etapa na Coreia do Sul, em Seul, com visitas a empresas, atividades em ambientes educacionais e encontro com o embaixador do Brasil no país, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel. A coordenação da missão está a cargo de Aurélio Rolim Rocha, diretor de Relações Internacionais do Sistema Fiems.
Segundo o Campo Grande News, a viagem começou em 14 de outubro e tem duração prevista de 24 dias.
Robôs, automação e energia no radar dos empresários
Nos primeiros dias da missão, os empresários de Mato Grosso do Sul conheceram soluções de robótica, inteligência artificial, automação industrial, mobilidade elétrica e energia. Entre as tecnologias observadas estão robôs para inspeção industrial, equipamentos autônomos para manutenção de áreas verdes, sistemas de limpeza de painéis solares e soluções de armazenamento de energia.
São áreas com aplicação direta na economia do Estado. A automação e a robótica interessam a indústrias de alimentos, celulose, biocombustíveis e metalurgia, que buscam ganhar produtividade e lidar com a dificuldade de contratar mão de obra qualificada. As soluções de energia, por sua vez, dialogam com a expansão da geração solar em Mato Grosso do Sul e com a necessidade de empresas rurais e urbanas de reduzir custos com eletricidade.
Até o balanço divulgado anteriormente pela comitiva, porém, os participantes tinham recebido catálogos, informações técnicas e contatos comerciais, mas ainda não haviam fechado negócios. A avaliação das oportunidades depende de fatores como custos, viabilidade de importação, assistência técnica e adequação das soluções à realidade brasileira. É um ponto sensível para quem pensa em trazer máquinas de fora: o preço de compra é só uma parte da conta, que também inclui frete, tributos, adaptação a normas técnicas nacionais e a garantia de manutenção e de peças de reposição.
A aproximação institucional com a entidade de Guangdong acrescenta uma nova frente à viagem justamente por isso. Um canal permanente entre as duas entidades pode facilitar o acesso a informações sobre fornecedores, regras comerciais e certificações, reduzindo parte das incertezas que hoje pesam sobre as empresas interessadas em importar tecnologia ou em vender para o mercado chinês.
Uma relação de bilhões de dólares
A relação comercial entre Mato Grosso do Sul e a China já movimenta bilhões de dólares por ano. De acordo com informações da Fiems divulgadas antes da missão e citadas pelo Campo Grande News, o Estado foi o nono do Brasil que mais exportou para o mercado chinês em 2025, com vendas de US$ 4,78 bilhões, o equivalente a 5% das exportações brasileiras destinadas ao país asiático.
Em 2026, a China segue como destino central da produção sul-mato-grossense. Segundo números citados pela A Crítica, entre janeiro e agosto deste ano as vendas de Mato Grosso do Sul para a China somaram US$ 1,83 bilhão, com cerca de 2,5 milhões de toneladas embarcadas. Celulose e carne bovina responderam por 93,2% da receita das exportações industriais para o país, cerca de US$ 1,7 bilhão. Já as exportações industriais para a Coreia do Sul, segundo destino da missão, somaram US$ 37 milhões no período, lideradas por celulose, carne de frango e farelo de soja.
A concentração da pauta em poucos produtos é um dos pontos de atenção para o setor produtivo. Hoje, a relação com a China é marcada sobretudo pela venda de commodities. Um acordo de cooperação que inclua intercâmbio técnico, feiras e qualificação profissional pode ajudar empresas de Mato Grosso do Sul a diversificar a presença no mercado chinês e a conhecer de perto as cadeias de fornecimento de tecnologia daquele país.
Missões internacionais como estratégia
A viagem à Ásia se soma a outras iniciativas de internacionalização de empresas de Mato Grosso do Sul em 2026. O movimento acompanha a busca por novos mercados para produtos do Estado e por tecnologias que aumentem a competitividade da indústria local, num ano em que o setor produtivo também acompanha de perto temas como a abertura de mercados para a carne, o acordo entre Mercosul e União Europeia e a futura operação da Rota Bioceânica, que deve aproximar o Estado dos portos do Pacífico e, por consequência, dos mercados asiáticos.
Para pequenas e médias indústrias, as missões funcionam como uma vitrine de tecnologias e fornecedores que dificilmente seriam acessados de outra forma. O desafio, como mostra o próprio balanço parcial da comitiva, é transformar visitas e catálogos em contratos, investimentos e projetos concretos depois que os empresários voltam para casa.
Próximos passos
Com o protocolo assinado, a expectativa da Fiems é ampliar as possibilidades de intercâmbio e transformar a aproximação empresarial em parcerias de longo prazo. Os resultados comerciais, porém, ainda dependem dos projetos que vierem a ser desenvolvidos pelas duas instituições, incluindo a eventual formação do grupo de trabalho previsto no documento.
A missão segue em andamento, e os próximos balanços da comitiva devem mostrar se os contatos com fabricantes chineses vão se converter em compras, representações comerciais ou novos negócios para as empresas de Mato Grosso do Sul. Para o Estado, o teste do acordo será justamente esse: mostrar, nos próximos dois anos, se a cooperação institucional consegue ir além do papel e gerar resultados para a indústria local.
Fontes: Campo Grande News (https://www.campograndenews.com.br/economia/empresarios-de-ms-assinam-parceria-para-abrir-novas-oportunidades-na-china); A Crítica de Campo Grande (https://acritica.net/economia/fiems-leva-cerca-de-50-empresarios-a-china-e-coreia-do-sul-em-missao-de-negocios/).
