Campo Grande, Dourados e Três Lagoas concentram oito em cada dez novos eletrificados, mas a tecnologia ainda responde por menos de 1% da frota do Estado e a recarga fora da Capital segue como desafio
Mato Grosso do Sul ganhou quase 5 mil veículos elétricos e híbridos em apenas um ano. Entre setembro de 2025 e setembro de 2026, a frota eletrificada do Estado saltou de 6.998 para 11.996 unidades, um crescimento de 71,4%, segundo levantamento feito pelo Campo Grande News com base nas planilhas oficiais da Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), ligada ao Ministério dos Transportes. No mesmo intervalo, a frota total sul-mato-grossense cresceu 3,5%, de 2,02 milhões para 2,09 milhões de veículos. Em outras palavras, os carros que usam eletricidade de alguma forma avançaram em ritmo cerca de 20 vezes maior que o conjunto da frota.
O movimento é puxado pela Capital, mas já aparece em municípios de médio e pequeno porte, acompanhando a virada que o mercado brasileiro vive em 2026. Ainda assim, os números mostram que a transição está no começo: de cada mil veículos registrados em Mato Grosso do Sul, só cerca de seis têm algum tipo de motorização elétrica ou híbrida.
Elétricos puros dobram em 12 meses
O levantamento considerou os 79 municípios do Estado e somou oito classificações de combustível usadas pela Senatran para identificar a frota eletrificada: Elétrico, Elétrico/Fonte Externa, Elétrico/Fonte Interna, Gasolina/Elétrico, Gasolina/Álcool/Elétrico, Diesel/Elétrico, Híbrido e Híbrido Plug-in.
Dentro desse universo, o grupo que mais cresceu foi o dos veículos registrados exclusivamente como elétricos. Eles passaram de 1.367 para 2.811 unidades em um ano, alta de 105,6%. Na prática, a frota de elétricos puros mais que dobrou em Mato Grosso do Sul entre setembro de 2025 e setembro de 2026.
As demais categorias, que reúnem os sistemas híbridos e as combinações de combustíveis com eletricidade, cresceram de 5.631 para 9.185 unidades, avanço de 63,1%. Os híbridos continuam sendo a maior parte da frota eletrificada do Estado, mas perderam espaço relativo para os modelos que dependem apenas da bateria.
A participação dos eletrificados no total também subiu. Em setembro de 2025, eles representavam 0,35% de todos os veículos registrados em Mato Grosso do Sul. Um ano depois, a fatia chegou a 0,57%. É um avanço importante em termos proporcionais, mas que deixa claro o tamanho do caminho que ainda existe pela frente: mais de 99% da frota estadual segue registrada em outras categorias de combustível, como gasolina, etanol, flex e diesel.
Campo Grande se aproxima de um eletrificado a cada cem veículos
Campo Grande lidera com folga a expansão em números absolutos. A Capital tinha 4.304 veículos elétricos e híbridos em setembro de 2025 e passou a 7.364 em setembro de 2026, um acréscimo de 3.060 unidades, ou 71,1%. Sozinha, a cidade responde por mais de 60% de toda a frota eletrificada do Estado.
O número equivale a cerca de 0,99% da frota total da cidade, que alcançou 747.256 veículos em setembro. Com isso, Campo Grande está muito perto da marca simbólica de um veículo eletrificado para cada cem registrados, proporção bem acima da média estadual.
Dourados aparece em segundo lugar, com o crescimento percentual mais forte entre as maiores cidades: a frota eletrificada passou de 909 para 1.678 veículos, alta de 84,6%. Três Lagoas vem em seguida, com aumento de 301 para 528 unidades, ou 75,4%.
Juntas, as três cidades concentraram 81,2% do aumento líquido de veículos elétricos e híbridos registrado em Mato Grosso do Sul nos 12 meses analisados.
Corumbá ocupa a quarta posição em crescimento absoluto, com aumento de 138 para 223 unidades, ou 61,6%. Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, aparece em quinto lugar, passando de 178 para 256 veículos, expansão de 43,8%.
Interior também entra na rota
Os dados mostram que a eletrificação deixou de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros. Em Rio Brilhante, o número de veículos elétricos e híbridos praticamente dobrou, de 38 para 75, alta de 97,4%. Em Costa Rica, no norte do Estado, a quantidade subiu de 34 para 66, avanço de 94,1%.
Amambai, no sul, apresentou expansão de 89,7%, passando de 39 para 74 unidades. Em Paranaíba, na divisa com Minas Gerais e Goiás, a frota eletrificada cresceu 76,1%, de 67 para 118 veículos.
São números ainda pequenos em valores absolutos, mas que indicam uma mudança de comportamento em cidades ligadas ao agronegócio e a outras cadeias produtivas do interior, onde o carro é ferramenta de trabalho e as distâncias são longas. Nesses municípios, a escolha por um híbrido ou elétrico costuma estar associada à economia de combustível no uso diário e à possibilidade de recarga em casa ou no próprio negócio.
Um retrato da virada nacional
O salto em Mato Grosso do Sul acompanha o momento do mercado brasileiro. Segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), o país ultrapassou em setembro a marca de 1 milhão de veículos leves eletrificados emplacados desde 2012. De acordo com dados da entidade divulgados pelo site AutoPapo, a marca foi atingida em 24 de setembro e anunciada pelo presidente da ABVE, Ricardo Bastos.
O ritmo de 2026 explica boa parte desse resultado. De janeiro a setembro, foram 381.609 eletrificados vendidos no Brasil, o equivalente a cerca de 38% de toda a série histórica iniciada em 2012, segundo números da ABVE Data publicados pelo Canal VE. Só em setembro, foram 53.126 emplacamentos, e os eletrificados responderam por 19,8% de todos os veículos leves vendidos no país no mês, mais que o dobro dos 9,2% registrados em setembro de 2025. A associação projeta cerca de 450 mil eletrificados vendidos no ano.
O perfil de vendas também mudou. Em setembro, os elétricos puros (BEV) responderam por 41,9% dos emplacamentos de eletrificados no país, à frente dos híbridos plug-in (38%). Os híbridos flex e os híbridos convencionais completaram a conta. É o mesmo movimento que aparece nos registros de Mato Grosso do Sul, onde os veículos exclusivamente elétricos foram a categoria que mais cresceu.
Vale uma ressalva de método. Os números nacionais da ABVE medem emplacamentos acumulados, enquanto os dados da Senatran usados no levantamento estadual representam o estoque de veículos registrados em cada município no mês de referência. Por isso, a diferença entre setembro de 2025 e setembro de 2026 em Mato Grosso do Sul não corresponde necessariamente ao número de carros novos vendidos no Estado: ela pode incluir transferências de registro entre municípios e estados, baixas e outras alterações cadastrais.
Recarga ainda é o principal gargalo
Se o número de carros cresce rápido, a infraestrutura de recarga é o ponto que mais preocupa quem pensa em comprar um elétrico em Mato Grosso do Sul, principalmente fora da Capital.
Reportagem do Midiamax publicada em fevereiro de 2025 já mostrava esse descompasso. Na época, uma busca no aplicativo PlugShare apontava mais de 25 pontos de recarga em Campo Grande, espalhados por universidades, empresas, shoppings, condomínios, supermercados e até salões de beleza. Um dos mais procurados era o eletroposto da UFMS, gratuito e com carregador rápido de 60 kW, que costumava ficar lotado, principalmente por motoristas de aplicativo.
No interior, o cenário era bem mais limitado. Segundo a mesma reportagem, não havia eletropostos públicos de carga rápida fora de Campo Grande, e cidades com grande movimento, como Três Lagoas, ainda não tinham estrutura adequada. Em Dourados, havia um carregador rápido em um hotel e outro em fase final de instalação. O especialista Carlos Alberto Martins Sá, ouvido pelo Midiamax, defendia na ocasião que a distância entre eletropostos nas rodovias não passasse de “200 a 250 quilômetros” e sugeria pontos estratégicos em cidades de saída, como Três Lagoas, Mundo Novo e Sonora, e de passagem, como Água Clara, Coxim e São Gabriel do Oeste.
O retrato de 2025 ajuda a entender o desafio de agora. Com a frota eletrificada crescendo mais de 70% em um ano, a demanda por recarga rápida em estradas e por pontos públicos nos municípios tende a aumentar no mesmo ritmo, abrindo espaço para investimentos de shoppings, postos de combustível, redes de hotéis, concessionárias de rodovias e empresas de energia.
A mesma reportagem lembrava que a maior parte dos carregadores rápidos é paga, com preços que variavam entre R$ 0,99 e R$ 4,00 por kWh, e que a instalação de um carregador residencial, de cerca de 7 kW, custava em média R$ 2.700, seguindo a norma técnica NBR 17019. Para quem roda principalmente dentro da cidade, a recarga em casa ou no trabalho resolve a maior parte das necessidades. O problema aparece nas viagens longas, comuns em um Estado com grandes distâncias entre os municípios.
Oportunidade para empreendedores e para o setor de energia
O crescimento da frota eletrificada também abre uma frente de negócios em Mato Grosso do Sul. Instalação de carregadores residenciais e comerciais, manutenção especializada, venda de peças, seguros, locação de veículos elétricos, aplicativos de gestão de recarga e serviços para frotas corporativas são alguns dos segmentos que tendem a ganhar mercado à medida que a tecnologia se espalha.
Há ainda a ligação com a geração de energia. Empresas de energia solar já aparecem entre as que oferecem recarga em Campo Grande, combinando a venda de sistemas fotovoltaicos com o abastecimento de veículos. Para pequenos negócios, como restaurantes, hotéis, pousadas e lojas de rodovia, oferecer um ponto de recarga pode se tornar um diferencial para atrair clientes que fazem viagens mais longas e precisam parar por algum tempo.
Próximos passos
A velocidade da expansão da frota eletrificada nos próximos anos vai depender, em boa medida, de três fatores: preço dos modelos, condições de crédito e oferta de pontos de recarga, sobretudo nas rodovias e nas cidades do interior.
Os dados da Senatran são atualizados mensalmente e permitem acompanhar, município a município, a evolução da frota. Para empreendedores, gestores públicos e investidores, o recado dos números é claro: a mobilidade elétrica ainda ocupa uma fatia pequena das ruas de Mato Grosso do Sul, mas já deixou de ser novidade para se tornar uma tendência em ritmo acelerado, com impacto direto em infraestrutura, energia e novos negócios.
Fontes: Campo Grande News (https://www.campograndenews.com.br/economia/frota-de-eletricos-e-hibridos-cresce-71-em-ms-e-se-aproxima-de-12-mil-veiculos); Canal VE, com dados da ABVE (https://canalve.com.br/setembro-teve-marca-historica-53-mil-novos-ves/); AutoPapo, com dados da ABVE (https://autopapo.com.br/curta/brasil-supera-1-milhao-de-carros-eletrificados-mais-de-um-terco-foi-vendido-em-2026/); Midiamax (https://midiamax.com.br/cotidiano/2025/numero-de-eletropostos-cresce-em-campo-grande-mas-recarregar-de-forma-rapida-no-interior-ainda-e-desafio/).
